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Que os militares tenham tempo e clareza de se desculpar com os brasileiros

General Eduardo Pazuello: atuação à frente do Ministério da Saúde é uma evidência do homem errado no lugar errado e na hora errada Imagem: Gabriela Biló/Estadão Conteúdo
Reinaldo Azevedo

Colunista do UOL

16/07/2020 07h58

A primeira tentação é sacar um Shakespeare da algibeira, que nem existe mais (a algibeira), ou do clichê, risco permanente, e cravar: a crise envolvendo os militares e o ministro Gilmar Mendes é um exemplo evidente de muito barulho por nada. Afinal, qualquer pessoa medianamente alfabetizada ouviu na fala do ministro a voz de quem saiu em defesa do Exército. Ao apontar que a Força está se associado a um genocídio, atua em favor da sua reputação, não contra. Mas, ora vejam, os habituais pescadores em águas turvas, mais um clichê, correram para tentar fisgar alguns bagres de impostura.

Mendes conversou com o presidente Jair Bolsonaro. Deve ter deixado claro, ainda que sem entrar em detalhes para que o outro não perdesse o foco, o que é uma hipérbole. Apelou a uma palavra forte, imprimiu-lhe um exagero retórico para encarecer a fealdade do que está em curso. Afinal, devemos ultrapassar a marca dos 80 mil mortos até o fim desta semana. O limiar dos 100 mil se aproxima.

A política de Saúde é de tal sorte desastrada — e, para tanto, concorre também, justiça se faça, o próprio presidente da República —, e os resultados são de tal modo trágicos que, em fóruns internacionais, fala-se, sem receio de incidir em exagero, que autoridades brasileiras, a começar de Jair Bolsonaro, devem ser julgadas pelo Tribunal Penal Internacional. O que está em curso no Brasil se encaixa, sim, na definição que tem o TPI de "genocídio". E é claro que a denúncia lá chegará.

Não é apenas a pífia execução orçamentária até anteontem que conta — parece que, ontem, houve um pico de liberação de dinheiro... Por que será? Este é o último e agora único governo a investir na cloroquina como remédio a combater a Covid-19, sabidamente ineficaz e com efeitos colaterais graves, especialmente para alguns grupos de risco. Não só o Ministério da Saúde aceitou, sob o comando do general Eduardo Pazuello, assinar um protocolo de uso da droga como o Exército passou a produzir o remédio para ampla distribuição.

O governo federal, com dois milhões de contaminados, construiu ao longo do tempo um único hospital de campanha. O presidente da República apostou todas as fichas no fim do distanciamento social, o que é uma prática filo-homicida. E, infelizmente, contou, sim, com o apoio incondicional dos generais que compõem o núcleo duro do governo. Pazuello, sempre é bom notar, ainda é da ativa. Como era até outro dia o coordenador político do governo, general Luiz Eduardo Ramos.

Este, note-se, acompanhou a comitiva do presidente naquela marcha insana ao Supremo em favor da abertura da economia, que, como se nota, está abrindo — em alguns lugares, ela nem chegou a fechar. E isso se dá num momento ainda muito ruim. Mas governadores e prefeitos não tiveram mais como segurar as pressões. O Brasil é um exemplo no mundo de insucesso no combate ao coronavírus.

Não sei quanto Bolsonaro conseguiu reter do que lhe falou Gilmar Mendes sobre os riscos efetivos que corre o próprio Exército ao se associar a essa tragédia não como quem presta um socorro — e é certo que a Força também o faz nos rincões brasileiros —, mas como quem comanda a política de enfrentamento à doença. E, infelizmente, o insucesso está aos olhos de todos.

Bolsonaro estimulou o general Pazuello a telefonar para o ministro. O militar se dispôs a explicar que as coisas não seriam como diz Mendes. Nem se esperava que admitisse o tamanho da tragédia, não é mesmo? O fato é que a Saúde não precisa de justificativas, mas de uma política clara de combate à pandemia, o que não tem.

Informou ontem o Painel: "Representante da Secretaria de Gestão do Trabalho e Educação do Ministério da Saúde sofreu uma reprimenda, nesta terça-feira (14), do deputado Dr. Luizinho (PP-RJ), presidente da comissão externa de acompanhamento das ações contra o coronavírus. Gustavo Hoff não levou dados nem fez uma apresentação sobre os trabalhos do ministério."

Infelizmente, a reação dos senhores generais à crítica de Mendes é só uma confissão de incompetência em forma de truculência retórica, expressa na representação contra o magistrado apresentada por Fernando Azevedo e Silva, ministro da Defesa, à PGR. Não dará em nada. Mas se evidencia uma vez mais que aqueles que, na caserna, estão acostumados à obediência, não aceitam ser contestados mesmo quando o desastre está à vista de todos.

Compreende-se: foram treinados para a guerra, não para formular políticas de saúde. E estão acostumados a dar a última palavra. Ocorre que o Brasil não é um quartel, e os brasileiros não são recrutas de comandantes irados. Assim como políticos não vestem farda, os fardados não deveriam envergar a fantasia dos políticos. A política extrai virtudes da contradição. Para os fardados, ela é matéria de Tribunal Penal militar.

Que tenham tempo de se desculpar com os brasileiros.

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