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Povo estranho: 76% pró-quarentena e contra o direito de morrer de Covid-19!

Folha/Datafolha
Imagem: Folha/Datafolha
Reinaldo Azevedo

Reinaldo Azevedo

Reinaldo Azevedo, que publicou aqui o primeiro post no dia 24 de junho de 2006, é colunista da Folha e âncora do programa “O É da Coisa”, na BandNews FM. No UOL, Reinaldo trata principalmente de política; envereda, quando necessário — e frequentemente é necessário —, pela economia e por temas que dizem respeito à cultura e aos costumes. É uma das páginas pessoais mais longevas do país: vai completar 13 anos no dia 24 de junho.

Colunista do UOL

06/04/2020 08h08

A esmagadora maioria dos brasileiros é favorável à quarentena nessa fase de combate ao coronavírus. É o que aponta pesquisa Datafolha. Em entrevista, o presidente Jair Bolsonaro já deixou claro que seu ataque permanente à medida é uma forma, vamos dizer, de criar agitação social para ver se consegue alterar as medidas. Vai ter de espernear muito. Nesse particular, a maioria dos brasileiros está afinada com o que defende texto publicado em página do Exército e depois retirado.

São favoráveis à quarentena 76% dos entrevistados; apenas 18% se opõem. Defendem que o comércio considerado não essencial permaneça fechado 65%; têm opinião contrária 33%. A suspensão das aulas presenciais é endossada por 87%, contra 11% que pensam o contrário. Dizem-se ainda favoráveis a que se proíba de sair de casa quem não exerce trabalho essencial 71% — 26% se opõem.

Quando se faz o corte por renda, o apoio menor, embora alto, está entre os que recebem de cinco a 10 mínimos: 65%. Entre os que ganham até dois salários, é de 70% — 73% entre os de dois a cinco e os que ganham mais de 10

Os brasileiros se mostram resilientes quanto a uma duração longa para a quarentena. Nada menos de 46% acham que ela deveria durar mais de 21 dias: para 23%, de 21 a 30; para outros 23%, 31 dias ou mais.

Pois é... Ontem, às portas do Palácio da Alvorada, Bolsonaro falou de um povo "até pacífico demais, até muitas vezes, né?"... As palavras fazem sentido, e o contexto ajuda a elucidá-lo.

É visível que Bolsonaro parece um tanto descontente com esse "pacifismo". Tudo indica na sua prosa que um povo mais violento — desde que contra a quarentena — poderia ser útil a seus propósitos. Por isso disse na tal live-entrevista: "Eu estou esperando o povo pedir mais".

Bolsonaro não sabe, mas ele se submete diariamente a um processo psicanalítico a céu aberto. E a língua negra de seus atos falhos recende a golpismo.

O povo pacífico, desde que contra os seus desígnios, o incomoda.

É um povo mesmo estranho o brasileiro: não vai às ruas pelo direito de morrer de Covid-19.

Reinaldo Azevedo