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Quantos tomariam overdose de cloroquina e matariam Schubert com a sanfona?

Manifestante bolsonarista participa de protesto a favor do governo e contra os outros Poderes da República, uma inovação reacionária introduzida na política pelo bolsonarismo - Adriano Vizoni/Folhapress
Manifestante bolsonarista participa de protesto a favor do governo e contra os outros Poderes da República, uma inovação reacionária introduzida na política pelo bolsonarismo Imagem: Adriano Vizoni/Folhapress
Reinaldo Azevedo

Reinaldo Azevedo

Reinaldo Azevedo, que publicou aqui o primeiro post no dia 24 de junho de 2006, é colunista da Folha e âncora do programa “O É da Coisa”, na BandNews FM. No UOL, Reinaldo trata principalmente de política; envereda, quando necessário — e frequentemente é necessário —, pela economia e por temas que dizem respeito à cultura e aos costumes. É uma das páginas pessoais mais longevas do país: vai completar 13 anos no dia 24 de junho.

Colunista do UOL

03/07/2020 08h27

Qual é, afinal, o real tamanho do bolsonarismo barra-pesada?

A Folha publicou um texto importante, de autoria de Reginaldo Prandi, para entender o que está em curso no Brasil. Prandi é Professor emérito da USP e um dos criadores do método de pesquisas do Datafolha. A íntegra está aqui. Abaixo, faço algumas questões — o professor nada tem a ver com elas — e respondo com trechos do seu artigo, que seguem em azul.

1: Mas, afinal, qual é o tamanho do bolsonarismo raiz, radical mesmo, do tipo que poderia tomar uma overdose de cloroquina e aplaudir o assassinato de Schubert com a sanfona?
Esse grupo de adeptos fiéis, entusiastas fanáticos, adoradores em qualquer situação, representa 15% da população adulta. É o chamado grupo heavy do presidente, um núcleo duro de apoiadores irrestritos, bolsonaristas radicais, que vai às ruas por seu presidente, que Bolsonaro confunde com o povo brasileiro. Esses 15%, ainda que minoritários, formam uma base barulhenta, destemida e sempre se mostrando. Suas opiniões contrastam muito com as dos demais 85% da população, uma maioria que também abriga bolsonaristas de outro perfil, gente que votou no presidente, mas que nem sempre leva a sério o que ele diz, pensa e faz, e que não prima por avaliações necessariamente favoráveis ao governo Bolsonaro.

2: Será a maioria dos fanáticos composta de homens, aquele tipo que (des)combina bermuda cáqui, camiseta da Seleção e meias e tênis pretos? Tem mais grana ou menos do que o resto dos brasileiros?
O grupo adorador do presidente é formado hoje por uma maioria feminina de 60%. Atrai mais os brancos do que os negros e não difere muito dos restantes 85% em termos de escolaridade. A renda familiar dos bolsonaristas irrestritos é, entretanto, significativamente maior (no grupo bolsonarista radical, 40% das famílias têm renda maior que três salários mínimos mensais, contrastando com os 26% dos demais).Eleitores do Nordeste são menos atraídos pela devoção a Bolsonaro que os do Sudeste. Não deixa de ser curioso o fato de que no grupo radical do presidente 36% solicitaram o auxílio emergencial devido à pandemia, taxa menor que os 42% do grupo dos demais.

3: Disseram preferir a democracia 75% dos entrevistados. Entre os bolsonaristas, o índice também é alto: 70%. Mas será que, na prática, o apreço pela democracia é assim tão grande nesse grupo? Vamos ver como eles responderam a uma pergunta crucial para medir o real apreço pelo regime democrático.
"Sobre o regime militar que durou de 1964 a 1985, o presidente Jair Bolsonaro já disse que não houve ditadura no Brasil. Pelo que você sabe ou imagina, houve ou não uma ditadura no Brasil durante o regime militar?". Sim, houve uma ditadura, respondem 47% dos bolsonaristas heavy, contra 83% dos demais.

4: Há alguma outra evidência de que o desprezo dos "autênticos" pela democracia é ainda maior do que parece?
Parece alentador que 37% dos adoradores de Jair Bolsonaro concordem que a ditadura deixou mais realizações negativas que positivas, mas o grupo dos demais os coloca lá embaixo com seus 66%. Não se pejam esses 15% de concordar com o fechamento do Congresso Nacional (36% se dizem favoráveis) e do Supremo Tribunal Federal (com o apoio de 44%). É muito, considerando que as porcentagens respectivas dadas pelo grupo dos demais brasileiros foram 14% e 16%.

5: Essa gente estaria só, vamos dizer, pilhada por notícias negativas que, nos últimos anos, têm atingido o Congresso e o Judiciário ou padece de repulsa profunda por valores civilizatórios?
Em outros pontos da pesquisa, o desprezo do grupo bolsonarista pelos princípios e práticas democráticos vai se constituindo num edifício autoritário descarado. Estão abaixo do grupo majoritário no que concerne à concepção de que direitos humanos se aplicam a todos (53% contra 68%) e concordam que o governo brasileiro deva ter o direito de censurar jornais, TV e rádio (36% versus 15%). Sem Congresso, sem STF, sem imprensa livre, sem direitos humanos para todos, é esse o país idealizado e buscado com muito barulho, propaganda, mentira e artifícios jurídicos, por parte dos adoradores do santo Messias Bolsonaro.

6: Será verdade que o bolsonarismo radical provoca distúrbio cognitivo e perda da capacidade de fazer uma análise minimamente objetiva da realidade?
Diante de 60 mil mortos pela pandemia, e nem chegamos a dobrar a curva, 85% dos fanáticos concordam que o desempenho de Bolsonaro em relação à pandemia tem sido ótimo ou bom, enquanto o grupo majoritário restringe essa resposta a 18%. Mais que isso, é a visão de 93% dos adoradores que, nesse aspecto, o presidente mais ajuda que atrapalha, ficando em 24% essa avaliação por parte dos demais.

RETOMO
Sim, meus caros, é um alento saber que o extremismo bolsonarista se resume a 15% da população adulta. Mas é preciso fazer aquilo que eles não fazem e encarar a realidade: é muita gente a pensar indecências!

Reconheça-se: se fatores conjunturais — como petrolão, petismo em desalinho, crise econômica e Lava Jato — empurraram para Bolsonaro eleitores que não se identificam com a barbárie, de modo que muitos votaram contra o PT, não a favor do "Mito", a pesquisa parece indicar que havia, sim, uma parcela razoável de brasileiros que pensava (e pensa), coisas asquerosas, mas sem um líder que pudesse chamar de seu. Ele apareceu.

Lidera quem? Na verdade, os tais 15%. Foi para eles que, até agora — ou até a prisão de Fabrício Queiroz —, governou e discursou. E confunde essa parte detestável do povo brasileiro com o povo inteiro.

Bolsonaro terá de fazer ajustes para ampliar as chances de encerrar o mandato. E é provável que tenha de descartar o lixo moral que hoje se acumula, por exemplo, nos ministérios das Relações Exteriores e do Meio Ambiente. Há uma chance de perder parte de seus fanáticos se o fizer.

Insisto: Bolsonaro não inventou essa gente. Ela estava por aí, à espera de uma voz. E não vai mais se recolher quando ele se aposentar.

Reinaldo Azevedo