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Pastelão da MP revela incapacidade de Guedes e Bolsonaro de entender crise

Curley, Larry e Moe: o trio fez muito sucessos na TV e no cinema como "Os Três Patetas". Tratava-se de uma mistura que juntava o bobalhão, o burraldo e o agressivo. Juntos, eram notavelmente atrapalhados e incompetentes. Comédia tem dessas coisas - Columbia Pictures/Divulgação
Curley, Larry e Moe: o trio fez muito sucessos na TV e no cinema como "Os Três Patetas". Tratava-se de uma mistura que juntava o bobalhão, o burraldo e o agressivo. Juntos, eram notavelmente atrapalhados e incompetentes. Comédia tem dessas coisas Imagem: Columbia Pictures/Divulgação
Reinaldo Azevedo

Reinaldo Azevedo

Reinaldo Azevedo, que publicou aqui o primeiro post no dia 24 de junho de 2006, é colunista da Folha e âncora do programa “O É da Coisa”, na BandNews FM. No UOL, Reinaldo trata principalmente de política; envereda, quando necessário — e frequentemente é necessário —, pela economia e por temas que dizem respeito à cultura e aos costumes. É uma das páginas pessoais mais longevas do país: vai completar 13 anos no dia 24 de junho.

Colunista do UOL

24/03/2020 06h44

O pastelão sobre o trecho da Medida Provisória 927 que permite a suspensão do contrato de trabalho por até quatro meses sem compensação nenhuma ao trabalhador revela mais do que o estado de alienação e catatonia do governo diante da crise. O que se tem é um método de trabalho como nunca se viu no governo federal. É, de fato, inédito. E não funciona.

A MP, redigida no joelho, no fim de semana, saiu com as respectivas assinaturas do presidente da República e do ministro da Economia, Paulo Guedes. Surpresa: ambos dizem que desconheciam o seu conteúdo, e o abacaxi foi parar no colo do secretário especial de Previdência e Trabalho, Bruno Bianco. O presidente, como sempre, fez cara do "enganado que não entende de economia". Guedes atribuiu a um erro de redação. E Bianco, em linhas gerais, disse ter entendido que a compensação àquele que teria o contrato suspenso viria em outro texto.

Antigamente, no tal jeito tradicional de fazer política, uma Medida Provisória só saía do Planalto depois de submetida ao escrutínio da Casa Civil e de passar por um severo crivo jurídico para saber se não padecia de vícios de ilegalidade. E, ainda assim, nem sempre tinha tramitação tranquila. Algumas medidas já foram parar no Supremo e não passaram pela peneira da constitucionalidade.

Em tempos do "melhor governo que o Brasil já teve", segundo o próprio Bolsonaro, de que o comandante é ele, como disse tentando afetar orgulho naquela coletiva do tira-máscara, põe-máscara, a Casa Civil está entregue a um general ainda da ativa, e o secretário especial da Previdência redige MP, então, segundo aquilo que ele diz ter entendido ser a vontade do governo. Guedes, pelo visto, não tinha tempo para minudências. Bolsonaro vai alegar a proverbial ignorância sobre economia. E tudo vai seguindo assim, à matroca.

Enquanto governos do mundo inteiro se organizam para enfrentar a crise com soluções que podem ser chamadas de tudo, menos de ortodoxas — o FED, nos EUA, como aponta Vinícius Torres Freire, na Folha, virou quase um guichê de distribuição de dinheiro, o que certamente deixa os nossos odiadores de pobres, disfarçados de liberais, de cabelo em pé —, o governo Bolsonaro entra tardiamente na tentativa de responder à crise e ainda está apatetado.

Houve aquele primeiro pacote de Guedes, de R$ 147 bilhões, que é só um rearranjo de recursos para antecipar pagamentos a aposentados e incluir uma parcela dos que já deveriam estar incluídos no Bolsa Família. Há os propalados R$ 55 bilhões do BNDES que são, também, uma soma de truques se o critério for dinheiro novo na economia: trata-se apenas da suspensão de parcelas de pagamentos de empréstimos concedidos a empresas grandes e médias. E há os R$ 88,2 bilhões para os Estados que entram na categoria de renegociação de dívidas e rearranjo orçamentário.

Entrada, para valer, do Estado para socorrer os mais vulneráveis pela crise, até agora, não há. Esse governo combina diversas disfunções cognitivas para entender o tamanho do problema. É por isso que o presidente, num primeiro momento, saiu-se com a tese, dado o que se sabe da pandemia até aqui, verdadeiramente homicida de que "não podemos parar a economia", opondo-se de peito aberto às medidas para reduzir a exposição dos brasileiros ao vírus, alheio à tragédia que colhe países que não perceberam a tempo os efeitos devastadores de uma contaminação em massa no sistema de saúde — e, por consequência, da economia. Para mais esclarecimentos, vejam o que se passa na Itália e na Espanha, por exemplo.

Na Folha desta segunda, os insuspeitos de esquerdismo ou de defensores de bagunça fiscal Arminio Fraga Neto, Vinicius Carrasco e José Alexandre Scheinkman, por exemplo, assinam um artigo em que defendem "a criação de uma linha emergencial [de empréstimos] de R$ 120 bilhões, sem garantias, provida pelo Tesouro". Tais empréstimos "teriam seu risco de crédito assumido pelo Tesouro e seriam feitos através da Caixa e quaisquer players, como instituições financeiras e de pagamento, que possuam infraestrutura e capilaridade e estejam dispostos a servir de "tubo", sem remuneração econômica." Esses empréstimos seriam concedidos mediante alguns critérios: a empresas com receitas entre R$ 360 mil e R$ 4,8 milhões, com funcionários, e manutenção dos empregos, por exemplo.

Mas há a tal disfunção cognitiva. Guedes tinha aquela sua agenda, como é mesmo?, para superar os 30 anos de economia submetidas à ineficiência da social-democracia. E teria chegado a hora dos liberais. E os liberais à moda nativa, como vemos, deixados por conta, mandam os trabalhadores para casa, com contratos rompidos e sem salários. E nem se despenteiam. Bolsonaro, por sua vez, está contaminado por um patógeno ainda mais perigoso do que o coronavírus: as teorias alucinadas segundo as quais tudo o que se vê aí não passa de um grande ardil para destruir o Ocidente. Nem Donald Trump dá mais bola para lunáticos desse quilate. Por aqui, eles estão no governo.

Reinaldo Azevedo