PUBLICIDADE
Topo

Dilma, a mãe da lei de delação, prova que não esquece nem aprende nada

Ex-presidente Dilma Rousseff: declaração sobre ação contra Serra evidencia que ainda não entendeu o que está em curso - Wilton Júnior/Estadão Conteúdo
Ex-presidente Dilma Rousseff: declaração sobre ação contra Serra evidencia que ainda não entendeu o que está em curso Imagem: Wilton Júnior/Estadão Conteúdo
Reinaldo Azevedo

Reinaldo Azevedo

Reinaldo Azevedo, que publicou aqui o primeiro post no dia 24 de junho de 2006, é colunista da Folha e âncora do programa “O É da Coisa”, na BandNews FM. No UOL, Reinaldo trata principalmente de política; envereda, quando necessário — e frequentemente é necessário —, pela economia e por temas que dizem respeito à cultura e aos costumes. É uma das páginas pessoais mais longevas do país: vai completar 13 anos no dia 24 de junho.

Colunista do UOL

04/07/2020 10h10

A quantidade de erros — eles devem achar que são acertos — que os petistas estão cometendo nestes tempos já merece uma enciclopédia. Ah, não! Não me candidato a conselheiro...

Reparem que nem me refiro ao "PT", o ente. O partido parece ainda jamais perdido. Enquanto Jair Bolsonaro lhe tunga o Bolsa Família, uma de suas vitrines, os petistas estão fazendo clivagens ideológicas em manifestos em defesa da democracia ou falando enormidades, como fez a ex-presidente Dilma Rousseff no caso José Serra. Leio no UOL, com reportagem da Efe:

A ex-presidente Dilma Rousseff (PT) criticou as buscas e apreensões realizadas hoje pela Operação Lava Jato na casa do senador e ex-governador de São Paulo José Serra (PSDB), na zona oeste da capital paulista, por alegar que os fatos investigados já eram conhecidos há muito tempo e que a ação foi uma "manobra diversionista".

"Essa questão que hoje a Lava Jato sai às ruas investigando, que é a do senador José Serra, há quanto tempo se sabe disso no Brasil? Há quanto tempo se sabe da ligação entre o chamado Paulo Preto (Paulo Vieira de Souza, suposto operador de propinas do PSDB) e o senador José Serra? Há dez anos. A troco de quê (a operação) é feita hoje? Como elemento de manipulação?", questionou Dilma em entrevista à Agência Efe.

"Veja bem, em relação ao senador José Serra, eu sou completamente isenta. O senador José Serra é um golpista de primeira hora. Mas mesmo (em relação a) um golpista de primeira hora você tem que perguntar por que querem, agora, sabendo tudo o que sabiam, há muito tempo, por que só agora? Eu acredito que só agora porque estão manipulando esse caso. É uma manobra diversionista querendo usar toda a questão do combate à corrupção para outros fins", acrescentou.

Dilma também acusou a Lava Jato de ter sido montada contra o PT e, agora, usar o caso envolvendo Serra para "maquiar" a operação. "Toda a Lava Jato foi feita contra nós. Agora que eles estão tentando dar uma 'embelezadinha', um maquiada na Lava Jato, é que eles vão lá atentar contra o senador Serra, que há dez anos eles sabiam do que se tratava. O PT foi objeto da maior perseguição jurídica, midiática e policial", alegou.

RETOMO
É um clássico do comportamento de quem "não aprende nada nem esquece nada". Ela -- ou o PT? -- ainda não entendeu a natureza da Lava Jato nem seu alcance. Contra o PT apenas? O que aconteceu com o agora deputado Aécio Neves (PSDB-MG), por exemplo? O ex-presidente Michel Temer (MDB), que foi seu vice, já foi preso duas vezes e enfrentou, no poder, duas denúncias de impeachment.

A operação desmantelou o establishment político, o bom e o mau. Por bons e por maus motivos.

Tudo o que o Lava Jato disser ou fizer contra petistas é naturalmente injusto e faz parte de uma conspiração. Quando, no entanto, parte para cima de políticos de outros partidos, bem, nesse caso, segundo Dilma, não só a ação é em si justa — vejam ali que ela repete acusações que fez, note-se, contra Serra na disputa eleitoral de 2010 — como ainda é inautêntica, a despeito do desastre que provoque na vida das pessoas, porque tudo seria apenas um diversionismo para desviar o verdadeiro alvo da operação: o PT.

Com a devida vênia, senhora ex-presidente, trata-se de uma formidável soma de bobagens, além de, obviamente, evidenciar conivência com o estado policialesco que aquela gente tentou implementar no país.

O PT parece disposto a jogar um jogo perigoso para si e para o Brasil. "Ou se está inteiramente com a gente ou contra a gente". Passa a impressão, às vezes, de que o único mal que verdadeiramente vê na Lava Jato está no fato de que a operação não serviu aos interesses do partido.

Ela julga a sua observação "isenta", embora chame a agressão ao adversário de "embelezadinha" na operação. A linguagem é eloquente: feio é pegar petistas; quando o alvo é de outro partido, aí a coisa se embeleza, embora, muito esperta mesmo, ela revele não cair no que considera um truque.

E não poderia me despedir deste texto sem lembrar: foi Dilma a promover — em companhia dos petistas que lhe davam apoio no Congresso — as leis 12.846 (de leniência) e 12.850 (delação premiada). A Lava Jato nascia ali.

Ah, sim: fui crítico das leis, em particular da lei de delação. Dilma aplaudiu.

Vai ver era o PT conspirando contra o PT...

Dilma precisa ser mais modesta no seu rancor. Afinal, é ela a mãe da lei de delação premiada, sem a qual não existiria Lava Jato.

Reinaldo Azevedo