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Homens dos "Ks": procurador "Robito" ataca Aras. Quem é ele mesmo? Lembro!

Deltan Dallagnol e Roberson Pozzobon, que atacou Aras. Dupla planejou faturar muitos "Ks" com notoriedade, enquanto país afundava -  Foto: Barbara Lima/TV Globo; montagem
Deltan Dallagnol e Roberson Pozzobon, que atacou Aras. Dupla planejou faturar muitos "Ks" com notoriedade, enquanto país afundava Imagem: Foto: Barbara Lima/TV Globo; montagem
Reinaldo Azevedo

Reinaldo Azevedo

Reinaldo Azevedo, que publicou aqui o primeiro post no dia 24 de junho de 2006, é colunista da Folha e âncora do programa “O É da Coisa”, na BandNews FM. No UOL, Reinaldo trata principalmente de política; envereda, quando necessário — e frequentemente é necessário —, pela economia e por temas que dizem respeito à cultura e aos costumes. É uma das páginas pessoais mais longevas do país: vai completar 13 anos no dia 24 de junho.

Colunista do UOL

29/07/2020 07h02

Até a noite desta terça, as forças-tarefa de Curitiba, São Paulo e Rio não haviam se manifestado sobre as considerações de Augusto Aras, procurador-geral da República.

O procurador Roberson Pozzobon -- vulgo "Robito" -- apelou a seu perfil no Twitter para escrever:
"A transparência faltou mesmo no processo de escolha do PGR pelo Pres. Bolsonaro.
O transparente processo de escolha a partir de lista tríplice, votada, precedida de apresentação de propostas e debates dos candidatos, que ficou de lado, fez e faz falta."

"Robito", o intrépido, só esqueceu de informar a seus seguidores que a lista tríplice votada por procuradores da República para que o presidente escolha um deles para comandar a PGR (e o MPU) é inconstitucional. Trata-se de uma invencionice instituída por Lula em seu primeiro mandato. O desastre promovido por Rodrigo Janot parece evidenciar que o critério está longe de ser infalível.

Mais: o procurador-geral da República é chefe do Ministério Público da União (MPU), que compreende, além do MPF, o Ministério Público do Trabalho, o Ministério Público Militar e o Ministério Público do Distrito Federal e Territórios. Mas, ora vejam, na dita "eleição direta", organizada pela Associação Nacional dos Procuradores da República (ANPR) — que é um sindicato —, só votam os... procuradores da República!

A eleição poderia ser apenas inconstitucional — e é. Mas ela consegue ser também discriminatória e antidemocrática.

Sim, a Lava Jato e suas ilegalidades precisam ter fim. E é claro que isso jamais aconteceria pelas mãos de um procurador-geral eleito por seus próprios pares. Peguem o caso de Raquel Dodge. Trata-se de uma pessoa correta, de comportamento impoluto. Ficou em segundo na lista e foi indicada por Michel Temer. Infelizmente, foi conivente com os desmandos da força-tarefa e jamais procurou coibir os excessos de seus pares.

O corporativismo sempre serve aos interesses da corporação, nunca à legalidade.

PODEM ESPERAR
Ah, podem esperar uma gritaria nesta quarta. E iniciei aqui a contagem regressiva para Sergio Moro, o pré-candidato da turma à Presidência, sair em defesa da Lava Jato. Será mesmo que Deltan Dallagnol vai se conter? Na segunda, lá estava o tuiteiro-geral da República a convocar manifestações de apoio à operação.

Mas voltemos a Pozzobon, o rapaz ágil em atacar o procurador-geral.

No dia 14 de julho de 2019, o site The Intercept Brasil e a Folha publicaram uma reportagem de Amanda Audi e Leandro Demori. E, ora, ora, há lá uma conversa em que Pozzobon e Dallagnol discutem um modo de fazer o seu trabalho render dinheiro. Não para os cofres públicos, mas para eles! A íntegra está aqui. Reproduzo um trecho em azul. Volto para encerrar.

(...)
A IDEIA DE CRIAR uma empresa de eventos para aproveitar a repercussão da Lava Jato foi manifestada por Dallagnol nos chats em dezembro passado. "Vamos organizar congressos e eventos e lucrar, ok? É um bom jeito de aproveitar nosso networking e visibilidade", afirmou em conversa com a esposa. No mesmo mês, o procurador e seu colega na força-tarefa da Lava Jato Roberson Pozzobon criaram um chat específico para discutir o tema, com a participação das mulheres de ambos.

"Antes de darmos passos para abrir empresa, teríamos que ter um plano de negócios e ter claras as expectativas em relação a cada um. Para ter plano de negócios, seria bom ver os últimos eventos e preço", afirmou Dallagnol no chat.

Pozzobon respondeu: "Temos que ver se o evento que vale mais a pena é: i) Mais gente, mais barato ii) Menos gente, mais caro. E um formato não exclui o outro".

Após a troca de várias mensagens sobre formatos do negócio, em 14 de fevereiro deste ano Dallagnol propôs que a empresa fosse aberta em nome das esposas, e que a organização dos eventos ficasse a cargo da firma Star Palestras e Eventos.

Dallagnol detalhou então como seria a organização formal da empresa. "Só vamos ter que separar as tratativas de coordenação pedagógica do curso que podem ser minhas e do Robito e as tratativas gerenciais que precisam ser de Vcs duas, por questão legal".

Em seguida, o procurador alertou para a possibilidade de a estratégia levantar suspeitas. "É bem possível que um dia ela seja ouvida sobre isso pra nos pegarem por gerenciarmos empresa".

Roberson então comentou, em tom jocoso: "Se chegarem nesse grau de verificação é pq o negócio ficou lucrativo mesmo rsrsrs. Que veeeenham".

No dia seguinte, Dallagnol levou para o grupo a sugestão de também estabelecer uma parceria com uma empresa de eventos e formaturas de um tio dele.

"Eles podem oferecer comissão pra aluno da comissão de formatura pelo número de vendas de ingressos que ele fizer. Isso alavancaria total o negócio. E nós faríamos contatos com os palestrantes pra convidar. Eles cuidariam de preparação e promoção, nós do conteúdo pedagógico e dividiríamos os lucros", afirmou Dallagnol.

No último dia 3 de março, Dallagnol postou no chat detalhes sobre um evento organizado por uma entidade que se apresentava como um instituto. Ele comentou que esse formato jurídico também poderia servir para evitar questionamentos jurídicos e a repercussão negativa quanto à atividade deles.

"Deu o nome de instituto, que dá uma ideia de conhecimento? não me surpreenderia se não tiver fins lucrativos e pagar seu administrador via valor da palestra. Se fizéssemos algo sem fins lucrativos e pagássemos valores altos de palestras pra nós, escaparíamos das críticas, mas teria que ver o quanto perderíamos em termos monetários".
(...)

VOLTO
Posso imaginar o que não faria a força-tarefa de Curitiba ao flagrar a conversa de dois homens públicos a discutir como as suas tarefas de estado poderiam render uma dinheirama para suas respectivas contas bancárias em razão de atividades paralelas.

Mais: sem inovar muito, a empresa ficaria em nome das respectivas mulheres, é claro! Para não chamar a atenção.

Nessa reportagem, há um outro trecho eloquente. Transcrevo:

Em dezenas de conversas analisadas pela Folha e pelo Intercept, Dallagnol mostrou grande interesse quanto ao valor de cada palestra. Em um dos chats, Dallagnol somou os lucros da atividade apurados em setembro de 2018. "As palestras e aulas já tabeladas neste ano estão dando líquido 232k. Ótimo? 23 aulas/palestras. Dá uma média de 10k limpo", afirmou.

No mês seguinte, o procurador manifestou a expectativa para o fechamento de 2018. "Se tudo der certo nas palestras, vai entrar ainda uns 100k limpos até o fim do ano. Total líquido das palestras e livros daria uns 400k. Total de 40 aulas/palestras. Média de 10k limpo", disse o procurador. Em 2016, Dallagnol havia faturado R$ 219 mil com as palestras.

ENCERRO
Como se nota, é preciso mais do que pôr fim a um estado policial. É necessário recuperar o padrão moral e ético de membros do Ministério Público Federal.

Dallagnol e Pozzobon dizem não reconhecer como autênticos tais diálogos. Eles sabem muito bem que não há fraude nenhuma.

O que se depreende do conjunto da obra? Temos uma força-tarefa que manipula uma espécie de estado paralelo. Em sua sanha, quebrou empresas e destruiu empregos — tudo sob o pretexto de combater a corrupção.

O Brasil ficou ainda mais pobre. Mas os procuradores ficaram mais ricos.

E com o apoio incondicional de alguns trouxas que empobreceram junto com o país.

Ah, sim: cada "k" corresponde a R$ 1 mil.

Reinaldo Azevedo