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Ministro da Justiça persegue "antifa" porque é "profa" -- pró-fascistoides?

André Mendonça, ministro da Justiça: os antifascistas estão de acordo com a Constituição brasileira. Fora da lei estão os que os combatem - AGU/Ascom/Divulgação
André Mendonça, ministro da Justiça: os antifascistas estão de acordo com a Constituição brasileira. Fora da lei estão os que os combatem Imagem: AGU/Ascom/Divulgação
Reinaldo Azevedo

Reinaldo Azevedo

Reinaldo Azevedo, que publicou aqui o primeiro post no dia 24 de junho de 2006, é colunista da Folha e âncora do programa “O É da Coisa”, na BandNews FM. No UOL, Reinaldo trata principalmente de política; envereda, quando necessário — e frequentemente é necessário —, pela economia e por temas que dizem respeito à cultura e aos costumes. É uma das páginas pessoais mais longevas do país: vai completar 13 anos no dia 24 de junho.

Colunista do UOL

31/07/2020 06h44Atualizada em 31/07/2020 12h52

Atenção! Para a gestão de Jair Bolsonaro, um antifascista é uma pessoa suspeita. Já o fascistoide que prega o fechamento do Congresso e do Supremo deve ser visto como uma patriota. E isso nos obriga a concluir ser este um governo de fascistoides para fascistoides. E, como tal, estamos falando de criminosos que, então, resolveram pôr o Estado a serviço do crime.

O repórter Rubens Valente, do UOL, revelou que a Seopi (Secretaria de Operações Integradas) resolveu monitorar as atividades de 579 servidores que se identificariam com ações e movimentos antifascistas. A cara de pau de André Mendonça, ministro da Justiça, é tal que a pasta não se vexou em publicar uma nota defendendo o procedimento.

Atenção, meus caros! Nas democracias, dada a existência de um crime, estabelece-se a investigação para definir e punir seus autores. Nas ditaduras, primeiro se escolhem os autores para só então tentar definir os crimes que lhes possam ser imputados. Entenderam? As democracias querem punir criminosos. As ditaduras querem punir adversários.

E é precisamente isso que está em curso hoje no Ministério da Justiça. Segundo o Uol, a Seopi produziu, na primeira quinzena de junho, um relatório intitulado "Ações de Grupos Antifa e Policiais Antifascismo". Ele traz reportagem, nomes, fotografias e endereços nas redes sociais de signatários dos manifestos "Policiais antifascismo em defesa da democracia popular" e "Manifesto de policiais pela legalidade democrática" — este é de 2016.

Em sua nota ridícula, o Ministério da Justiça tenta, sem sucesso, engabelar os bobos. Diz:
"As atividades de inteligência desenvolvidas se baseiam nos princípios da legalidade, do sigilo e da segregação das informações. Assim, elas se destinam exclusivamente às autoridades públicas que efetivamente necessitem prevenir situação de risco para a segurança pública conforme cada caso".

Nada disso! A Abin (Agência Brasileira de Inteligência) existe, entre outras coisas, para detectar eventuais ações que coloquem em risco a segurança interna. Ainda assim, não consta que defina uma lista prévia de pessoas a serem monitoradas. Nem pode.

Informa o Ministério Público Federal:
"O MPF oficiou a Secretaria de Operações Integradas (Seopi), concedendo um prazo de dez dias para que sejam fornecidas, entre outras, informações sobre o fato noticiado, a base legal, a indicação do objeto do relatório de inteligência e motivação de sua instauração, fato originador do relatório de inteligência, informação sobre a sua difusão, indicando órgãos, autoridades e pessoas que tiveram acesso ao relatório de inteligência, bem como sobre a decretação de sigilo do referido relatório".

André Mendonça está se transformando, com impressionante celeridade, numa das pessoas mais ridículas deste governo. No dia 13 de junho, extremistas de direita atacaram o Supremo com fogos de artifício. No dia seguinte, o ministro divulgou uma nota em que não censurava a violência e ainda igualava agressores e agredidos. Escreveu:

"1º. A democracia pressupõe, acima de tudo, que todo poder emana do povo. Por isso, todas as instituições devem respeitá-lo. Devemos respeitar a vontade das urnas e o voto popular. Devemos agir por este povo, compreendê-lo e ver sua crítica e manifestação com humildade. Na democracia, a voz popular é soberana.

2º. A democracia pressupõe o respeito às suas instituições democráticas. Qualquer ação relacionada à Presidência da República, ao Congresso Nacional, ao STF ou qualquer instituição de Estado deve pautar-se por esse respeito.

3º. Portanto, todos devemos fazer uma autocrítica. Não há espaço para vaidades. O momento é de união. O Brasil e seu povo devem estar em 1º lugar".

É asqueroso. E, antes de mais nada, é pouco original.

Quem, no mundo, deu o primeiro grito contra os "antifa", ameaçando acusá-los de terrorismo? Ora, Donald Trump, aquele que Jair Bolsonaro tem como seu exemplo e seu guia. Até para perseguir pessoas, essa gente se comporta como o rascunho da cópia.

Mendonça é pré-candidato a uma vaga no Supremo. Se for mesmo indicado por Bolsonaro, caberá ao Senado ter a vergonha na cara de reprovar o seu nome. Seu lugar é a lata de lixo desse governo deplorável, não o STF.

A votação é secreta, mas nada impende o senador de declarar o seu voto.

E que se note: ser antifascista, segundo os valores consagrados pela Constituição brasileira, nem é uma escolha; trata-se de um dever. Os 11 artigos iniciais da Carta valem por um verdadeiro manifesto antifascista. Dados os direitos lá consagrados — especialmente no Artigo 5º, com seus 78 incisos e quatro parágrafos —, quem tem de ser investigado por desvio fascistoide é o sr. Mendonça, que, adicionalmente, comete crime de improbidade administrativa.

Ele não gosta dos "antifa" porque, tudo indica, é um "profa" — um pró-fascistoides.

Reinaldo Azevedo