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Mendes reafirma respeito às Forças Armadas e mantém crítica à ação na Saúde

Ministro Gilmar Mendes: nota sobre o episódio superestimado reafirma respeito às Forças Armadas. Que elas se respeitem também - Kleyton Amorim/UOL
Ministro Gilmar Mendes: nota sobre o episódio superestimado reafirma respeito às Forças Armadas. Que elas se respeitem também Imagem: Kleyton Amorim/UOL
Reinaldo Azevedo

Reinaldo Azevedo

Reinaldo Azevedo, que publicou aqui o primeiro post no dia 24 de junho de 2006, é colunista da Folha e âncora do programa “O É da Coisa”, na BandNews FM. No UOL, Reinaldo trata principalmente de política; envereda, quando necessário — e frequentemente é necessário —, pela economia e por temas que dizem respeito à cultura e aos costumes. É uma das páginas pessoais mais longevas do país: vai completar 13 anos no dia 24 de junho.

Colunista do UOL

14/07/2020 09h22

O ministro Gilmar Mendes, do Supremo, divulgou uma nota nos seguintes termos sobre a crise artificial criada por piromaníacos referente à declaração que dera no sábado, durante debate virtual promovido pela revista IstoÉ. Diz o texto:

"Ao tempo em que reafirmo o respeito às Forças Armadas brasileiras, conclamo que se faça uma interpretação cautelosa do momento atual. Vivemos um ponto de inflexão na nossa história republicana em que, além do espírito de solidariedade, devemos nos cercar de um juízo crítico sobre o papel atribuído às instituições de Estado no enfrentamento da maior crise sanitária e social do nosso tempo.

Em manifestação recente, destaquei que as Forças Armadas estão, ainda que involuntariamente, sendo chamadas a cumprir missão avessa ao seu importante papel enquanto instituição permanente de Estado.

Nenhum analista atento da situação atual do Brasil teria como deixar de se preocupar com o rumo das nossas políticas públicas de saúde. Estamos vivendo uma crise aguda no número de mortes pela COVID-19, que já somam mais de 72 mil. Em um contexto como esse, a substituição de técnicos por militares nos postos-chave do Ministério da Saúde deixa de ser um apelo à excepcionalidade e extrapola a missão institucional das Forças Armadas.

Reforço, mais uma vez, que não atingi a honra do Exército, da Marinha ou da Aeronáutica. Aliás, as duas últimas nem sequer foram por mim mencionadas. Apenas refutei e novamente refuto a decisão de se recrutarem militares para a formulação e execução de uma política de saúde que não tem se mostrado eficaz para evitar a morte de milhares de brasileiros."

RETOMO
Eis aí. Vamos ver se alguém de bom senso, militar ou não, é capaz de contestar o que vai na nota do ministro. Para lembrar: no debate, ele afirmou:
"Nós não podemos mais tolerar essa situação que se passa com o Ministério da Saúde. Pode ter tática, pode ter estratégia em relação a isso, mas é impossível! Não é aceitável que se tenha esse vazio no Ministério da Saúde. Pode-se até dizer: 'Ah, a estratégia é tirar o protagonismo do governo federal; é atribuir a responsabilidade a estados e municípios. Se for essa a intenção, é preciso fazer alguma coisa. Isso é ruim! É péssimo para a imagem das Forças Armadas! É preciso dizer isto de maneira muito clara: o Exército está se associando a este genocídio. Não é razoável! Não é razoável para o Brasil! É preciso dizer. É preciso pôr fim a isto".

E não podemos mesmo!

Em nota, o ministro da Defesa, Fernando Azevedo e Silva, e os três comandantes militares afirmaram:
"Comentários dessa natureza, completamente afastados dos fatos, causam indignação. Trata-se de uma acusação grave, além de infundada, irresponsável e sobretudo leviana. O ataque gratuito a instituições de Estado não fortalece a democracia"

Azevedo e Silva estaria disposto a entrar com uma representação junto à Procuradoria Geral da República. Não sei se o fará. Se nada há de mais urgente e importante, que perca seu tempo com isso. Fica evidente que Mendes não acusou o Exército de promover genocídio, mas de associar a sua imagem ao morticínio em curso, que chegará ao fim desta semana cruzando os 80 mil mortos.

Na fala do ministro, "genocídio" vem com as tintas hiperbólicas, para encarecer o número estupefaciente de mortos. Como já deixei claro aqui, a palavra não designa apenas a tentativa de extermínio de uma raça (veja outro post a respeito), mas qualquer ação deliberada que concorra para a destruição de populações. Em certos casos, aplica-se a palavra ainda que não haja morticínio em massa (mas há...). Basta que um grupo seja alvo permanente de agressões deliberadas.

A nota de Mendes vai ao centro da questão. Reafirma seu respeito às Forças Armadas como instituições de Estado, que é o que são. Elas próprias têm de se dar ao respeito e impedir que quadros seus sirvam a governos de turno, como é o caso da absurda e ineficaz atuação do general Eduardo Pazuello à frente da Saúde.

Como Mendes deixa claro, ele não atacou a honra das Forças Armadas. Na verdade, ele a defendeu. Mancha a reputação dos militares aqueles que se desbordam do papel que lhes reserva a Constituição, para submetê-las à indisciplina de um governo e de um governante que, até outro dia, fazia chacota de milhares de mortos.

Reitero o meu convite: espero que o Exército condecore o ministro Gilmar Mendes por ter tido a coragem de defender a honorabilidade das Forças Armadas, ainda que muitos uniformizados façam questão de manchá-la. De resto, convido os militares a terem mais cuidado com o sentido das palavras quando as escrevem e quando as leem.

Não sei se as Formas Armadas, o Exército em particular, conseguirão se livrar do desastre que lhes reserva a história. Que ajam imediatamente. Não deveriam perder tempo recorrendo à PGR, mas revendo seus próprios erros.

Reinaldo Azevedo