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ECONOMIA: Evitemos matar de fome contra o vírus! Ou de vírus contra a fome!

Governo de São Paulo constrói 200 leitos, na forma de hospital de campanha, no estádio do Pacaembu. Outros 1.800 estão sendo instalados no Anhembi. É o correto - Beatriz Oliveira/Allegra Pacaembu
Governo de São Paulo constrói 200 leitos, na forma de hospital de campanha, no estádio do Pacaembu. Outros 1.800 estão sendo instalados no Anhembi. É o correto Imagem: Beatriz Oliveira/Allegra Pacaembu
Reinaldo Azevedo

Reinaldo Azevedo

Reinaldo Azevedo, que publicou aqui o primeiro post no dia 24 de junho de 2006, é colunista da Folha e âncora do programa “O É da Coisa”, na BandNews FM. No UOL, Reinaldo trata principalmente de política; envereda, quando necessário — e frequentemente é necessário —, pela economia e por temas que dizem respeito à cultura e aos costumes. É uma das páginas pessoais mais longevas do país: vai completar 13 anos no dia 24 de junho.

Colunista do UOL

23/03/2020 04h53

Luiz Mandetta, ministro da Saúde, afirma que curva de contaminação pelo coronavírus, depois de entrar num platô — vale dizer, de ficar estável —, só começa a declinar em setembro. Será que o Brasil pode seguir praticamente parado pelos próximos seis meses? Parece-me que a resposta, chamemo-la "bom senso", "razoabilidade" ou outro nome qualquer, é "não". Obviamente, não tenho a receita alternativa já pronta. Ninguém no mundo tem. O que conhecemos, até agora, são as medidas que funcionam e as que não funcionam para conter a expansão do mal. Conhecemos, em suma, padrões de resposta com os seus desdobramentos.

O vírus veio dar em nossas terras quando a economia já não vivia um bom momento, com a política em estado ainda pior. Como temos um presidente da República inerme — que, com seu comportamento, estimula a contaminação, em vez de fazer o contrário —, governadores e prefeitos tomam as suas próprias providências levando em consideração recomendações da Organização Mundial da Saúde e procedimentos adotados em outros países.

O chamado "isolamento social" é receita universalmente seguida, com mais rigor ou com menos, mas só alguns candidatos a gênios do próprio boteco as contestam. Prestem atenção ao que informa a imprensa do mundo inteiro. Independentemente do, como diria Bolsonaro, "viés ideológico", todos os países assolados pelo vírus optaram por uma modalidade de confinamento. Dois presidentes resistem a fazer a coisa certa: o esquerdista López Obrador, no México, e Jair Bolsonaro, no Brasil, de extrema-direita. Até quando?

É preciso entender este primeiro momento. O isolamento social busca, como se diz, achatar a curva de contaminação e, pois, das manifestações mais graves da Covid-19. No Eixo X do gráfico, está o tempo; no Eixo Y, o número de casos. Quanto mais suave for a ascensão da linha, melhor! O estado brasileiro terá mais tempo para tomar as medidas não exatamente preventivas, mas emergenciais.

Sim, é preciso entrar, em muitos aspectos, no modo "economia de guerra". Nesse particular, o governo de São Paulo faz a coisa certa. Já está construindo hospitais de campanha — ou leitos de campanha — no Anhembi (1.800) e no estádio do Pacaembu (200). É consenso que, ainda que se impeça a ascensão meteórica da infecção, os números vão ficar estáveis lá nas alturas. Desde já, o governo federal precisaria chamar as empresas brasileiras para a fabricação em massa de respiradores. Está demonstrado que eles fazem uma grande diferença no atendimento aos casos mais graves.

Mais: seguindo protocolo que se mostrou bem-sucedido na China e na Coreia do Sul, é preciso aumentar exponencialmente o número de pessoas submetidas a teste. Hoje, no Brasil, só as que apresentam sintomas passam por eles. Isso ajuda a mapear os casos e a isolar as pessoas cujo exame apontem positivo.

E é necessário aumentar muito o número de médicos dispostos a atender os pacientes, em particular nos hospitais de campanha. Eles não existem em número suficiente. Pareceria ironia se eu sugerisse que o governo Bolsonaro fosse buscá-los onde os há de sobra: em Cuba? Mas não estou brincando. É claro que não vai acontecer. Afinal, o presidente nem sequer reconhece a gravidade do problema. Que os governadores recorram a eles se necessário. Não será fácil porque seria preciso negociar com o governo federal.

Há, basicamente, dois padrões com desdobramentos já conhecidos para conter a expansão da doença: o chinês e o Italiano. Um funciona; o outro não. A China corresponde a 23 Itálias. Tem o dobro da população de toda a Europa. Não obstante, já há mais italianos mortos do que chineses. E a população do dito Velho Continente já soma mais contaminações do que a China.

O Estado chinês tem mais facilidade para impor a sua vontade do que as democracias europeias? Tem, sim. Mas, em todas elas e também no Brasil, medidas restritivas à circulação de pessoas podem ser implementadas desde que, na sua vigência, tomem-se as providências para o atendimento emergencial.

Em vez de vituperar contra os governadores — e Bolsonaro voltou a fazê-lo duas vezes neste domingo —, ele deveria estar liderando esses esforços, vá lá, de guerra para que o país consiga voltar à normalidade — a possível para estes tempos. É evidente que não se pode matar o povo de fome sob o pretexto de não matá-lo com o vírus. Mas não se pode fornecer a carne barata dos brasileiros ao vírus sob o pretexto de não matá-los de fome.

As medidas temporárias de restrição de circulação — e vamos ver por quanto tempo — só fazem sentido se as ações em favor de um atendimento eficaz e de massa para os doentes estiverem em curso.

Reinaldo Azevedo