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Reinaldo Azevedo

Se "Mito" cravar "direita xucra", peço royalties. E a mentira da guerrilha

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Reinaldo Azevedo

Reinaldo Azevedo, que publicou aqui o primeiro post no dia 24 de junho de 2006, é colunista da Folha e âncora do programa "O É da Coisa", na BandNews FM. No UOL, Reinaldo trata principalmente de política; envereda, quando necessário - e frequentemente é necessário -, pela economia e por temas que dizem respeito à cultura e aos costumes. É uma das páginas pessoais mais longevas do país: vai completar 13 anos no dia 24 de junho.

Colunista do UOL

09/10/2020 06h58

Na live desta quinta-feira, o presidente Jair Bolsonaro comentou a indicação do desembargador Kassio Marques para o Supremo. E decidiu passar uma descompostura em parte considerável de seus aliados nas redes. Meteu-lhes na testa o selo "direita burra". Tão logo empregue a expressão "direita xucra" — eu prefiro a grafia "chucra" —, vou pedir direitos autorais. É a expressão a que tenho recorrido desde 13 de fevereiro de 2017 para designar muitos daqueles que se tornaram militantes do lavajatismo-bolsonarismo. Depois eles se dividiram. Ah, claro! Ele empregou "petralhas". Fazer o quê?

Antes que volte ao ponto, uma observação. Marques tem sido acusado de inflar o seu currículo. Pode ser. Bolsonaro não teria por que se agastar com isso. Se Kassio infla méritos acadêmicos, Bolsonaro voltou a contar na live uma mentira descarada sobre a sua própria biografia. Afirmou ter participado da luta armada no Vale do Ribeira. Não participou.

A rigor, não houve guerrilha nenhuma no Vale do Ribeira. Carlos Lamarca tentou criar um núcleo para a luta armada na região em 1970 — uma escola de guerrilha. Não entro em minudências agora, mas deu tudo errado, e ele teve de fugir. Houve, a rigor, dois confrontos. Mas os enfrentamentos tiveram mais características de perseguição policial e fuga do que de luta guerrilheira.

E por que Jair Bolsonaro conta uma cascata ao dizer que enfrentou a guerrilha armada? Porque ele tinha acabado de fazer 15 anos à época. Aliás, deslocou-se para a região um formidável aparato para tentar prender meia-dúzia de gatos pingados: além de 2.500 homens do Exército, houve um contingente da Polícia Militar de São Paulo.

Digam-me aqui: por que apelar a um fedelho?

Apesar da mentira óbvia, o presidente insiste nessa história sem pé nem cabeça. É uma forma de refazer a sua biografia de mau soldado, que foi espirrado do Exército. Ali, sim, ele até pensou em ações armadas, mas contra seus colegas de farda, não contra a extrema esquerda. O nome técnico que se dá a esse tipo de ação é "terrorismo".

Como forma de protesto contra o soldo pago a soldados e oficiais de baixa patente, Bolsonaro e um colega chegaram a planejar a plantação de algumas bombas em quartéis e a explosão da adutora de Guandu, no Rio. A coisa nunca saiu do papel. Para saber mais a respeito, clique aqui.

DE VOLTA À DIREITA BURRA
Tentando explicar a seus radicais por que escolheu Kassio, afirmou:
"Eu tenho de compor. O nome ideal para ir pra lá é o meu. (...) Quem bota dentro do Supremo não sou eu. É o Senado Federal. Olha, se o Moro não tivesse tido problema conosco, não tivesse pedido demissão, hoje o pessoal estaria fazendo uma onda terrível, né? Moro no Supremo ou não tem voto em 22."

Com riso irônico, Bolsonaro emendou: "Não vai ter Moro no Supremo. Se não vai ter voto em 22, aí é problema teu. Eu não sei se vou ser candidato, tem muita coisa para acontecer, seu estiver bem... A chance de ser candidato à reeleição existe. Se eu estiver mal, eu tou fora. Se o pessoal continuar batendo como bate aí..."

E prosseguiu:
"Quem não conhece o Kassio aí... Ah, ele é abortista! Mas baseado no quê, ô cara pálida? (...) Quer dar porrada em mim? Dá, mas dá por um motivo justo".

Mandando um recado à extrema direita que está descontente com suas escolhas, lembrou o caso de Maurício Macri na Argentina. Segundo Bolsonaro, o ex-presidente daquele país foi desestabilizado pela direita, e isso teria facilitado a volta de Kristina Kirchner ao poder, vice de Alberto Fernandez.

E aí, então, foi duro com os de sua turma. Ele identificou os críticos:
"Não é infiltrado da esquerda, como o pessoal diz aqui nas mídias sociais, não. Não é petista. É gente da direita mesmo, essa direita burra. É moleque fedelho, cheirando ainda a fralda, tem fralda ainda, que, quando eu participei da luta armada no Vale do Ribeira, do lado do Exército brasileiro, o pai de vocês nem tinha nascido ainda. E o pessoal agora se vê no direito de criticar com baixaria".

Que a direita seja burra, eis uma coisa inequívoca.

A verdade, meus caros, e isto deve interessar mais à esquerda e ao centro do que à direita, é que o auxílio emergencial levou Bolsonaro a descobrir um novo eleitorado. Ainda que alimente aqui e ali seus radicais, sabe que não consegue governar com eles, muito menos se reeleger.

Então, do seu jeito mandão e abusado, meteu na testa de parte do seus seguidores a justa pecha de "burros". Burros que são, voltarão a gritar: "Mito, mito, mito..."

Como se diz nas redes, não são os burros. É o gado.