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Bolsonaro até tenta mudar de assunto, mas esqueletos se agitam no armário

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Imagem: Reprodução
Reinaldo Azevedo

Reinaldo Azevedo

Reinaldo Azevedo, que publicou aqui o primeiro post no dia 24 de junho de 2006, é colunista da Folha e âncora do programa “O É da Coisa”, na BandNews FM. No UOL, Reinaldo trata principalmente de política; envereda, quando necessário — e frequentemente é necessário —, pela economia e por temas que dizem respeito à cultura e aos costumes. É uma das páginas pessoais mais longevas do país: vai completar 13 anos no dia 24 de junho.

Colunista do UOL

09/07/2020 08h25

Pois é, meus caros. Bem que o presidente pensa em mudar de assunto, em se distanciar, aos olhos do público ao menos, de atos delinquentes em curso nos subterrâneos do poder ou ainda herdados da campanha eleitoral. Agora que não é mais um pregador contumaz do golpe — renunciou a essa condição desde que Fabrício Queiroz foi preso; ele deve saber as razões —, busca ser o homem do entendimento e, ora vejam, voltado para o social. Para tanto, resolveu até sequestrar o Bolsa Família e o Minha Casa Minha Vida, dando-lhes nova roupagem e, se possível, dinheiro a mais. Sem essa de ir a manifestações de meia-dúzia de lunáticos que saem por aí a pregar o fechamento do Supremo e do Congresso.

Até do coronavírus ele tentou fazer uma limonada, usando a alegada contaminação para fazer campanha em favor da hidroxicloroquina; para comprovar a tese de que, nele, a Covid-19 é só uma gripezinha e para afirmar que o governo é muito bem-sucedido no enfrentamento da doença porque os empregos foram preservados. O presidente ignora os mortos e o fato de que, pela primeira vez, segundo dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad Contínua), do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), mais da metade da População Economicamente Ativa — pessoas em idade de trabalhar — está sem emprego.

Bolsonaro, no entanto, resolveu deixar um pouco de lado o discurso do ódio para envergar as vestes do estadista. Nada de explosões de fúria em público e xingamentos. O medo de uma delação de Fabrício Queiroz fez pelo apreço que Bolsonaro passou a ter pela democracia o que um livro de Tocqueville, por óbvio, não faria. Até porque teria de ser lido, né?

Quando tudo parecia caminhar bem, inclusive na declarada companhia do coronavírus, eis que esqueletos se agitam no armário, e o passado, uma vez mais, bate à porta, a exemplo do que aconteceu com as rachadinhas de Flávio Bolsonaro e Fabrício e com as ligações do clã com as milícias. Explode um escândalo no quintal do governo. Ou melhor: dentro do Palácio do Planalto.

O Facebook anunciou ter removido nada menos de 73 contas ligadas a integrantes do governo — o que inclui um auxiliar direto do presidente, com sala no Planalto: 35 são do Face propriamente, e as outras 38, do Instagram. Foram eliminadas ainda 14 páginas e um grupo no Facebook.

Informa a Folha:
Os dados que constam das investigações da plataforma foram analisados por pesquisadores americanos que apontam para, ao menos, cinco funcionários e ex-funcionários de gabinetes de bolsonaristas. O Facebook e o Instagram identificaram páginas e contas com conteúdo de ataques a adversários políticos feitos por Tércio Arnaud Tomaz, 31, assessor especial da Presidência da República e que faz parte do chamado "gabinete do ódio" ou "gabinete da raiva".

O grupo, tutelado pelo vereador licenciado Carlos Bolsonaro (Republicanos-RJ), é responsável por parte da estratégia digital bolsonarista. A existência do gabinete foi revelada pela Folha no dia 19 de setembro do ano passado. O jornal mostrou que o bunker ideológico está instalado numa sala no terceiro andar do Palácio do Planalto, a poucos passos do gabinete presidencial.

Além da página "Bolsonaro Opressor 2.0", seguida por mais de 1 milhão de pessoas no Facebook, foi identificada a conta @bolsonaronewsss, também sob administração de Tércio, com 492 mil seguidores e mais de 11 mil publicações. De acordo com o estudo, muitas dessas postagens feitas por Tércio foram publicadas durante o horário comercial, ou seja, podem ter sido feitas durante o expediente dele no Planalto.

"Nossa investigação encontrou ligações a pessoas associadas ao PSL (Partido Social Liberal) e a alguns dos funcionários nos gabinetes de Anderson Moraes, Alana Passos, Eduardo Bolsonaro, Flávio Bolsonaro e Jair Bolsonaro", afirmou a empresa, que fez uma investigação interna mais ampla e identificou redes inautênticas também no Canadá, no Equador, na Ucrânia e nos Estados Unidos. Anderson Moraes e Alana Passos são deputados estaduais do PSL no Rio, ligados à família Bolsonaro."

RETOMO
Eis aí. Não adianta Bolsonaro tentar se desvincular do seu passado porque passado não é, mas presente. A figura de mais proeminência no flagra dado pelo Facebook é nada menos do que assessor direto do presidente da República.

E, como não poderia deixar de ser, Bolsonaro não é um, mas uma legião. Jair Renan só não está lista porque ainda não é político, creio eu...

Inexistem individualidades por ali. O que se tem é a família Bolsonaro. Por óbvio, é um erro falar nas "rachadinhas do Flávio".

Eram e sempre serão "as rachadinhas dos Bolsonaros".

Reinaldo Azevedo