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Isolamento, que empobrece, não mata vírus nem impede mortes. E está certo!

Detalhe ampliado do quadro "O Triunfo da Morte", de Bruegel. A parte da elite que reclama da correta política de isolamento para este momento da crise prefere ter um Romero Britto na sala e especular sobre a morte dos pobres e pretos - Reprodução
Detalhe ampliado do quadro "O Triunfo da Morte", de Bruegel. A parte da elite que reclama da correta política de isolamento para este momento da crise prefere ter um Romero Britto na sala e especular sobre a morte dos pobres e pretos Imagem: Reprodução
Reinaldo Azevedo

Reinaldo Azevedo

Reinaldo Azevedo, que publicou aqui o primeiro post no dia 24 de junho de 2006, é colunista da Folha e âncora do programa “O É da Coisa”, na BandNews FM. No UOL, Reinaldo trata principalmente de política; envereda, quando necessário — e frequentemente é necessário —, pela economia e por temas que dizem respeito à cultura e aos costumes. É uma das páginas pessoais mais longevas do país: vai completar 13 anos no dia 24 de junho.

Colunista do UOL

24/03/2020 08h51

A Itália e a Espanha conhecem os efeitos dramáticos de uma contaminação em massa por coronavírus. Quando esses países optaram pelo isolamento social, o caos já estava contratado. E ele veio. A imagem da fila de caminhões do Exército italiano coletando corpos para cremação não vai se apagar tão cedo. Na Espanha, vejo na TV, uma mulher se debruça sobre o caixão de um ente querido que seria levado embora pelo rabecão. Sem direito a velório.

Nada disso convence o coração de alguns faraós do nosso empresariado — geralmente de porte médio e que entraram em ascensão, no mundo das ideias, com a chegada de Jair Bolsonaro ao poder. Estão inconformados com a quarentena e, pessoas essencialmente boas que são, dizem-se preocupados com os empregos e com o destino dos pobres. Nem vou me ocupar de indagar que sacrifício aceitariam fazer, então, para minorar a situação dos desassistidos. Até porque, convenham, é proverbial a preocupação da Dona Zelite brasileira com os miseráveis... Há exceções, claro!, que confirmam a regra.

Esses valentes neopensadores se mostram dispostos, liderados pelo "capitão", a desafiar o mundo. Países com governos ideologicamente tão distintos como EUA, França, Reino Unido, Alemanha, Itália e Espanha, enfrentando graus variados de estresse e de dificuldades com a Covid-19, atenderam ao chamamento dos cientistas e entenderam que cumpre tentar amansar o caos. E, por certo, não será sem sortilégios para a economia.

Não são apenas os modelos matemáticos que apontam para um desastre bíblico caso não se procure distribuir num tempo mais longo a contaminação em massa. A rica Itália serve de advertência para o pobre Brasil no caso de uma contaminação explosiva. Pensemos nos pobres daqui, nas condições de moradia de muitos milhões de brasileiros sem água e esgoto tratados, e precisaremos convocar um Bruegel dos Trópicos para pintar uma nova e atualizada versão de "O Triunfo da Morte".

Ah, mas esses novos patriotas estão muito preocupados com os empregos! Sim, existe a chance de que, mesmo com as medidas de isolamento social, alguns milhares morram? Existe. É provável que aconteça. A questão é saber, dado o padrão do problema, o que poderia advir sem as medidas de contenção. Artigo publicado na revista Science, a partir de dados colhidos na China, indica que 86% das infecções não são diagnosticadas e que 79% das transmissões tiveram origem em pessoas assintomáticas.

Tudo indica que o número de contaminados notificados comece a dobrar a cada dois dias no Brasil. Considerando o que vai no citado artigo, pode-se imaginar, vamos dizer, uma intensa vida secreta do vírus entre nós. Certamente virão dias difíceis pela frente. Aí um deles diz: "Ah, se morrerem cinco mil, fazer o quê? O desemprego em massa será muito pior". É pragmatismo com a vida — ou com a morte — de preto e pobre, além de preconceito e falta de empatia.

Não sei quantos morrerão. Sabemos quantos já morreram em tempo tão curto. E, de novo!, com base em modelos matemáticos e levando em conta a experiência italiana, viria o flagelo se continuássemos a fingir que nada estava acontecendo. E não que nos faltem elementos simbólicos a gritar o perigo: o presidente do Senado foi infectado. Já são 22 os contaminados da comitiva presidencial que desembarcaram no Brasil. Um 23º ficou nos EUA.

Quantos milhões de vírus deixaram de migrar de corpo ou não encontraram um em que se alojar nestes dias tristes de isolamento? É impossível fornecer esse número. O que sabemos de sobejo é a facilidade com que o mal se espraia.

Quando se diz à boca solta "Ah, quero ver depois o que vai acontecer com os pobres...", há aí a expressão da má consciência de quem admite que o segundo país mais desigual do planeta não se mostra disposto a socorrê-los. Ao contrário: esses neoiluministas endinheirados do bolsonarismo, que certamente preferem Romero Britto a Bruegel, sabem que, no limite, contarão com alguma ajuda oficial. Os pobres, não importa a forma de contaminação, continuarão a ser apenas a carne barata. Que morram então! Mas não podemos parar a economia — em nome dos pobres, é claro!

Sim, é verdade! O país não pode ficar indefinidamente parado. Em vez de vituperarem contra quem propõe e aplica medidas emergenciais de isolamento social, por que não se dedicam a fazer propostas que possam atender às vítimas da contaminação? Aqui e no mundo, o isolamento não está em curso para pôr fim à epidemia, para acabar com o vírus, para decretar a vitória daqui a alguns dias. Trata-se, reitero, de impedir que corpos entupam as casas e as ruas, como se viu na Itália, que tem 100% de água e esgoto tratados.

"Ah, mas pode vir comoção social com o desemprego..." Pode, sim! Mas pergunto: esses valentes imaginam, por acaso, que pobres poderiam morrer aos milhares sem que pobres ainda vivos esboçassem nem mesmo um muxoxo de protesto? O problema desses neoiluministas do capitalismo à moda Bolsonaro não está apenas na falta de empatia. Há também a ignorância assombrosa que tão bem os caracteriza.

O poder público precisa de um tempo para se estruturar e enfrentar os piores dias. Como uma eventual explosão do número de contaminados cairá no colo dos governadores, foram eles os primeiros a se mobilizar. Ninguém espera que o país fique parado até setembro ou que se elimine a contaminação comunitária no país. Infelizmente, não enfrentaremos as agruras de uma recessão já contratada porque estamos certos de que vamos vencer o mal. Não! Estamos apenas buscando uma maneira menos catastrófica de conviver com ele.

Os verdadeiramente muito preocupados com os pobres deveriam se unir a outros ricos também humanistas e criar uma fundação para dotar o SUS, por exemplo, de mais leitos de UTI. Só para lembrar: antes da contaminação, a taxa de ocupação dos que já existem era de 95%. No sistema privado, de 80%. Evitar a explosão de contaminação, vejam que coisa!, é do interesse até dos ricos.

No caso desse vírus, nem adianta fugir para Miami. O último notável que esteve por lá chegou num avião que despejou por aqui 22 contaminados. E um quadro do Romero Britto.

Reinaldo Azevedo