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Doria e Lula; israelenses e palestinos... É a "Frente Ampla da Civilização"

O governador de São Paulo, João Doria (PSDB), e o líder petista e ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. O que há de errado em concordarem sobre métodos de combate ao coronavírus? Nada! Está tudo certo - Fotos: Zanone Fraissat/Folhapress e Diego Padilha/Divulgacao Agencia PT
O governador de São Paulo, João Doria (PSDB), e o líder petista e ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. O que há de errado em concordarem sobre métodos de combate ao coronavírus? Nada! Está tudo certo Imagem: Fotos: Zanone Fraissat/Folhapress e Diego Padilha/Divulgacao Agencia PT
Reinaldo Azevedo

Reinaldo Azevedo

Reinaldo Azevedo, que publicou aqui o primeiro post no dia 24 de junho de 2006, é colunista da Folha e âncora do programa “O É da Coisa”, na BandNews FM. No UOL, Reinaldo trata principalmente de política; envereda, quando necessário — e frequentemente é necessário —, pela economia e por temas que dizem respeito à cultura e aos costumes. É uma das páginas pessoais mais longevas do país: vai completar 13 anos no dia 24 de junho.

Colunista do UOL

03/04/2020 08h08

Não há frente ampla nenhuma a unir Lula e João Doria. Tratar as coisas nesses termos, parece-me, revela uma espécie de cacoete muito aquém de responder a gravidade do momento.

O que fez Lula? Elogiou ações do governador de São Paulo e de seus pares Brasil afora. Santo Deus! É o que faria qualquer pessoa razoável. Ou alguém ousaria dizer, a não ser por interesse político mesquinho, que Doria não vem se comportando bem nessa crise?

"Ah, faz isso porque quer se candidatar à Presidência..." E daí? É ilegal? É ilegítimo? É proibido? Se essa pretensão, no que respeita ao combate ao vírus, resultar em medidas que contribuam para proteger a saúde e a vida dos brasileiros de São Paulo, tanto melhor.

Noto, aliás, que a elite empresarial que apoiou Bolsonaro também se alinhou com Doria. Se o primeiro se deixa atormentar por embargos auriculares que não ousam ser vocalizados à luz do dia, o governador, por seu turno, certamente desagrada a muitos potentados que o apoiaram, mas faz o que tem de fazer.

A malta bolsonarista na Internet, claro!, aproveita para apontar a conspiração e, não tarda, acusará o governador de fazer o jogo dos, como é mesmo?, comunistas... Lembram-se deles?

O líder petista acerta ao pôr de lado as divergências e reconhecer a eficiência de um adversário político. Doria respondeu: "Temos muitas diferenças. Mas agora não é hora de expor discordâncias. O vírus não escolhe ideologia nem partidos. O momento é de foco, serenidade e trabalho para ajudar a salvar o Brasil e os brasileiros".

Bingo!

Representantes do governo de Israel e da Autoridade Palestina formaram um gabinete de crise, que funciona em local secreto, para combater o vírus.

"A saúde de todos os cidadãos da região está acima de tudo, e é nossa principal prioridade. Continuaremos a agir em colaboração com a Autoridade Palestina em um esforço conjunto", afirmou o major Yotam Shefer, chefe do departamento internacional da administração civil israelense na Cisjordânia.

"Este é o momento de deixar de lado as nossas diferenças e trabalhar em conjunto contra a pandemia, que não distingue entre árabes e judeus. As nossas fronteias comuns e relações não deixam espaço de hesitação para tomar medidas severas e cooperar ao mais alto nível para evitar a propagação do vírus", disse o porta-voz da Autoridade Palestina, Ibrahim Milhem.

Entenderam? Se israelenses e palestinos decidem trabalhar juntos contra o vírus — e isso não vai anular suas diferenças —, por que Lula e Doria não podem concordar sobre um conjunto de ações para salvar vidas?

O bolsonarismo é incapaz de entender essa conversa.

Afinal, os bolsomínions e o próprio presidente da República estão convencidos de que o coronavírus é uma tramoia do comunismo chinês para dominar a humanidade.

O vírus é um elemento a mais a revelar a tragédia política, intelectual e moral que se abateu sobre o Brasil, com sua impressionante carga de atraso e sordidez.

Reinaldo Azevedo