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Corrupção do caráter 1 - Moro: lírico da caveira e face da extrema-direita

Carla Zambelli e seu marido (1), no casamento ocorrido nesta sexta, ouvem Moro dizer que a parlamentar mereceria uma caveira como distinção. Em 2012 (2), Carla e outras militantes com a camiseta do grupo Femen: em busca de uma causa. Moro e sua "conja" (3) dançam com os noivos "La Vie en Rose" na versão "caveira". Weintraub (4), à esquerda na foto, era um dos presentes. E Édith Piaf (5), coitada!", a espancada da noite  - reproduções
Carla Zambelli e seu marido (1), no casamento ocorrido nesta sexta, ouvem Moro dizer que a parlamentar mereceria uma caveira como distinção. Em 2012 (2), Carla e outras militantes com a camiseta do grupo Femen: em busca de uma causa. Moro e sua "conja" (3) dançam com os noivos "La Vie en Rose" na versão "caveira". Weintraub (4), à esquerda na foto, era um dos presentes. E Édith Piaf (5), coitada!", a espancada da noite Imagem: reproduções
Reinaldo Azevedo

Reinaldo Azevedo

Reinaldo Azevedo, que publicou aqui o primeiro post no dia 24 de junho de 2006, é colunista da Folha e âncora do programa “O É da Coisa”, na BandNews FM. No UOL, Reinaldo trata principalmente de política; envereda, quando necessário — e frequentemente é necessário —, pela economia e por temas que dizem respeito à cultura e aos costumes. É uma das páginas pessoais mais longevas do país: vai completar 13 anos no dia 24 de junho.

Colunista do UOL

17/02/2020 08h14

É claro que a operação Lava Jato meteu corruptos em cana e desbaratou esquemas criminosos que envolviam dinheiro público. É seu lado virtuoso, reconhecido por todos. Mas alguns de seus protagonistas aproveitaram também para tentar destruir o estado de direito.

O lava-jatismo, que é a Lava Jato convertida em ideologia, enfeixa hoje o conjunto de valores da extrema-direita mais abjeta. E chega a ser espantoso que alguns medalhões da imprensa tentem operar o intelectual e moralmente impossível: dar apoio a gente como Sergio Moro, Deltan Dallagnol e Marcelo Bretas — o que inclui admitir seus métodos —, mas combater Jair Bolsonaro.

Não dá! A trinca representa um perigo maior para a democracia do que o próprio presidente. E este fim de semana o evidenciou de maneira eloquente.

Na sexta, em Brasília, a deputada bolsonarista Carla Zambelli (PSL-SP) trocou alianças, contraiu núpcias, uniu o seu destino ao de um esposo... Não sei a que outras perífrases eu poderia recorrer para fazer jus ao evento. Lá estava o ex-juiz Moro, hoje ministro da Justiça, devidamente escoltado por sua coruscante "conja", doutora Rosângela. Outras figuras ilustres da truculenta extrema-direita de chanchada se fizeram presentes, como os ministros Abraham Weintraub (Educação) e Ernesto Araújo (Relações Exteriores). E havia até espaço para momices: Regina Duarte.

Carla casou-se com o coronel da PM do Ceará Antônio Aginaldo de Oliveira, que se tornou diretor da Força Nacional de Segurança em dezembro de 2018, antes da posse de Bolsonaro, mas já num entendimento com o futuro governo.

Um salto em tanto para a deputada Carla, que, em 2012, grávida, posava com a barriga de fora — segundo seu testemunho, perdeu espontaneamente aquele bebê —, vestindo camiseta do Femen, movimento feminista. Buscava uma causa... Reinventou-se primeiro como defensora do impeachment de Dilma e depois como extremista de direita.

Coube a Moro fazer o discurso de saudação ao casal. E ele então disparou estas elegantes palavras:
"Não é todo mundo que sai na rua com coragem para protestar, para manifestar pelo bem do país. Eu, sinceramente, não sei se teria esse tipo de coragem. Mas é uma guerreira. Sem formação de policial militar, mas mereceria aqui uma medalha de caveira honorária de tropa especial".

Carla, como era esperado, não resistiu à força lírica da imagem e chorou. Pensem bem! No dia de seu casamento, ela mereceria, segundo Moro, ganhar uma caveira... É muita emoção.

Dizer o quê? Ainda que o "conjo" de Carla seja um policial militar, um ministro da Justiça há de ser responsável pelos símbolos que evoca. Nunca ninguém havia antes apelado à caveira com uma espada fincada no cocuruto para desejar aos nubentes o "felizes para sempre". A militante que o ministro exaltava saiu às ruas pelo impeachment de Dilma — e ao ex-juiz que condenou Lula caberia um mínimo de decoro, o que ele nunca teve e não tem —, mas também é useira e vezeira em pedir a cabeça de ministros do Supremo. Nem Celso de Mello escapou à sua fúria quando este estendeu aos crimes de homofobia as punições previstas na lei contra o racismo.

Em sinal de agradecimento, a deputada então convocou Moro e sua conja para dividir com os noivos aquela que, entende-se, seria a valsa dos pombinhos. E eis que "La Vie en Rose" é então executada, se é que me entendem, ao piano.

Se eu acreditasse que os mortos voltam para atormentar os vivos — não me refiro a dores de consciência —, os fantasmas de Édith Piaf e Louis Guglielmi poriam fim à festa.

Sem contar, né?, que Piaf não parece ser exatamente o tipo de pessoa que reacionários convictos devam exaltar. É bem verdade que já vimos cavalgaduras de extrema-direita a protestar em show de Roger Waters, indignados com o seu esquerdismo...

"Piaf? Mas essa não é aquela música da Lady Gaga, naquele filme lá, com aquele do 'shallow now'"?

Moro, o homem que faz poesia barata com a caveira.

O ex-juiz é hoje o líder inconteste da direita mais reacionária, mais atrasada, mais fascistoide. Tudo o que há de ruim no pensamento do chefe também povoa a mente do subordinado, que vai além.

O ministro da Justiça tentou impor a Bolsonaro o combate à nova lei que pune abuso de autoridade e o veto ao juiz de garantias. Não conseguiu. Torce para que o escândalo envolvendo Flávio atropele a candidatura do presidente à reeleição, hipótese em que o ex-togado, então, tomaria o seu lugar.

Se e quando acontecer, aí, de fato, a democracia estará por um fio.

Reinaldo Azevedo