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É absurdo que governo ainda não tenha começado a pagar os R$ 600 aos pobres

Depois de ter sua incompetência comprovada na Casa Civil, Onyx Lorenzoni agora leva o padrão para o Ministério da Cidadania. E o dinheiro dos pobres ainda não começou a sair - Fotos: Marcelo Camargo/Agência Brasil e Reprodução
Depois de ter sua incompetência comprovada na Casa Civil, Onyx Lorenzoni agora leva o padrão para o Ministério da Cidadania. E o dinheiro dos pobres ainda não começou a sair Imagem: Fotos: Marcelo Camargo/Agência Brasil e Reprodução
Reinaldo Azevedo

Reinaldo Azevedo

Reinaldo Azevedo, que publicou aqui o primeiro post no dia 24 de junho de 2006, é colunista da Folha e âncora do programa “O É da Coisa”, na BandNews FM. No UOL, Reinaldo trata principalmente de política; envereda, quando necessário — e frequentemente é necessário —, pela economia e por temas que dizem respeito à cultura e aos costumes. É uma das páginas pessoais mais longevas do país: vai completar 13 anos no dia 24 de junho.

Colunista do UOL

07/04/2020 07h49

A verdade é que o governo é uma bagunça. Quase todos sabem muito pouco. Com raras exceções, chegou ao poder uma nuvem de neófitos, de prepotentes ou de ressentidos. E nada acontece. Vejam o caso do pagamento de R$ 600 aos informais. Enquanto escrevo, ninguém recebeu um tostão. Que dúvida! As coisas estão nas mãos de Onyx Lorenzoni — na turma, é o ressentido. Começou como chefe da Casa Civil, e sua notória incompetência, até para os padrões do governo Bolsonaro, o fez ir perdendo, aos poucos, atribuições e importância.

Assumiu a pasta da Cidadania, que estava com Osmar Terra, o arrogante. Na gestão deste senhor, o que cresceu foi a fila de miseráveis sem assistência do Bolsa Família. Passou a pasta para Onyx com um passivo de 3,5 milhões de pessoas. Terra é hoje o ministro sem pasta que arrota sapiência sobre epidemiologia e que, na prática, atuou, com ou sem cargo, para tentar sabotar o trabalho do Ministério da Saúde.

Pois bem... A fórmula fechada para o pagamento da ajuda de R$ 600, convenham, lembra uma charada grega...em grego antigo. Como é mesmo?
- o beneficiário não pode ter carteira assinada;
- a renda per capita da família não pode ser maior do que meio salário mínimo;
- a renda total da família não pode ultrapassar três mínimos;
- só duas pessoas por família terão acesso ao dinheiro se maiores de 18 anos;
- mãe que seja chefe de família tem direito a R$ 1.200.

Se a Câmara aprovar, e acho que vai, também terão direito aos R$ 600, como quis o Senado, homens solteiros que sejam pais e ainda as mães adolescentes.

Vamos ser francos? Onyx tinha de cuidar de coisa bem menos complexa na Casa Civil e se atrapalhou todo. Para fazer todos esses cruzamentos e clivagens, dado o seu padrão de eficiência, pode-se levar uma geração...

Já não existe a lista de beneficiários do Bolsa Família? Comece-se a liberar o dinheiro por ela, ora bolas! Já deveria estar chegando aos pobres. Há ainda o Cadastro Único. Muito bem! Essas pessoas têm CPF na maioria das vezes. Estando numa lista ou noutra, que o dinheiro saia — e esse não é um cruzamento difícil de fazer.

Eu sei: dar grana para pobres é chato, né?, porque eles são muitos... Melhor é ficar fazendo teleconferência com ricos preocupados. Sempre pode rolar um empréstimo subsidiado ou a ideia de um cartório novo... Nem entro nesse mérito agora. É preciso ter senso de prioridade. Mais ainda: se houver liberação indevida ou duplicada, que se corrija depois. Em princípio, são três meses de ajuda. Dá tempo. Posso apostar que será preciso renovar por mais três. Mas isso fica para mais tarde.

Há um problema adicional: os informais que tinham uma renda acima do que estabelece a charada grega e que, por óbvio, não estão na lista do Bolsa Família ou do Cadastro Único. Com o desastre em curso, perderam sua fonte de sustento. E agora? Ah, o governo anunciou providências para resolver tudo.

Eles poderão se inscrever por meio de aplicativo, telefone ou site. A previsão é que os três estejam à disposição de uma massa de 15 a 20 milhões de pessoas a partir desta terça. Vamos ver. Vocês acordam primeiro do que este escriba, que trabalha de madrugada. Tomara que, quando eu saltar da cama, essas coisas já estejam disponíveis. Posso duvidar? Quem sabe eu erre desta vez...

Esse grupo inclui motoristas de aplicativo e taxistas, que não são informais, mas também viram a renda despencar. De qualquer sorte, todos têm de se enquadrar naqueles critérios gerais.

O regramento para a compensação aos trabalhadores formais tende a ser mais rápido porque envolve as empresas, especialmente interessadas em regularizar a situação — afinal, elas também serão beneficiárias da ajuda do governo federal.

Como o cadastro do Bolsa Família é, na prática, municipal, suspeito que Onyx, um dos entusiastas da guerra cultural contra as esquerdas, que tatuou no braço o famoso João 8:32 ("Conhecereis a verdade etc e tal..."), já mobilizou a rede de Prefeituras Brasil afora para colaborar com o Ministério, certo? Vai que os pobres descubram o marxismo, ministro... Já pensou? Ou faço bem em desconfiar que nada disso foi feito até agora?

Não dá! É intolerável! O Congresso fez a sua parte com rapidez, com presteza, com agilidade.

Mas há um paredão de incompetência no Executivo.

E, além da incompetência, há o óbvio desprezo pelos pobres.

Reinaldo Azevedo