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Nefasto para a economia mundial, vírus justificará incompetências no Brasil

Coronavírus: fator que tende a derrubar o crescimento em todo o mundo vai esconder incompetências no Brasil - CDC/Reuters
Coronavírus: fator que tende a derrubar o crescimento em todo o mundo vai esconder incompetências no Brasil Imagem: CDC/Reuters
Reinaldo Azevedo

Reinaldo Azevedo

Reinaldo Azevedo, que publicou aqui o primeiro post no dia 24 de junho de 2006, é colunista da Folha e âncora do programa “O É da Coisa”, na BandNews FM. No UOL, Reinaldo trata principalmente de política; envereda, quando necessário — e frequentemente é necessário —, pela economia e por temas que dizem respeito à cultura e aos costumes. É uma das páginas pessoais mais longevas do país: vai completar 13 anos no dia 24 de junho.

Colunista do UOL

27/02/2020 05h07

Dia desses circulou a informação de que o presidente Jair Bolsonaro cobrou de Paulo Guedes um crescimento mínimo de 2% neste ano. Huuummm... Para um governo que prometia 4% com a reforma da Previdência, as ambições se tornaram bem mais modestas.

Se houve mesmo a exigência, Bolsonaro tentou dar um conforto a Guedes, não colocar-lhe a corda no pescoço. O diabo é que nem isso está garantido. E se vier abaixo de 2%? Acontece o quê? Nada! Não há ministro para substituir o titular da Economia.

Não porque seja um portento. É que duvido que alguém tenha sobre si mesmo opinião tão favorável como a que Guedes tem sobre... Guedes. Não aceitaria cuidar mal de tanta coisa com um mínimo de simancol. A substituição do ministro ensejaria uma reforma razoável na Esplanada, além de afetar drasticamente a confiança dos agentes econômicos no governo, que está em declínio. Assim, ele fica por lá.

E, convenham, no que diz respeito à venda de ilusões, o novo coronavírus virou solução, não problema. No limite, joga-se a culpa do dito-cujo e pronto!

Assim, Jair Bolsonaro pode continuar a flertar com golpe de estado como quem brinca de Forte Apache; os ministros da dita ala ideológica podem continuar a assombrar o mundo com suas boçalidades, muito especialmente na área ambiental, o que afasta investidores; o núcleo militar, tido como melhor do que a ala ideológica, pode continuar a levar a maior fatia do Orçamento, parte considerável dela enterrada em uma estatal, a Engepron, furando o teto de gastos; o Planalto pode continuar a cozinhar o galo das reformas, que, note-se, sem uma coordenação política, não contribuirão para tirar o país do atoleiro; o INSS pode continuar a ver crescer a fila dos (in)segurados; o Bolsa Família pode continuar a enfileirar seus milhões de miseráveis sem assistência.

Afinal, não é?, o coronavírus vai derrubar o crescimento da China, nosso principal parceiro, põe em transe os mercados globais e, como vimos, já veio dar em terras brasileiras. As desculpas estão prontas.

Nesta quarta, a Bolsa caiu 7%, e o dólar fechou a 4,44 — e, a julgar por fala recente de Guedes, devemos dizer: "E daí? Basta viajar para Cachoeiro do Itapemirim!" Por que o real é a mais desvalorizada numa cesta de 34 moedas deve encontrar explicação, segundo a linguagem oficial, nas virtudes da economia brasileira...

Convenham: com uma crise internacional criada pelo vírus de dimensões ainda incertas, que se sobrepõe a uma expectativa que já se tinha de retração do crescimento global, o que resta ao presidente e seu ministro da Segurança Institucional? Ora, estimular protestos de rua que pedem o fechamento do Congresso e do Supremo.

E, por óbvio, aquele que se atrever a criticar o governo está movido por má-fé e se nega a reconhecer as qualidades dessa plêiade de gênios.

Para o baixo crescimento, culpa-se o vírus.

Para a desordem promovida pelo próprio Bolsonaro, prega-se o golpe.

Reinaldo Azevedo