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Outra besteira de Bolsonaro e a densidade populacional de Paraisópolis (SP)

Favela de Paraisópolis, em São Paulo, tem a maior densidade populacional do Brasil, acompanhada de todas as carências de uma região como essa, notadamente as de água e esgoto. Bolsonaro prefere incluir na sua conta os desertos populacionais da Amazônia, do cerrado, da caatinga... Quem não tem cura é ele. - Eduardo Knapp/Folhapress
Favela de Paraisópolis, em São Paulo, tem a maior densidade populacional do Brasil, acompanhada de todas as carências de uma região como essa, notadamente as de água e esgoto. Bolsonaro prefere incluir na sua conta os desertos populacionais da Amazônia, do cerrado, da caatinga... Quem não tem cura é ele. Imagem: Eduardo Knapp/Folhapress
Reinaldo Azevedo

Reinaldo Azevedo

Reinaldo Azevedo, que publicou aqui o primeiro post no dia 24 de junho de 2006, é colunista da Folha e âncora do programa “O É da Coisa”, na BandNews FM. No UOL, Reinaldo trata principalmente de política; envereda, quando necessário — e frequentemente é necessário —, pela economia e por temas que dizem respeito à cultura e aos costumes. É uma das páginas pessoais mais longevas do país: vai completar 13 anos no dia 24 de junho.

Colunista do UOL

22/03/2020 22h38

Sim, precisaríamos daquele Churchill do clichê, mobilizando a nação no combate ao coronavírus com, se necessário, "sangue, suor e lágrimas". Em vez disso, o presidente se comporta como um arruaceiro fanfarrão, opondo-se não só a eventuais exageros dos governadores, mas também a medidas corretas que estes adotaram de isolamento social para tentar, como se diz em linguagem técnica, "achatar a curva" de contaminação.

Bolsonaro está desesperado. Queiram ou não, será sempre lembrado como o presidente que, aterrissando em solo pátrio no dia 11 de março, uma quarta-feira, despejou 22 contaminados de sua comitiva para circular entre os brasileiros. Um 23º ficou nos EUA. Três deles são seus ministros. No domingo seguinte, sem saber se estava contaminado, participou de um protesto que pedia o fechamento do Congresso e do Senado, entregando-se ao entusiasmo de sua galera.

Neste domingo, o presidente voltou a disparar despropósitos sobre a pandemia, desta feita falando a prefeitos de capitais. Andam a lhe soprar asnices aos ouvidos. Em vez de prestar atenção a seu ministro da Saúde, Luiz Mandetta, que andou escorregando feio, mas ainda tem uma visão correta do problema, manda ver em burrices como esta:
"Não podemos nos comparar com a Itália. Lá o número de habitantes por quilômetro quadrado é 200. Na França, 230. No Brasil, 24. O clima é diferente. A população lá é extremamente idosa. Esse clima não pode vir pra cá porque causa certa agonia e causa um estado de preocupação enorme. Uma pessoa estressada perde imunidade".

No caso da Itália e do Brasil, seus números estão errados, mas próximos. Com dados de 2016, a densidade demográfica da Itália é de 201,3 habitantes por Km²; a do Brasil (números de 2019), 24,6. Bolsonaro não é dono de uma memória prodigiosa e se confundiu sobre a França. Devem ter lhe falado de algum outro país: a densidade demográfica francesa é quase a metade da declarada por ele: 123,8 por Km² (estimativa da população em 2018).

Ocorre que estamos diante de um raciocínio asnal. Na sua conta, estão o deserto populacional de grande parte da Amazônia, das nossas imensas pastagens, da caatinga seca. Trata-se de uma rematada estupidez. Esses dados são irrelevantes.

Seus números não servem para nada. A densidade demográfica de São Paulo, com suas periferias apinhadas e favelas idem, é de 8.054 habitantes por Km². A do Rio, com seus morros e cortiços, de 5.597. Em Salvador, 4.154. Então vamos comparar: Milão, um dos focos do flagelo que colheu a Itália, tem densidade de 7.190 por Km²; Roma, de apenas 1.981 por Km². A de Paris, com efeito, vai lá em cima: 20,3 mil por Km². Mas esperem!

A maior densidade demográfica do Brasil em 2016, segundo dados do IBGE, era a da favela de Paraisópolis, em São Paulo, com 45 mil habitantes por Km², mais do que o dobro do que a de Paris. Eis o busílis.

Ademais, há as características que são só nossas. Pode ter melhorado um pouco, mas, há quatro anos, só 25% das residências de Paraisópolis tinham rede de esgoto, aquela mesma que falta na Rocinha, no Rio. E o vírus também está no cocô. Uma epidemia que tem na lavagem das mãos, em água corrente, um de seus principais métodos de prevenção encontrava, em 2016, 34 milhões de brasileiros sem água encanada e 74,4 milhões sem esgoto tratado. Apenas 61,1% dos brasileiros contavam, ao mesmo tempo, com a tríade da sanidade: água encanada, coleta de esgoto e coleta de lixo. Os dados são do IBGE.

Sim, a população da Europa é mais velha do que a nossa — e o vírus é especialmente perigoso para os idosos —, mas a maioria das cidades que estão em colapso tem 100% de água e esgoto tratados e de coleta de lixo. Ademais, não há milhões apinhados em favelas e cortiços.

Ignorar as condições objetivas em que vivem muitos milhões de brasileiros — especialmente os mais pobres — e atuar de forma determinada contra medidas que contribuem para tentar achatar a curva de contaminação constituem, parece, crime de lesa humanidade.

Bolsonaro já incidiu em crime de responsabilidade às pencas e em crime comum. Mas parece que suas ambições são maiores.

Reinaldo Azevedo