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RAP DO ANDRÉ 2: Moro, Zambelli e Janaína vocalizam alarido da direita burra

Sergio Moro, Carla Zambelli (à esq.) e Janaína Paschoal (à dir.): é difícil saber qual oportunismo é mais sórdido. Na dúvida, todos! - Adriana Spaca/FramePhoto/Agência O Globo; Edison Rodrigues/Agência Senado
Sergio Moro, Carla Zambelli (à esq.) e Janaína Paschoal (à dir.): é difícil saber qual oportunismo é mais sórdido. Na dúvida, todos! Imagem: Adriana Spaca/FramePhoto/Agência O Globo; Edison Rodrigues/Agência Senado
Reinaldo Azevedo

Reinaldo Azevedo, que publicou aqui o primeiro post no dia 24 de junho de 2006, é colunista da Folha e âncora do programa "O É da Coisa", na BandNews FM. No UOL, Reinaldo trata principalmente de política; envereda, quando necessário - e frequentemente é necessário -, pela economia e por temas que dizem respeito à cultura e aos costumes. É uma das páginas pessoais mais longevas do país: vai completar 13 anos no dia 24 de junho.

Colunista do UOL

12/10/2020 07h22

Ora, Sergio Moro, um dos maiores destruidores de institucionalidade da história do país — sob o pretexto de caçar corruptos, claro! — não poderia faltar ao debate. E justamente para falar bobagem. Mas não uma bobagem aleatória. O alvo é Jair Bolsonaro, que se tornou seu adversário desde que foi chutado do governo. Até aí, poderia ser apenas um bafafá entre iguais que estão rompidos. Eles, que são de extrema direita, que se entendam. Mas é claro que a questão é mais ampla.

Moro se manifestou sobre a soltura de André do Rap. Afirmou:
"O artigo que foi invocado para soltura da liderança do PCC não estava no texto original do projeto de lei anticrime, e eu, como ministro da Justiça e Segurança Pública, me opus à sua inserção por temer solturas automáticas de presos perigosos por mero decurso de tempo".

Ah, não estava mesmo! O artigo é bom demais para ser obra sua, não é? Ele seria incapaz de pensar um instrumento na área penal que concorresse para a democracia e a civilidade.

Ora, não haveria "soltura automática" nenhuma se o Ministério Público tivesse cumprido a sua obrigação e solicitado a renovação da preventiva. Mas, claro!, o agora advogado Moro não dirá uma palavra contra seus parceiros de trajetória na depredação da institucionalidade brasileira e da ordem legal.

O ex-juiz sabe que um dos segredos da Lava Jato eram as prisões preventivas que se estendiam indefinidamente, valendo como verdadeiras prisões perpétuas. Até, claro!, que um acordo com o MPF, nos termos em que este decidia que deveria ser feito, com todos os alvos definidos, levasse o juiz — no caso, o próprio Moro — a determinar a soltura.

Sua fala, para não variar, é indecente. Ataca uma boa lei, que pode beneficiar milhares de pobres desgraçados, porque está numa rinha com o presidente da República. Desocupação é a morada do capeta, e Moro ainda não sabe se advoga — alguém precisa querer e pagar por isso... —, se deixa o país ou se continua no seu esforço para se sentar na cadeira de Bolsonaro.

O ex-juiz fez uma aposta errada — e cantei a bola aqui. Muitos se perguntavam: "O que vai acontecer com Bolsonaro se Moro deixar o governo?" E aqui afirmei mais de uma vez: "Nada!" Eis aí... O demiurgo está desempregado e em busca de um discurso. E aquele a quem julgava que poderia destruir está com uma popularidade maior do que tinha — não em razão de sua saída, é certo, mas esta foi irrelevante.

De fato, essa boa lei não estava no pacote anticrime de Moro. O de sua autoria trazia algo, aí sim, verdadeiramente perverso: a excludente de ilicitude, que abriria as portas para que forças de segurança matassem pretos e pobres em penca, mais do que já se faz hoje em dia.

MAIS OPORTUNISTAS
E os oportunismos vão se multiplicando. A deputada Carla Zabelli (PSL-SP), que andava quietinha desde que Bolsonaro resolveu manter uma distância sanitária segura da extrema direita burra, veio a público no Twitter:
"Sobre a decisão de um ministro do STF de soltar o chefão do PCC, faremos um projeto de lei para RETIRAR do Código de Processo Penal a obrigação do juiz de reavaliar a prisão preventiva a cada 90 dias".

Observem: a afilhada de casamento de Moro acha que o problema está na lei, não no Ministério Público que cochilou e não faz o que deveria fazer — ainda que, por óbvio, Marco Aurélio pudesse contornar a questão.

Ah, não deu outra. Oportunismo com oportunismo se paga nas bandas da extrema direita.

Então a deputada estadual Janaina Paschoal (PSL-SP) mandou brasa:
"Deputada, foi o Presidente Bolsonaro, seu ídolo, que sancionou essa pérola! Esqueceu? A população apoia a luta contra o crime, mas ELE NÃO!"

Sim, uma pérola, de fato, da garantia de direitos dos pobres e dos desgraçados, senhora Janaína, que é professora de direito penal e advogava até outro dia. Santo Deus!

É que também Janaína busca um lugar na bagunça em que se transformou a extrema direita no Brasil depois que Bolsonaro optou pela governabilidade.

Curioso! Nos tempos em que o presidente andava por aí a fazer discursos golpistas, Janaína, que chegou a pensar em ser a sua vice, não o atacou tão duramente. Quando colou no então presidenciável para se fazer a deputada estadual mais votada da história, seu discurso lhe parecia "ok". E olhem que ele já havia dito coisas do arco da velha. Nada que pudesse demover Janaína do apoio entusiasmado ao mito.

Ou por outra: Moro, Zambelli e Janaína repudiam em Bolsonaro uma das poucas coisas decentes que fez no governo: endossar, em essência, o correto pacote anticrime da Câmara.

A responsabilidade dos deputados e de Bolsonaro pela soltura e fuga de André do Rap é zero. Se o Ministério Público tivesse cumprido a sua tarefa, ele estaria na cadeia.

O que distingue a nossa direita burra das outras direitas burras do mundo? Ela consegue ser ainda mais burra.