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Fedentina vem mais da PGR do que da PF. Bolsonaro obtém seu esconde-cadáver

Polícia Federal no Palácio das Laranjeiras: Wilson Witzel vira o centro da nova pregação de Bolsonaro. Combate à Covid-19 serve aos corruptos. PGR vira área de manobras - Foto: Domingos Peixoto/Agência O Globo
Polícia Federal no Palácio das Laranjeiras: Wilson Witzel vira o centro da nova pregação de Bolsonaro. Combate à Covid-19 serve aos corruptos. PGR vira área de manobras Imagem: Foto: Domingos Peixoto/Agência O Globo
Reinaldo Azevedo

Reinaldo Azevedo

Reinaldo Azevedo, que publicou aqui o primeiro post no dia 24 de junho de 2006, é colunista da Folha e âncora do programa “O É da Coisa”, na BandNews FM. No UOL, Reinaldo trata principalmente de política; envereda, quando necessário — e frequentemente é necessário —, pela economia e por temas que dizem respeito à cultura e aos costumes. É uma das páginas pessoais mais longevas do país: vai completar 13 anos no dia 24 de junho.

Colunista do UOL

27/05/2020 08h20

Quando as investigações começam, vaza tal volume de informações e detalhes que o público se perde. Resta-lhe apenas a constatação: "Ah, todo mundo é desonesto mesmo..." Ao que os bolsonaristas alardeiam: "Menos o Jair". Nesta terça, o senador Flávio Bolsonaro, vendo Wilson Witzel, seu desafeto, em palpos de aranha, teve a ousadia de chamar Fabrício Queiroz, o desaparecido, de "honesto e trabalhador".

Sim, há um monte de coisa que cheira muito mal nessa operação que colhe Wilson Witzel, governador do Rio, e é preciso tomar cuidado com o estado policial de Jair Bolsonaro. Há, sim, a fedentina do vazamento, mas não só. Em havendo áreas de manobras do presidente para engolfar governadores, em especial os desafetos do "capitão", a principal não é, por ora, a Polícia Federal, mas a Procuradoria Geral da República, cujo chefe é o bolsonarista Augusto Aras. É dali que emanaram os pedidos para mandados de busca e apreensão em endereços do governador e de sua mulher, Helena Witzel. Vamos ver.

FATORES ANTECEDENTES
Bolsonaro não é apenas um negacionista dos riscos da pandemia, a despeito dos números devastadores. Há muito tempo já ele vem alardeando que os governadores usam o coronavírus para alimentar esquemas de corrupção. E, sabemos, desde a Lava Jato, a palavra "corrupção" vira um anulador de quaisquer outros valores ou prioridades. Seu combate justificaria qualquer coisa.

Aras criou na PGR um grupo para acompanhar as ações dos governos estaduais durante a pandemia. Não se sabe de qualquer preocupação relacionada ao governo federal. Isso pode decorrer do fato de que este é de tal sorte incompetente e inoperante na área que pouco resta a investigar. Fato: tudo aquilo de que Bolsonaro precisava agora era de uma cortina de fumaça, ainda que exista incêndio — isto é, malfeitos — para encobrir a montanha de corpos de pobres vitimados pela doença. O órgão comandado por Aras lhe fez este favor.

ANTECEDENTES DA PLACEBO
A PGR reuniu investigações que se davam em duas frentes: Ministério Público Estadual, em parceria com a Polícia Civil, e Lava Jato do Rio, em parceria com o MPF. O primeiro grupo deflagrou a operação "Mercadores do Caos", que prendeu o subsecretário de Saúde Gabriell Neves.

Ele seria o responsável por fechar contratos que empenhariam algo em torno de R$ 1 bilhão. Desse total, R$ 836 milhões foram celebrados com a IABAS (Instituto de Atenção Básica e Avançada à Saúde), que responde pelos hospitais de campanha. O governo prometeu nove. Só três foram inaugurados. Com plena condição de funcionamento, há apenas um. Cláudio França, presidente da entidade, também foi alvo da operação.

Gabriell está preso em Benfica, acusado de fraude na compra, sem licitação, de mil respiradores por R$ 183,5 milhões. Dos 66 contratos que ele celebrou, 44 foram cancelados. Ouvido, afirmou que obedecia ordens.

Outra frente é a Lava Jato no Rio, que desfechou a Operação Favorito, que prendeu o empresário Mário Peixoto, que mantém contratos com o governo do Estado desde Marcello Alencar. Ele é acusado de ser sócio oculto da UNIR, organização social que administra as UPAs. Ela tinha sido descredenciada por falta de prestação adequada de contas, e Witzel levantou a interdição, contrariando pareceres jurídicos.

POR QUE A AÇÃO CONTRA WITZEL?
A operação contra o governador e sua mulher foi pedida pela PGR e autorizada pelo ministro Benedito Gonçalves, do Superior Tribunal de Justiça. Por que Gonçalves a autorizou?
1 - o tal Gabriell Neves, que está preso e já tinha sido demitido pelo governador, alega que seus superiores tinham o controle de suas ações;
2 - o escritório de advocacia de Helena Witzel tem um contrato de prestação de serviços com a empresa DPAAD Serviços Diagnósticos, que tem como sócios Alessandro de Araújo e Juan Elias Neves de Paula. Segundo o MPF, Peixoto é o verdadeiro dono da empresa, o que seu advogado nega.
3 - nota: o contrato de Helena com a DPAAD é de R$ 540 mil, dividido em 36 parcelas de R$ 15 mil, e o primeiro depósito foi feito em agosto do ano passado -- bem antes de o coronavírus assombrar o mundo;
4 - Peixoto já foi cliente do advogado Lucas Tristão, hoje secretário estadual de Desenvolvimento Econômico, Energia e Relações Internacionais do governo do Rio, também investigado.

ARAS NÃO APARECE
Foi a PGR que solicitou as ações contra Witzel, sua mulher e outros, mas Aras não aparece. Quem cuida do caso é a subprocuradora-geral Lindora Araújo. É de absoluta confiança do procurador-geral e responde pelos processos criminais junto ao STJ.

Outra subprocuradora-geral também trabalha em perfeita afinação com Aras: Célia Regina Delgado, do Gabinete Integrado de Acompanhamento da Covid-19, que funciona no âmbito da PGR. Há fortes indícios de que houve vazamento da Operação Placebo oriundos da Polícia Federal, mas o esparramo contra um adversário figadal de Jair Bolsonaro não partiu da PF e sim da Procuradoria-Geral da República. Vale dizer: a coisa pode ser ainda mais grave.

Os governadores que se cuidem. O risco maior não vem de uma PF, também bolsonarizada, mas da bolsonarização da PGR. Ah, sim: não se está aqui a negar que tenha havido safadeza. É preciso apurar. Ainda que tenha existido, isso não afasta o risco de manipulação política da investigação.

Ou ninguém se impressiona que, até agora, a PGR não tenha visto nada de errado na atuação do governo federal?

Reinaldo Azevedo