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Let the sunshine in. Os defensores da democracia despertam. E vão adiante!

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Reinaldo Azevedo

Reinaldo Azevedo

Reinaldo Azevedo, que publicou aqui o primeiro post no dia 24 de junho de 2006, é colunista da Folha e âncora do programa “O É da Coisa”, na BandNews FM. No UOL, Reinaldo trata principalmente de política; envereda, quando necessário — e frequentemente é necessário —, pela economia e por temas que dizem respeito à cultura e aos costumes. É uma das páginas pessoais mais longevas do país: vai completar 13 anos no dia 24 de junho.

Colunista do UOL

02/06/2020 08h49

Há sinais de que a sociedade brasileira começa a acordar de uma espécie de catatonia coletiva. Até havia outro dia, pouco importavam os disparates que emanassem de Brasília — sendo, pois, irrelevante o arroubo de retórica vulgar praticado pelo presidente da República —, e a reação dos sensatos era de enfaro, de repulsa, de nojo quase, mas tal repulsa era passiva, solitária, expressa, no máximo, em grupos desalentados de WhatsApp. Bem, a sociedade brasileira ainda respira.

Grupos em defesa da democracia, das liberdades públicas, do estado de direito e da tolerância estão se formando e se multiplicando, ganhando adesões aos milhares, trazendo um pouco de ar fresco à pestilência fascistoide e golpista que vinha sendo o mau samba de uma nota só do país. Jair Bolsonaro, por óbvio não gosta de que pessoas se unam acima dos partidos em defesa de valores civilizatórios. E ganhou um nem tão inesperado parceiro nesse desgosto: Luiz Inácio Lula da Silva — que comete o erro de criticar o que pode ser chamado de Frente Ampla Antifascista. E por este, tenho certeza, ele não vai se desculpar.

Em parte, devemos, por razões que eles não suspeitam, ser gratos aos militares que compõem o governo Bolsonaro. Se havia a esperança de que uma geração mais madura de generais da reserva emprestaria moderação ao mau militar e capitão destrambelhado, bem, dizer o quê? Deixem a esperança do lado de fora todos os que adentrarem o Palácio do Planalto.

Infelizmente, o generalato que serve a Bolsonaro não conseguiu lhe ensinar uma vírgula de sua boa formação intelectual. E ainda desaprendeu muita coisa com o chefe. Passaram eles também a falar a linguagem do golpismo. Ainda que os indivíduos de juízo, e os há também entre fardados, nem sequer cogitem a possibilidade de um rompimento institucional porque isso, sim, poria o país no caminho do desastre sem volta, a verdade é que os estrelados da República passaram a ameaçar a sociedade com uma quartelada soft.

Se a cena de tanques cercando o Congresso e o Supremo são inimagináveis, pretendeu-se apelar à intimidação, com a leitura marota e absurda do Artigo 142 da Constituição, que daria aos militares a última palavra sobre os destinos do país. Não! A última palavra é a da Carta Magna. No caso de impasse, a corte constitucional do país é o STF. Não queremos golpe. Nem desordem.

Multiplicam-se adesões importantes a manifestos como "Basta!", de juristas, e "Estamos Juntos", lançado incialmente por um grupo de pouco mais de um centena de nomes e que alcançou, entre sexta e esta segunda, 224 mil assinaturas, com adesões de peso como, entre outras, a da Ajufe (Associação dos Juízes Federais). No front das ruas, ainda que em momento indesejado em razão da Covid-19, o Antifa (de "Antifascistas") evidencia que golpe não é passeio no parque. Nesse caso, uma nota: as lideranças têm de ficar atentas para denunciar e afastar agentes provocadores da violência. Afinal, tudo o que os fascistoides querem é pregar o fechamento do Congresso e do Supremo, acusando de truculentos os adversários.

O presidente Jair Bolsonaro, cujo prestígio está em queda constante — mesmo com parte considerável da sociedade ainda ilhada em casa —, percebeu o cheiro do perigo e resolveu, também ele, se mover, mas para o lado errado, o que não surpreende.

Além da pregação golpista, de que a piscadela dos generais para a baderna é o capítulo final, resolveu jogar-se nos braços do fundão do centrão, obrigando-se a ceder nacos de poder não para constituir uma base de apoio em torno de um projeto. Não vejo, à diferença de muitos, nada de errado com o presidencialismo de coalizão: desde que se saiba para quê. E Bolsonaro não sabe. Ocupa-se, exclusivamente, em conseguir um número de deputados — ao menos 172 — que o livrem do impeachment.

Mesmo Augusto Aras, procurador-geral da República que parecia confortável no papel de procurador-geral de Bolsonaro, não poderá se esconder na omissão servil. A sociedade acordou também para a sua função. A Constituição de 1988 não deu a independência que deu ao Ministério Público Federal — excessiva em muitos aspectos — para que o titular da PGR se rendesse aos pés de um ogro do estado de direito que se pretende demiurgo de uma nova era.

A maioria da sociedade brasileira exige que sente na cadeira do titular do Poder Executivo um presidente de toda a República, não o de uma facção ou de uma milícia. Não passarão — com ou sem sobrevoo indecoroso de helicóptero, transportando o ministro da Defesa, sobre o Judiciário e o Legislativo.

Reinaldo Azevedo