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Rio à beira do Caos por causa da Covid-19; Witzel é alvo de operação da PF

Governador Wilson Witzel, do Rio: operação da PF em tempos de balcanização política do órgão e desastre adicional para a população do Estado - Gilvan de Souza/Agência O Dia/Estadão Conteúdo
Governador Wilson Witzel, do Rio: operação da PF em tempos de balcanização política do órgão e desastre adicional para a população do Estado Imagem: Gilvan de Souza/Agência O Dia/Estadão Conteúdo
Reinaldo Azevedo

Reinaldo Azevedo

Reinaldo Azevedo, que publicou aqui o primeiro post no dia 24 de junho de 2006, é colunista da Folha e âncora do programa “O É da Coisa”, na BandNews FM. No UOL, Reinaldo trata principalmente de política; envereda, quando necessário — e frequentemente é necessário —, pela economia e por temas que dizem respeito à cultura e aos costumes. É uma das páginas pessoais mais longevas do país: vai completar 13 anos no dia 24 de junho.

Colunista do UOL

26/05/2020 08h37Atualizada em 26/05/2020 12h54

Todo cuidado é pouco. Os dias andam muito delicados.

Minha simpatia pelo governador do Rio é negativa. Mas não dá para ignorar que a Polícia Federal vive um conflito interno entre bolsonaristas e não-bolsonaristas. Mais: Witzel foi "jurado", como se diz, por Jair Bolsonaro, que queria a todo custo trocar o comando da PF no Rio e o diretor-geral. Fez as duas coisas. Leiam o que vai no G1. Volto em seguida:

A Polícia Federal cumpre mandados, na manhã desta terça-feira (26), em vários endereços do Rio, entre eles o Palácio Laranjeiras, residência oficial do governador do estado do Rio de Janeiro, Wilson Witzel, na Zona Sul da cidade. Ao todo, 12 mandados de busca e apreensão são cumpridos em endereços do Rio e São Paulo.

A Operação Placebo apura suspeitas de desvios ligados ao Instituto de Atenção Básica e Avançada à Saúde para a construção de hospitais de campanha para enfrentamento do Covid-19.

Segundo as investigações, foi identificado um esquema de corrupção envolvendo uma organização social contratada para a instalação de hospitais de campanha e servidores da cúpula da gestão do sistema de saúde do Estado do Rio de Janeiro.

A ação é comandada por agentes da Polícia Federal de Brasília. Quinze equipes estão em vários endereços, entre eles no Leblon, na Zona Sul, e na Rua Professor Valadares, no bairro do Grajaú, Zona Norte, onde morava o governador antes de assumir o mandato.

A ação foi autorizada pelo STJ

RETOMO
Uma operação como essa não é feita do dia para a noite, certo? A equipe que executa os mandados é de Brasília, não do Rio, que acaba de passar por uma troca de comando.

Quem assumiu no Estado é Tácio Muzzi, que não estava na lista dos preferidos de Bolsonaro para o cargo. O ex-superintendente, Carlos Henrique Oliveira, foi convidado para ser secretário-executivo, segundo posto no órgão, que agora é comandado por Rolando Alexandre de Souza, que era o número dois da Abin. É homem de confiança de Alexandre Ramagem, que Bolsonaro tentou emplacar sem sucesso na PF. A nomeação foi suspensa por liminar do STF sob a suspeita de desvio de finalidade.

Em tempos em que se vê uma PF politizada e dividida — há um inquérito que apura se o presidente da República interferiu no órgão para atender a seus interesses —, convém ligar todos os sensores. No dia 22 de abril, na famosa reunião ministerial, Bolsonaro se referiu a Witzel como "estrume".

TRISTEZA SEM FIM
Bem, é o pior que poderia acontecer para o Rio. A situação no atendimento aos doentes de Covid-19 beira o desastre. Essa operação investiga se há desvios na construção de hospitais de campanha. Witzel também é investigado pela Polícia Civil Rio e pelo Ministério Público do Estado na Operação Mercadores do Caos, que apura desvios na compra de respiradores.

Se a situação já estava confusa e desordenada, a tendência é piorar. Espero que as pessoas envolvidas na operação tenham a certeza de que era impossível esperar mais, sei lá, uns dois meses — até, quem sabe?, que passasse o pico da doença — para tomar medidas dessa natureza.

Meu lado generoso tenta acreditar que não e que isso poderia prejudicar a investigação. Mas cumpre, sim, perguntar se a prioridade, agora, não é combater a doença, sem criar contratempos novos. Os malfeitos poderiam ser punidos depois. Sim, sei: pode existir o risco de eliminação de provas — por isso, o benefício da dúvida.

Os tempos, reitero, andam estranhos: convém acompanhar a situação com lupa. Minha simpatia por Witzel tem muitos degraus negativos, insisto. Mas é impossível não situar a operação num momento em que a PF vive um transe, com intervenções escancaradamente políticas.

Os pobres do Rio, que já pagam o pato, sofrerão ainda mais.

Reinaldo Azevedo