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Reinaldo Azevedo

Daniela, de Sta. Catarina, erra de novo. Até embaixador se distrai; eu não!

Daniela Cristina, governadora de Santa Catarina, e Yossi Shelley, embaixador de Israel no Brasil. Ela erra de novo. Ele fica satisfeito. Eu não. - Ricardo Wolffenbüttel/Secom SC/Divulgação/CSC; Jarbas Araújo
Daniela Cristina, governadora de Santa Catarina, e Yossi Shelley, embaixador de Israel no Brasil. Ela erra de novo. Ele fica satisfeito. Eu não. Imagem: Ricardo Wolffenbüttel/Secom SC/Divulgação/CSC; Jarbas Araújo
Reinaldo Azevedo

Reinaldo Azevedo, que publicou aqui o primeiro post no dia 24 de junho de 2006, é colunista da Folha e âncora do programa "O É da Coisa", na BandNews FM. No UOL, Reinaldo trata principalmente de política; envereda, quando necessário - e frequentemente é necessário -, pela economia e por temas que dizem respeito à cultura e aos costumes. É uma das páginas pessoais mais longevas do país: vai completar 13 anos no dia 24 de junho.

Colunista do UOL

30/10/2020 07h53

A governadora interina de Santa Catarina, Daniela Cristina Reinehr, precisa se entender melhor com as palavras. Espero, claro!, que acabem triunfando a Justiça e o Estado de direito e que o titular, Carlos Moisés, volte ao cargo. Os processos de exceção têm de ter fim no país. Mas vamos ao ponto.

Já vimos que Daniela Cristina, no dia de sua estranha posse interina — em que discursou como eterna — , se negou a fazer uma condenação explícita ao nazismo e aos negacionistas do Holocausto Judeu. A pergunta foi feita por um repórter do site The Intercept Brasil, Fábio Bispo.

Afinal, ela havia se referido à família em seu dispensável discurso à frente do interinado, e seu pai, Altair Reinehr, é um conhecido revisionista da história em favor do nazismo.

Escrevi a respeito. Entidades judaicas se manifestaram. Pressionada, a governadora houve por bem emitir a seguinte nota:

"Antes de mais nada é preciso declarar que sou contrária ao nazismo, assim como sou contrária a qualquer regime, sistema, conduta ou posicionamento que vá contra os direitos individuais, garantias de segurança ou contra a vida das pessoas, e sinceramente, pensei ter deixado isso claro quando fui questionada durante entrevista coletiva concedida na terça-feira (27/10), independente das palavras usadas.

Consigo entender a reação das pessoas ante o posicionamento que me imputaram, e principalmente porque isso aconteceu de forma injusta, a partir de uma atitude antiética, que apresentou um vídeo editado, com uma pergunta alterada.

Sou amiga de Israel e dos judeus, e qualquer ilação contrária não corresponde com a verdade."

CALMA LÁ!
Bem, sou forçado a dizer que antética é a nota da interina que discursou como usurpadora. Eis o vídeo com a pergunta e com a resposta, sem qualquer interferência. Na sequência, transcrevo uma vez o conteúdo de ambas.


TRANSCRIÇÃO
TIB:- No começo de sua fala, a senhora agradeceu à sua família. E o seu pai, como professor de história, pregava em sala de aula o negacionismo do Holocausto Judeu, inclusive utilizando livros de uma editora que foi condenada por contar mentiras sobre a Segunda Guerra Mundial. E, agora que a senhora é governadora de Santa Catarina, a gente quer saber: qual é a sua posição? A senhora corrobora essas ideias neonazistas, negacionistas do Holocausto?

DANIELA CRISTINA: Eu espero, daqui para a frente, e em toda a história, ser julgada pelos meus atos, pelas minhas convicções e pela postura que eu sempre tive em tudo o que eu fiz. Eu realmente não posso responder, ser julgada ou condenada por aquilo que esse ou aquele pense (sic). Eu respeito as pessoas, independente do seu pensamento, eu respeito os direitos individuais e as liberdades. E qualquer regime que vá contra o que eu acredito, contra esses elementos que eu disse, eu repudio. Existe uma relação e uma convicção que move a mim, e eu acredito que a todos os senhores, que chama 'família'. E me cabe como filha manter a relação familiar em harmonia, independente das diferenças de pensamento, indiferente das defesas (sic). Eu sou uma pessoa que, como vocês, tem problemas, que tem diferenças no seu meio familiar, que sofre, que chora, que sorri, que vibra, mas que procura dar o seu melhor para cumprir a missão que me foi conferida pelo voto dos catarinenses. Eu realmente espero que eu seja julgada novamente, que os atos sejam apartados, como foi na Comissão Mista. Eu não quero ser arrastada por atos de terceiros, por convicções de terceiros. As minhas convicções estão muito claras nas redes sociais há muito tempo. Aliás, tem muito pouco de mim, do meu particular, mas tem muito do meu pensamento, do meu ativismo, e eu realmente peço que sejam apartados os atos e que eu seja julgada e avaliada pelo que eu faço, não por atos de terceiros.

Como se vê, Daniela Cristina precisa prestar mais atenção às palavras: quando discursa, quando responde a questões delicadas e quando decide fazer acusações.

EMBAIXADOR
O embaixador de Israel no Brasil, Yossi Shelley -- um entusiasta de Bolsonaro, como Daniela Cristina -- escreveu uma carta aberta à governadora em que se diz satisfeito com a resposta de agora. Lá está escrito:

"Estou satisfeito com sua resposta, mas espero que sua retratação mediante a pressão justa da comunidade judaica seja, daqui para a frente, mantida como um compromisso com a verdade histórica".

"Negar o holocausto é um desrespeito não só ao povo judeu, mas a todas as demais vítimas deste regime. O silêncio nunca será um conforto para as vítimas e tampouco condenação para os nazistas".

Bem, estou menos satisfeito do que ele por dois motivos.

Em primeiro lugar, em razão da mentira contada: não houve edição nenhuma que tenha distorcido a fala da governadora.

Em segundo lugar, em razão de um rigor que faltou ao embaixador, mas que aprendi com muitos sábios judeus que vieram antes dele.

É preciso tomar cuidado quando alguém se diz contrário "ao nazismo e a qualquer regime que... etc" Há uma sutil operação mental aí, que talvez escape ao embaixador, que transforma o nazismo em um exemplo, entre muitos, de regimes ditatoriais.

É preciso que o nazismo não perca a sua particularidade. Não se tratava apenas de uma tirania. Era uma tirania que matava judeus por serem judeus, ciganos por serem ciganos, homossexuais por serem homossexuais...

Tentou-se eliminar um povo por esse povo ser quem é.

Obviamente não me atrevo a ensinar um judeu a ser judeu. Mas posso, sim, ensinar um pouco de história a quem dela anda carente.

Espero que a ela discurse pouco. Afinal, aquele lugar é de Moisés.