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Desconstruindo nota de Bolsonaro num verde-e-azul. Ele ignora a democracia

Manchete do Correio de Manhã de 12 de agosto de 1937: qualquer semelhança entre fala de Mussolini e de Bolsonaro não é mera coincidência - Reprodução
Manchete do Correio de Manhã de 12 de agosto de 1937: qualquer semelhança entre fala de Mussolini e de Bolsonaro não é mera coincidência Imagem: Reprodução
Reinaldo Azevedo

Reinaldo Azevedo

Reinaldo Azevedo, que publicou aqui o primeiro post no dia 24 de junho de 2006, é colunista da Folha e âncora do programa “O É da Coisa”, na BandNews FM. No UOL, Reinaldo trata principalmente de política; envereda, quando necessário — e frequentemente é necessário —, pela economia e por temas que dizem respeito à cultura e aos costumes. É uma das páginas pessoais mais longevas do país: vai completar 13 anos no dia 24 de junho.

Colunista do UOL

26/05/2020 08h34

O presidente Jair Bolsonaro, como sabemos, prefere meios heterodoxos de comunicação com a população. Nesta segunda, além de fazer uma absurda "visita surpresa" à Procuradoria Geral da República, sendo recebido por Augusto Aras, divulgou uma nota. Há quem veja na iniciativa uma tentativa de entendimento. Não! Trata-se de confronto. Por meio de nota.

Foi-se a minha leve esperança de que generais, da reserva ou da ativa, pudessem melhorar Bolsonaro um pouquinho que fosse. Nada! Ele os tornou piores. Hoje, apenas servem para chancelar absurdas ameaças golpistas — quando não estão marchando contra a ciência, como fez Eduardo Pazuello, general da ativa e ministro interino da Saúde. Transformou o ministério num quartel.

Como não tenho preconceitos, um general faz falta: Rêgo Barros, que é porta-voz e sumiu. Bolsonaro decidiu ser a sua própria voz. Só perdeu popularidade. Mas isso é com ele. Barros conseguia dar aparência ao menos de civilidade ao governo.

Quando petistas escreviam coisas de que eu discordava, costumava fazer o "vermelho (eles) e azul (eu)". Com Bolsonaro, mudo uma das cores. Sua nota segue em verde. Comento cada trecho em azul.

Diante da recente divulgação do vídeo da reunião ministerial do dia 22 de abril do corrente ano, pontuo o seguinte:

1. Mantenho-me fiel à proteção e à defesa irrestritas do povo brasileiro, especialmente os mais humildes e aos que mais precisam. Sinto-me bem ao seu lado e jamais abrirei mão disso.
Parece amor à democracia. Trata-se apenas de manifestação de baixo populismo. Afirma que os que dele discordam desprezam o povo. Estou enganado ou foi este mesmo presidente que, alertado para os riscos da pandemia, afirmou que "todo mundo morre um dia" e que, embora se chame Messias, "não pode fazer milagre'? Não é ele que, em sinal de amor e respeito aos que sofrem, declarou que "quem é de direita toma cloroquina e quem é de esquerda, tubaína"? Bolsonaro está anunciando que continuará a desrespeitar as medidas de distanciamento social e a provocar aglomerações, contra o que recomendam a ciência e o próprio Ministério da Saúde.

2. Nunca interferi nos trabalhos da Polícia Federal. São levianas todas as afirmações em sentido contrário. Os depoimentos de inúmeros delegados federais ouvidos confirmam que nunca solicitei informações a qualquer um deles.

Não ter solicitado informações não é sinônimo de nunca ter interferido. Sim, pediu a Sergio Moro a cabeça de Maurício Valeixo, em mensagem no WhatsApp, ao ler num site que a PF estaria investigando alguns amigos seus.

3. Espero responsabilidade e serenidade no trato do assunto.
As mesmas responsabilidade e serenidade empregadas pelo presidente no trato com a divergência? Aquelas mesmas exibidas na reunião ministerial do dia 22 de abril? A propósito: Bolsonaro admite que se pode ser responsável e inspirar segurança mesmo não pensando o que ele pensa? Quando estimula seus cachorros loucos nas redes sociais a demonizar Celso de Mello, ele o faz em nome da "responsabilidade e serenidade"? A propósito: é responsável e sereno anunciar que quer, sim, armar os brasileiros para que estes resistam se imponham à institucionalidade à bala?

4. Por questão de Justiça, acredito no arquivamento natural do Inquérito que motivou a divulgação do vídeo.
Bolsonaro não tem de admitir a culpa, e é compreensível que se diga inocente em entrevistas. Mas há modos e modos. A nota sai no dia em que ele visita, "de surpresinha", Augusto Aras, procurador-geral da República. A propósito, pergunto: esta declaração é a negação da nota golpista do general Augusto Heleno ou o seu complemento? Não é necessário responder. Já entendi...

5. Reafirmo meu compromisso e respeito com a Democracia e membros dos Poderes Legislativo e Judiciário.
Fosse verdade, seria excelente e nem precisaria ser dito. Mas é palavrório. Presidente da República que acha que pode dizer que respeita a democracia e os Poderes está, na verdade, anunciando o seu contrário: tanto não respeita que a afirmação sugere que poderia não ser assim. Fica parecendo que esse respeito é uma concessão que faz. Quem, enfim, acha que tem o poder de dizer "respeito" -- quando isso é um pressuposto do cargo -- está, na verdade, afirmando: "Se eu não quiser, não respeito".

Dado o que vem antes na nota, o tal respeito é condicionado: a um desfecho no STF que lhe seja favorável. Quem ameaça dar golpe, como faz o general Augusto Heleno, em nome de Bolsonaro, respeita o quê? A democracia? Quem arrasta o ministro da Defesa para fazer proselitismo com seguidores reconhece, mesmo, a independência dos Poderes e do Ministério Público?

6. É momento de todos se unirem. Para tanto, devemos atuar para termos uma verdadeira independência e harmonia entre as instituições da República, com respeito mútuo.
"Verdadeira independência" faz supor que a que temos é falsa. Assim, para que possa alcançar esse outro status, forçoso é que os demais Poderes se verguem àquilo que Bolsonaro considera ser o certo. As decisões tomadas pelo Supremo estão assentadas na Constituição, goste ele da Carta ou não. Caso Celso de Mello resolva requisitar o seu celular, a independência passa a ser falsa? Se Augusto Aras denunciá-lo, cessam os motivos para o respeito?

A propósito, pergunto: a "união de todos" supõe o respeito ao conhecimento científico, ao saber dos epidemiologistas, aos estudos técnicos, por exemplo, sobre a cloroquina? Ou independência só é verdadeira quando se concorda com Bolsonaro?

7. Por fim, ao povo brasileiro, reitero minha lealdade e compromisso com os valores e ideais democráticos que me conduziram à Presidência da República. Sempre estarei ao seu lado e jamais desistirei de lutar pela liberdade e pela democracia.

Apelo direto às massas, presidente? Outros, antes do senhor, já o fizeram, com resultados trágicos. A melhor forma de respeitar o povo se dá subordinando-se à Constituição. O senhor revelou na reunião do dia 22 que sua campanha em favor do armamento nada tem a ver com autodefesa. O senhor deixou claro que o horizonte do armamento é a guerra civil.

É a isso o que o senhor chama de respeitar o povo?

A propósito: cuidado quando o senhor escreve "liberdade E democracia". Olavo de Carvalho pode ser mau professor nessas horas. Fica parecendo que são coisa coordenadas, porém distintas, assim como laranja e tangerina são cítricas, sendo possível ter uma sem outra. Salta a sugestão de que, em política, a liberdade não está condicionada à democracia; como se aquela desta não derivasse.

A ideia de que possa haver, na dimensão pública e nas disputas pelo poder, uma liberdade distinta da democracia abre a janela para que, sob certas circunstâncias, a democracia possa ser sacrificada em nome da liberdade — ou do que se entende por ela. Como se liberdade, então, pudesse ensejar um conjunto de práticas a ser exercido mesmo ao arrepio da democracia. Ou isso é tirania ou é poder de milícias.

Não por acaso, na reunião ministerial do dia 22, o senhor emulou com o Mussolini de 1937, não é mesmo? Aquele, que acabou seus dias pendurado pelos pés em praça pública, pontificou que "SÓ UM POVO ARMADO É FORTE E LIVRE". E o senhor: "EU QUERO TODO MUNDO ARMADO! QUE POVO ARMADO JAMAIS SERÁ ESCRAVIZADO."

Já houve um secretário de Cultura que citava Goebbels entre aspas. E o senhor cita Mussolini, convicto, em metáfora inédita, de que querem "a nossa hemorroida, a nossa liberdade".

Aliás, o líder fascista é evidência da falácia de uma afirmação sua: "Se eu fosse ditador, né? Eu queria desarmar a população".

Como se nota por Mussolini, Chávez e todos os que promoveram a luta armada — matando milhares ou muitos milhões em nome de amanhãs sorridentes, pouco importa a ideologia —, tiranos querem o povo armado. Desde que a favor do... tirano.

Também a nota é parte de uma operação para intimidar o Ministério Público e os outros dois Poderes.O senhor ainda não aprendeu o que é democracia. E, receio, quando aprender, não tem como gostar. Como já não gosta.

Brasília, 25 de maio de 2020.
Jair Messias Bolsonaro
Presidente da República

Discordo também da data e local. Jamais esse tipo de nota poderia ter sido divulgada em dia de visita à PGR e quando jornalistas, insuflados pelo senhor, foram miseravelmente xingados às portas do Alvorada.

Discordo da assinatura. Não acho que esteja preparado para a Presidência. E até o senhor sabe disso. Daí a sua impaciência furiosa e a quantidade absurda de palavrões que fala. É falta de repertório.

Mas note: eu nunca achei, mas a maioria dos que votaram achou. Nada me resta a não ser respeitar o resultado. Ocorre que o senhor não respeita a Constituição.

Reinaldo Azevedo