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Não faz sentido Moro defender compadre mais do que o próprio a si mesmo

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Imagem: Reprodução
Reinaldo Azevedo

Reinaldo Azevedo

Reinaldo Azevedo, que publicou aqui o primeiro post no dia 24 de junho de 2006, é colunista da Folha e âncora do programa “O É da Coisa”, na BandNews FM. No UOL, Reinaldo trata principalmente de política; envereda, quando necessário — e frequentemente é necessário —, pela economia e por temas que dizem respeito à cultura e aos costumes. É uma das páginas pessoais mais longevas do país: vai completar 13 anos no dia 24 de junho.

Colunista do UOL

04/06/2020 08h06

Mais uma vez o altar treme de indignação. Por quê?

Augusto Aras, procurador-geral da República, retomou a negociação de um acordo de delação premiada com o advogado Rodrigo Tacla Duran. Ele acusa o advogado Carlos Zucolotto, amigo e compadre do ex-juiz e ex-ministro Sérgio Moro, de lhe ter cobrado US$ 5 milhões para criar facilidades numa delação premiada.

Ex-advogado da Odebrecht e considerado um dos operadores do grupo, com dupla nacionalidade, ele mora na Espanha. Há uma ordem de prisão contra ele no Brasil. O Ministério Público Federal alega que as negociações para uma delação com ele não frutificaram porque teria tentado enganar a força-tarefa.

A Lava Jato como referência de verdade depois de tudo o que revelou The Intercept Brasil é coisa delicada, não é mesmo?

Os US$ 5 milhões teriam sido pagos para tentar facilitar as condições de negociação de uma multa fixada, inicialmente, em R$ 55 milhões. O acordo não prosperou. Quando saiu o decreto de prisão de Duran, ele já estava na Espanha.

AS REAÇÕES IMPRÓPRIAS
Pois bem... As conversas estão em curso. Em vez de a gente ouvir a reação de Zucolotto, que até poderia falar por si mesmo, advogado que é, adivinhem quem saiu em defesa do rapaz, criticando a decisão?... Ora, ninguém menos do que Moro. Escreveu em nota:
"Causa-me perplexidade e indignação que tal investigação, baseada em relato inverídico de suposto lavador profissional de dinheiro, e que já havia sido arquivada em 2018, tenha sido retomada e a ela dado seguimento pela atual gestão da Procuradoria-Geral da República logo após a minha saída, em 22 de abril de 2020, do governo do presidente Jair Bolsonaro".

Sei. Moro acrescenta que ninguém está acimada lei. Que bom!

Outro desaparecido que deu as caras nesta quarta foi Deltan Dallagnol, o ex-blogueirinho ou youtuber, que poderia ensinar a fazer tutoriais sobre como atacar o STF... Vituperou contra a decisão de Aras, acusou Tacla Duran, repudiou a investigação...

Duran sugere ter documentos inéditos, que não foram entregues porque, afinal, a delação não saiu, e ele teve a prisão decretada.

PODER SER?
Pode ser tudo uma baita sacanagem? Digamos que sim! Isso acabará ficando claro, creio. O que causa perplexidade é que sejam Moro e Dallagnol a, na prática, sair em defesa de Zucolotto. Caso se esteja diante de uma armação, acho difícil que a coisa não venha à luz. Se Duran tem dados novos que elucidam o caso, que saibamos quais são.

Criticar um eventual acordo porque Duran não é a Irmã Dulce... Bem, meus caros, quantas Irmãs Dulces fizeram delação? Não me lembro de nenhuma.

O ex-ministro diz ainda:
"Lamento, outrossim, que mais uma vez o nome de um amigo seja utilizado indevidamente para atacar a mim e o trabalho feito na Operação Lava Jato, uma das maiores ações anticorrupção já realizadas no Brasil", afirma o ex-ministro."

Não cabe ao ex-juiz se comportar como a Mamãe Gansa do seu compadre, com os seus "lamentos outrossim..." Ou, convenham, todos os seus amigos têm de ser considerados imunes a qualquer investigação ou a qualquer delação que lhes digam respeito porque, afinal, são... amigos de Moro.

Aí não dá!

Reinaldo Azevedo