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Não! Villas Bôas não falou em nome das Forças Armadas ao defender Bolsonaro

Edson Leal Pujol: quando o comandante do Exército falou, foi em favor das medidas em curso de combate ao coronavírus - Reprodução
Edson Leal Pujol: quando o comandante do Exército falou, foi em favor das medidas em curso de combate ao coronavírus Imagem: Reprodução
Reinaldo Azevedo

Reinaldo Azevedo

Reinaldo Azevedo, que publicou aqui o primeiro post no dia 24 de junho de 2006, é colunista da Folha e âncora do programa “O É da Coisa”, na BandNews FM. No UOL, Reinaldo trata principalmente de política; envereda, quando necessário — e frequentemente é necessário —, pela economia e por temas que dizem respeito à cultura e aos costumes. É uma das páginas pessoais mais longevas do país: vai completar 13 anos no dia 24 de junho.

Colunista do UOL

31/03/2020 07h38

Será que ao escrever uma carta em apoio a Jair Bolsonaro, o general Eduardo Villas Bôas fala em nome das Forças Armadas? A resposta: não!

Há dias, em vídeo gravado para a tropa, o comandante do Exército, Edson Leal Pujol, deixou claro que a Força está alinhada com a política oficial de combate ao coronavírus, que é aquela levada adiante pelo Ministério da Saúde. Lembro trechos:
"Vivemos o enfrentamento de uma pandemia que exige a união de todos nós brasileiros. O momento é de cuidado e de prevenção, mas também de muita ação por parte do Exército brasileiro (...)."

"(...) Após rápido e minucioso exame da situação, que se mostra extremamente dinâmica, diretrizes foram expedidas pelo Comando do Exército e, em nível setorial, pelo Comando de Operações Terrestres, pelo Departamento de Pessoal e pelo Departamento de Educação e Cultura (...)".

"(...) Uma de nossas responsabilidades com a Nação nesse momento de crise é que nossa tropa deve manter a capacidade operacional para enfrentar o desafio e fazer a diferença. Talvez seja a missão mais importante de nossa geração".

Como já se informou aqui, homens do Exército colaboraram com a Prefeitura de Vitória para convencer as pessoas a se recolher às suas casas. As escolas militares, exceção àquelas que funcionam em regime de internato, dispensaram os alunos, que passaram a receber aulas a distância.

Mais: os militares, inclusive os que estão no Ministério, estão alinhados com as escolhas do ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta.

Bolsonaro só procurou o socorro de Villas Bôas porque percebeu que, exceção feita a seus ministros dados a exercícios momescos, não encontraria parceria para a sua tese tresloucada. E o mesmo vale para os comandos militares. É bom lembrar que uma contaminação em massa, como aquela que sua tese necessariamente enseja, também não vai poupar as Forças Armadas.

Longe de a carta de Villas Bôas indicar o apoio dos militares às maluquices do presidente, ela evidencia justamente o contrário.

De resto, atente-se para os dois últimos parágrafos do texto de Villas Bôas:
"Conheço o Presidente e sei que ele não tem outra motivação que não o bem estar do povo e o futuro do país.

Pode-se discordar do Presidente, mas sua postura revela coragem e perseverança nas próprias convicções. Um líder deve agir em função do que as pessoas necessitam, acima do que elas querem."

Dito de outro modo:
"Gente, o presidente atua de forma meio amalucada, mas suas intenções são boas"
O texto apela quase à piedade. Ademais, todos os homens, mesmo os mais errados, aferram-se às próprias convicções. O problema aparece quando tais convicções desafiam a ciência e, a rigor, o mundo inteiro.

De resto, na democracia, um governante pode desafiar um querer do povo em socorro a suas necessidades quando age nos limites da lei, não é mesmo?

O comportamento do presidente desafia não apenas a ciência, mas também o Artigo 268 do Código Penal.

Reinaldo Azevedo