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Maia, deixe rolar o "militarismo branco". Vamos ver quem primeiro pede água

Rodrigo Maia e Davi Alcolumbre: sem eles, o governo já teria caído. Não obstante, serão os alvos dos fascistoides - Sérgio Lima/Poder 360
Rodrigo Maia e Davi Alcolumbre: sem eles, o governo já teria caído. Não obstante, serão os alvos dos fascistoides Imagem: Sérgio Lima/Poder 360
Reinaldo Azevedo

Reinaldo Azevedo

Reinaldo Azevedo, que publicou aqui o primeiro post no dia 24 de junho de 2006, é colunista da Folha e âncora do programa “O É da Coisa”, na BandNews FM. No UOL, Reinaldo trata principalmente de política; envereda, quando necessário — e frequentemente é necessário —, pela economia e por temas que dizem respeito à cultura e aos costumes. É uma das páginas pessoais mais longevas do país: vai completar 13 anos no dia 24 de junho.

Colunista do UOL

27/02/2020 07h08

Ora, ora, ora...

Então o presidente Jair Bolsonaro retransmite a "amigos" um vídeo de apoio às manifestações delinquentes contra o Congresso e o Supremo e, claro!, ingênuo que é, não contava que isso pudesse vazar? Que tentasse enganar a si mesmo, vá lá... Que tente nos enganar, aí é do balacobaco. Cometeu crime de responsabilidade, claro!

Operou sob medida. Se lança o troço nas suas redes sociais, seria uma afronta explícita. Como se deu a coisa, tanto melhor. Agora a sua patota está devidamente informada: as manifestações fascistoides contam com o seu apoio.

Não foi muito diferente com a greve de policiais militares no Ceará e os movimentos de caráter sindical das PMs em outros Estados. O silencio da excelência a respeito é eloquente. As lideranças criminosas se identificam com o bolsonarismo.

Em sua "live", o presidente criticou o senador Cid Gomes (PDT-CE) e não disse palavra sobre a truculência ilegal dos grevistas. Onyx Lorenzoni, seu ministro da Cidadania, chamou os tiros disparados contra Cid de "legítima defesa".

Nos delírios mais ensandecidas da malta reacionária, as PMs atuarão como força, digamos, "revolucionária" em favor do bolsonarismo num confronto final com as esquerdas. Falta a essa gente decência. Mas também falta um psiquiatra que possa recomendar o remédio certo.

E o general Augusto Heleno? A sua foto circula pra lá e pra cá nas páginas da esgotosfera, como símbolo do que consideram uma necessária intervenção militar no Congresso e no Supremo. Alguém ouviu o ministro desautorizar o uso de sua imagem?

E olhem que a Abin (Agencia Brasileira de Inteligência) está subordinada à sua pasta. Ele poderia cobrar ainda que Sergio Moro, que engoliu a língua, pedisse à Polícia Federal que investigasse quem decidiu associá-lo a um golpe de Estado. Mas o general não fez nada. Até porque é sua a ideia de o presidente partir para a galera contra os outros dois Poderes constituídos.

E tudo por quê? Ah, Heleno e Bolsonaro estão descontentes com o tal "parlamentarismo branco". O acordo que havia sido encaminhado para reduzir a parcela destinada a emendas parlamentares no Orçamento impositivo não lhes parece satisfatória. Segundo o general, se querem parlamentarismo, que mudem a Constituição.

Dizer o quê? A defesa das instituições pede que se aplique um choque de realidade nesses valentes. Além de cassar Eduardo e Flávio Bolsonaro, as duas Casas congressuais têm de mostrar ao presidente e ao chefe do GSI com quanta desarticulação se paralisa o governo.

Ora, a dupla não quer mais Rodrigo Maia como um virtual primeiro-ministro, em parceria com Davi Alcolumbre? Pois não! Que ambos se atenham, então, a suas estritas funções regimentais. Luiz Eduardo Ramos, titular da Secretaria de Governo, e Braga Netto, chefe da Casa Civil, dois generais da ativa, que vão ao Congresso cabalar votos. Mas já vou avisando: não dá para levar tanques, granadas, fuzis, metralhadoras, soldados. Tem de ser tudo na base do gogó.

Como é esse um governo que se orgulha de não fazer acordo com o Congresso, que os dois generais tirem a farda da gaveta, preparem-se para a guerra e, sei lá, mandem cercar o Parlamento. O que lhes parece? Estaria ao gosto, não?, do presidente, que retransmite videozinho fascistide por aí... Mas só para os amigos, claro!

Bolsonaro deveria erguer as mãos para o céu. Há um presidente da Câmara que considera também sua a agenda de reformas. E isso facilitou enormemente a vida do chefe do Executivo, que, em companhia dos filhos e do próprio Paulo Guedes, só criaram embaraços à reforma da Previdência.

Maia pode se destacar bastante e é muito influente. Mas não é dono do voto de ninguém. As maiorias se formam em acordos políticos, em articulações entre partidos, lideranças, bancadas temáticas... Bolsonaro não dá a menor pelota para isso porque, quando deputado, atuava praticamente à margem da Câmara. Seu mandato era um meio de vida apenas. Passou 28 anos defendendo um cartório na Câmara. Não tem noção nem remota de como se formam consensos ou maiorias na Casa.

É claro que a agenda de reformas está comprometida. Sairão com mais dificuldades do que antes. "Ah, mas, agora, parece que ele deu uma parada..." Até quando?

As milícias bolsonaristas estão ensandecidas. O presidente deu um jeito de tornar o protesto um assunto politicamente relevante. Espera que multidões marchem em sua defesa e contra Congresso e Supremo. Vamos ver como Bolsonaro se comportará no dia seguinte. Isso vai depender do número de pessoas presentes às manifestações criminosas.

Lembro que existe um inquérito aberto no Supremo para investigar, entre outras coisas, a máquina de difamação montada contra o tribunal. Que faça o seu trabalho e inclua em suas investigações as ações dos bandidos institucionais e quem os financia.

Reinaldo Azevedo