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Vídeo inteiro! Mello não é supernanny de fascistoide ou do bebê de Rosemary

Rosemary (Mia Farrow) se espanta ao constatar que deu à luz o filho do capiroto no filme "O Bebê de Rosemary", de Roman Polanski - Reprodução
Rosemary (Mia Farrow) se espanta ao constatar que deu à luz o filho do capiroto no filme "O Bebê de Rosemary", de Roman Polanski Imagem: Reprodução
Reinaldo Azevedo

Reinaldo Azevedo

Reinaldo Azevedo, que publicou aqui o primeiro post no dia 24 de junho de 2006, é colunista da Folha e âncora do programa “O É da Coisa”, na BandNews FM. No UOL, Reinaldo trata principalmente de política; envereda, quando necessário — e frequentemente é necessário —, pela economia e por temas que dizem respeito à cultura e aos costumes. É uma das páginas pessoais mais longevas do país: vai completar 13 anos no dia 24 de junho.

Colunista do UOL

22/05/2020 09h19Atualizada em 22/05/2020 12h08

O ministro Celso de Mello decide daqui a pouco se libera ou não o vídeo da reunião ministerial do dia 22 de abril, que é peça do inquérito que apura se o presidente Jair Bolsonaro fez interferências na Polícia Federal buscando atender a interesses pessoais e de amigos.

As milícias "fascistoides do bolsonarismo", como as classificou Mello, estão assanhadas. Ameaçam ministros do Supremo, tentam espancar jornalistas, entregam-se de forma alucinada à difamação nas redes sociais.

Que Mello, um homem reto e avesso a estridências, tome a decisão correta. E o correto, a meu ver, é levantar o sigilo da íntegra daquele encontro — que, tudo indica, tem o odor da arruaça.

Em seu parecer, Augusto Aras, procurador-geral da República, torceu o fundamento moral por que deve haver a divulgação. E trato do fundamento moral porque inexiste lei, dadas as circunstâncias, que imponha o sigilo.

Diz Aras que as pessoas não contavam que a gravação fosse sair das quatro paredes. Assim, falaram à vontade. O argumento valeria para homens privados a tratar de assuntos privados em local privado.

Nada disso está dado. Justamente porque sabiam que a gravação estava sendo feita — e sem nenhuma garantia formal de sigilo —, decidiram, então, correr o risco de se mostrar como são. Não deve ser o ministro a fazer por eles o que não fizeram por si mesmos e pelo país: atender ao mandamento do decoro; atuar nos limites da razoabilidade; prestigiar as instituições com a devida solenidade que pedem os respectivos cargos que ocupam.

Não se transforma em sigiloso o que sigiloso não é para preservar a reputação de quem despreza os padrões mínimos da civilidade democrática, o que só pode se dar em prejuízo da coletividade.

"Ah, o que se quer? Uma crise?" Todas as dificuldades enfrentadas pelo governo Bolsonaro na seara política, sem exceção, foram criadas pelo próprio presidente, por seus filhos ou por aliados.

Não cabe ao Supremo ser tolerante com os autoritários para que estes possam ser intolerantes com a democracia.

Mello não é supernanny de fascistoides nem tem de embalar o bebê de Rosemary.

Reinaldo Azevedo