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Reinaldo Azevedo

Bolsonaro expressa vontade de sempre: encher de porrada boca da democracia

Jair Bolsonaro entre ambulantes em frente á Catedral de Brasília: porradas na democracia - Pedro Ladeira/Folhapress
Jair Bolsonaro entre ambulantes em frente á Catedral de Brasília: porradas na democracia Imagem: Pedro Ladeira/Folhapress
Reinaldo Azevedo

Reinaldo Azevedo

Reinaldo Azevedo, que publicou aqui o primeiro post no dia 24 de junho de 2006, é colunista da Folha e âncora do programa “O É da Coisa”, na BandNews FM. No UOL, Reinaldo trata principalmente de política; envereda, quando necessário — e frequentemente é necessário —, pela economia e por temas que dizem respeito à cultura e aos costumes. É uma das páginas pessoais mais longevas do país: vai completar 13 anos no dia 24 de junho.

Colunista do UOL

24/08/2020 06h52Atualizada em 24/08/2020 14h51

"Tenho vontade de encher a tua boca com uma porrada, ?"

Eis aí. Assim o presidente Jair Bolsonaro respondeu a uma pergunta legítima, correta e necessária, feita por um jornalista de O Globo, que queria saber como ele explicava os depósitos feitos na conta da agora primeira-dama, Michelle Bolsonaro, por Fabrício Queiroz e sua mulher, Márcia Aguiar. Consta que a indagação foi sobre R$ 89 mil.

Só para lembrar: segundo apuração da Folha, são, na verdade, R$ 93 mil. Queiroz depositou na conta de Michelle 12 cheques de R$ 3 mil de outubro de 2011 a abril de 2013 e 10 cheques de R$ 4 mil de abril a dezembro de 2016, totalizando R$ 76 mil. Márcia, por sua vez, repassou, de Janeiro a junho de 2011, cinco cheques de R$ 3 mil e um cheque de R$ 2 mil, totalizando 17 mil.

O presidente havia parado para fazer uma visita a ambulantes da Catedral de Brasília. Inicialmente, ele tentou responder fazendo uma pergunta retórica sobre as supostas operações com dólares feitas pela família Marinho, dona do grupo Globo, por intermédio do doleiro Dario Messer.

Para lembrar. Segundo apurou a revista "Veja", Messer afirma, em sua delação, acertada com a Lava Jato do Rio, que, durante a década de 90, emissários seus entregaram a membros da família Marinho, dona das Organizações Globo, quantias que variavam entre US$ 50 mil e US$ 300 mil. Os destinatários seriam João Roberto Marinho e Roberto Irineu Marinho. Segundo seu depoimento, as remessas eram entregues duas ou três vezes por mês na sede da TV Globo. Em nota oficial, a família nega as acusações e alega que o doleiro não apresentou provas. Voltemos.

O repórter insistiu na pergunta. E foi então que Bolsonaro voltou aos velhos costumes. O episódio fez com que jornalistas dos mais diversos veículos fossem ao Twitter para repetir a mesma pergunta. Associações ligadas à defesa da liberdade de imprensa, dos direitos humanos e do estado democrático e de direito emitiram notas de protesto.

Fazia tempo que Bolsonaro não oferecia, para lembrar uma personagem da revolução francesa durante bate-boca com um desafeto, um copo de sangue a seus canibais. Eles deveriam estar com muita sede, já em síndrome de abstinência.

Por que uma resposta como essa? Bem, em primeiro lugar, porque ele não pode falar a verdade, certo? Vai dizer o quê? A única versão que esboçou já foi desmoralizada pelos fatos. Teria feito um empréstimo de R$ 40 mil a Queiroz — entendeu-se que em dinheiro vivo —, e o ex-faz-tudo de Flávio Bolsonaro estaria devolvendo o dinheiro, depositando parte na conta da mulher do presidente.

A versão vale não uma nota de R$ 200, que o governo vai criar, mas uma outra, falsa, de R$ 3. Os valores, como vemos, vão bem além daquilo que o presidente teria emprestado.

A fala ameaçadora e violenta expõe apenas o Bolsonaro de sempre. Ou alguém acha que ele se converteu à democracia do dia para a noite? Enquanto imaginou que um autogolpe era possível, era esse o padrão. Quando percebeu que não haveria aventura militar e que a situação de Queiroz se complicava, com o impeachment surgindo no horizonte, viu-se um Bolsonaro light.

Como efeito do auxílio emergencial e de sua postura mais cordata, sua popularidade cresceu. De resto, embora longe de uma relação pacificada e profissional, o presidente tem hoje mais interlocutores no Congresso do que jamais teve. É bem possível que Bolsonaro considere que mal nenhum mais pode atingi-lo e que ele pode voltar a tratar a imprensa aos chutes e a se comportar como um depredador de instituições.

Não há nenhum motivo razoável para acreditar que ele tenha mudado de visão e perspectiva da noite para o dia. Sabe que o assunto é delicado e que ele e a família não têm como explicar o que, afinal, não tem explicação no mundo das leis. Só a franquia da loja de chocolates Kopenhagen, de que Flávio Bolsonaro é dono, recebeu 1.512 depósitos em dinheiro coincidentes com o tempo em que Queiroz atuava no gabinete do então deputado estadual, recebendo parte do salário dos funcionários, o que ele próprio admite.

Sabem o que vai fazer aumentar ou diminuir a vontade que tem Bolsonaro de encher a boca da democracia de porrada? O tamanho da impunidade. Quanto mais perto dela estiver a família, maiores serão as agressões à institucionalidade.

Não podendo abrir a boca para falar a verdade, o presidente quer encher de porrada a boca alheia, que lhe faz perguntas verdadeiras.

Errata: o texto foi atualizado
O nome da esposa de Fabrício Queiroz é Márcia Aguiar. A informação foi corrigida

Reinaldo Azevedo