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Reinaldo Azevedo

Pediu para sair? Linguagem confusa indica que Guedes não sabe o que fazer

Paulo Guedes durante visita à Fiesp nesta quinta, 5 de março de 2020. O que era bom há três semanas já não é mais. Parece que o ministro se perdeu - Reprodução/GloboNews
Paulo Guedes durante visita à Fiesp nesta quinta, 5 de março de 2020. O que era bom há três semanas já não é mais. Parece que o ministro se perdeu Imagem: Reprodução/GloboNews
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Reinaldo Azevedo

Reinaldo Azevedo, que publicou aqui o primeiro post no dia 24 de junho de 2006, é colunista da Folha e âncora do programa "O É da Coisa", na BandNews FM. No UOL, Reinaldo trata principalmente de política; envereda, quando necessário - e frequentemente é necessário -, pela economia e por temas que dizem respeito à cultura e aos costumes. É uma das páginas pessoais mais longevas do país: vai completar 13 anos no dia 24 de junho.

Colunista do UOL

06/03/2020 07h37

Paulo Guedes, ministro da Economia, já não sabe mais o que diz — e a afirmação traz a sugestão generosa de que, em algum momento, ele, de fato soubesse. O crescimento de 1,1% da economia no ano passado mexeu com seus brios. E ele decidiu encontrar alguns culpados. E, mais uma vez, pôs sua loquacidade agressiva a serviço do próprio ego. Sim, o valente estabeleceu um novo patamar para o dólar: R$ 5.

Em conversa com empresários na Fiesp, disse que a moeda americana pode atingir esse patamar "se muita besteira for feita". Nas suas palavras: "Pode chegar a R$ 5? Ué, Se o presidente pedir para sair, se o presidente do Congresso pedir para sair, se todo mundo pedir para sair... Se todo mundo falar que... Entende? Se tiver... Bom, às vezes, eu faço algumas brincadeiras de professor, e isso vira coisa errada".

Os anacolutos, que são termos sem função sintática clara, e o "cogitus interruptus", que é a incapacidade de concluir um pensamento sem que o foco escape, indicam que o doutor vive uma espécie de tumulto mental. O eixo desapareceu.

Em meio à confusão, sobra a repetição: "pedir para sair". Bem, infelizmente, o presidente da República não será tão generoso com o país. Ao contrário. Ele atua para ficar — e, pelo visto, nem importa tanto o método. Não consta que os respectivos presidentes da Câmara e do Senado estejam pensando em renunciar. Bem, sobrou a evidência de que Guedes flertava, aí sim, com a própria saída. Como burro não é, trata-se de uma ameaça.

Esse tipo de coisa é intolerável na vida pública. Dizer o quê? Crescimento de 1,1%, é bem provável, qualquer um entrega. Para que possa ser mais do que isso, então é preciso trabalhar melhor. E, parece, isso é coisa que ele próprio, e seu chefe, o presidente Jair Bolsonaro, não podem oferecer.

Há, ademais, uma questão de fundo aí. Guedes passou boa parte da vida achando-se um gênio insuperável e incompreendido, embora ninguém à sua volta, entre amigos e inimigos, pensasse o mesmo. Isso foi moldando um temperamento muito particular, que a gente poderia definir como "ressentimento altivo" — ou "altivez ressentida", a depender do aspecto que se queira ressaltar do seu caráter.

Não por acaso, quando critica a economia brasileira, ele não se refere aos últimos 5, 10, 15 anos... Nunca faz por menos de 30. Assim, desde a redemocratização, tudo teria sido apenas uma soma de erros. E, não custa notar, isso inclui o Plano Real. Imaginem aquela fonte de sabedoria reprimida a ver tanta coisa errada sendo feita ao longo dos anos, quando ele, Guedes, tinha a Pedra Filosofal.

Até que apareceu Bolsonaro para dizer: "Você é o único gênio que a economia brasileira produziu em 30 anos". É claro que o autointitulado "Mito" o fez à sua maneira. Não disse: "Você é o meu Hayek, meu Milton Friedman". Não! Saiu um "Você é meu posto Ipiranga", combinando a metáfora com a complexidade mental do autor. Mas bastava.

E Guedes se viu, então, diante da possibilidade de esculpir o seu próprio Moisés da economia. O resultado é o que se vê aí... Não, ninguém está dizendo que é fácil. Mas, então, cumpre ao ministro ajustar o discurso ou calar-se.