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Doente ou não, Bolsonaro não aprende nada. Afinal, o vírus não é professor

O presidente Jair Bolsonaro durante anúncio de que esta com Covid-19. Padrão não mudou - Reprodução/TVBrasil
O presidente Jair Bolsonaro durante anúncio de que esta com Covid-19. Padrão não mudou Imagem: Reprodução/TVBrasil
Reinaldo Azevedo

Reinaldo Azevedo

Reinaldo Azevedo, que publicou aqui o primeiro post no dia 24 de junho de 2006, é colunista da Folha e âncora do programa “O É da Coisa”, na BandNews FM. No UOL, Reinaldo trata principalmente de política; envereda, quando necessário — e frequentemente é necessário —, pela economia e por temas que dizem respeito à cultura e aos costumes. É uma das páginas pessoais mais longevas do país: vai completar 13 anos no dia 24 de junho.

Colunista do UOL

08/07/2020 09h40

Notem bem como vou escrever: o presidente Jair Bolsonaro diz estar com a Covid-19. Tenho tantas razões para não acreditar agora que esteja doente como tinha, antes, para não acreditar que não estivesse. Em passado recente, fez o exame e montou uma operação de guerra para esconder o resultado. Os motivos eram e seguem insondáveis se testara negativo. Nesta terça, sem que ninguém o tenha indagado, resolveu fazer a revelação. Que importância tem a coisa em si? Em sendo verdade, e caso seu estado de saúde não piore, nenhuma! Importante, aí sim, é o fato de quase ninguém confiar no que ele diz — e, convenham, por boas razões.

Há outro aspecto relevante: muita coisa se afirmou na imprensa e nas redes sociais sobre o anúncio da doença. Só o que não se viu foi expressão de alguma empatia. Aliás, esta não veio nem dos seus mais fiéis seguidores. De tal sorte transformaram a doença numa questão política que são incapazes de enxergar quem realmente importa: o doente — mesmo quando se trata daquele a quem chamam "mito". Bolsonaro está destinado a ser vítima da sua própria concepção de mundo. E isso, acho, indica um futuro não muito tranquilo.

É claro que é tentador lembrar todos os despropósitos que o presidente já expeliu sobre a doença quando confrontado, em seu negacionismo estúpido, com o número de mortos. Como é mesmo? "Todo mundo morre um dia". Ou: "Não sou coveiro". Ou ainda: "E daí?" Outra: "Sou Messias, mas não posso ressuscitar ninguém".

Que tenha contraído a doença depois de ter feito pouco caso de todos os métodos para evitar o contágio e de ter transformado a irresponsabilidade em pregação, vamos convir, desperta na gente a tentação da ironia, não é mesmo? Cuidado! Não se pode fazer o jogo de Bolsonaro ao criticá-lo. Nem o vírus nem a realidade estão se vingando dele — se estiver mesmo doente. O coronavírus não é um educador moral que pune aqueles que não seguem as regras.

Infelizmente, ele é despido de qualquer critério: infecta bons e maus, negacionistas e realistas, humanistas e bestas ao quadrado que saem por aí vomitando suas ignorâncias e seu rancor. Também nesse terreno das lições que a vida nos dá, é uma tolice e uma perda de tempo imaginar que o presidente possa sair transformado pela doença. Aliás, para ser claro, sempre recusei a ilação de que devemos extrair brocados morais e existenciais dos limões que a vida nos dá. Faça limonada apenas. E pronto. Patógenos, tumores, inflamações, acidentes e desastres não existem para melhorar o padrão moral das vítimas, tenham o caráter que tiverem. Sempre rejeitei a pedagogia da porrada.

Bolsonaro sairá da Covid-19, na hipótese de estar doente, sendo a pessoa horrível que era antes dela. Refiro-me, obviamente, à pessoa do político. As outras dimensões — a de marido ou de amigo, por exemplo — não me interessam. Isso diz respeito exclusivamente a quem priva da sua intimidade, o que não é e jamais seria o meu caso porque resta evidente, dados os fragmentos de pensamento espalhados por aí ao longa vida, que os valores que organizam sua vida, seu cotidiano e sua existência doméstica me causam repulsa. Como repulsivas são as suas escolhas políticas em qualquer campo que se queira.

Como vimos, Bolsonaro aproveitou o anúncio de que está doente para, mais uma vez, minimizar a gravidade do mal, que já matou quase 70 mil brasileiros, em números estupidamente subnotificados. Veio a público para anunciar que está tomando hidroxicloroquina e azitrominicina e, afirmou ele, já estava se sentindo melhor. A segunda droga é eficaz no combate à chamada pneumonia secundária — de acordo com o próprio presidente, ele não exibe sinais nem da primária, provocada pelo coronavírus — e a outra é considerada inócua no trato da doença em qualquer circunstância. Até os EUA de Donald Trump suspenderam o uso do remédio.

Como sabe qualquer médico minimamente informado, ainda que as drogas fossem eficazes para responder ao anunciado estado de saúde do presidente — e não são —, não houve tempo para melhora nenhuma. E, portanto, Bolsonaro agrega essa formidável mentira à estúpida lista de imposturas sobre a doença. Mais: segundo deu para entender, ele tomou a hidroxicloroquina antes mesmo de testar positivo, incentivando o uso preventivo do remédio, o que soma à mentira o estímulo à automedicação com uma droga que pode ter efeitos colaterais graves.

Infelizmente, em muitos casos, a Covid-19 mata, mas não integra o rol das doenças incuráveis. É preciso vencer o patógeno e os males que ele causa ao organismo. Já a disposição para a farsa e para o embuste remete a defeitos de caráter. E isso não tem cura.

Reinaldo Azevedo