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Reinaldo Azevedo

A escravidão, marca nacional, ainda mata. Como aconteceu no Carrefour

O abolicionista Joaquim Nabuco escreveu em Minha Formação: "A escravidão permanecerá por muito tempo como a característica nacional do Brasil"  - reprodução
O abolicionista Joaquim Nabuco escreveu em Minha Formação: "A escravidão permanecerá por muito tempo como a característica nacional do Brasil" Imagem: reprodução
Reinaldo Azevedo

Reinaldo Azevedo, que publicou aqui o primeiro post no dia 24 de junho de 2006, é colunista da Folha e âncora do programa "O É da Coisa", na BandNews FM. No UOL, Reinaldo trata principalmente de política; envereda, quando necessário - e frequentemente é necessário -, pela economia e por temas que dizem respeito à cultura e aos costumes. É uma das páginas pessoais mais longevas do país: vai completar 13 anos no dia 24 de junho.

Colunista do UOL

20/11/2020 17h24

A selvageria a que se assistiu numa loja do Carrefour em Porto Alegre, com o assassinato de João Alberto Silveira Freitas, evidencia o óbvio: o racismo estrutural no Brasil — vale dizer: que está nas entranhas da nossa formação, como herança da escravidão — nada tem ou teve de cordial. Ainda que a cordialidade racista não honrasse a sociedade brasileira, ela seria uma forma de tentar minimizar o vício com os instrumentos da hipocrisia.

Mas nem hipócritas temos sido como sociedade. Olhem para as vítimas de homicídio. Olhem para as cadeias. Olhem para as moradias precárias. A maioria ali tem a pele preta. A maioria ali é herdeira da escravidão. E aí é preciso lembrar do Joaquim Nabuco de "Minha Formação":

"A escravidão permanecerá por muito tempo como a característica nacional do Brasil. Ela espalhou por nossas vastas solidões uma grande suavidade; seu contato foi a primeira forma que recebeu a natureza virgem do país, e foi a que ele guardou; ela povoou-o como se fosse uma religião natural e viva, com os seus mitos, suas legendas, seus encantamentos; insuflou-lhe sua alma infantil, suas tristezas sem pesar, suas lágrimas sem amargor, seu silêncio sem concentração, suas alegrias sem causa, sua felicidade sem dia seguinte... É ela o suspiro indefinível que exalam ao luar as nossas noites do Norte. Quanto a mim, absorvi-a no leite preto que me amamentou; ela envolveu-me como uma carícia muda toda a minha infância; aspirei-a da dedicação de velhos servidores que me reputavam o herdeiro presuntivo do pequeno domínio de que faziam parte... Entre mim e eles deve ter-se dado uma troca contínua de simpatia, de que resultou a terna e reconhecida admiração que vim mais tarde a sentir pelo seu papel. Este pareceu-me, por contraste com o instinto mercenário da nossa época, sobrenatural à força de naturalidade humana, e no dia em que a escravidão foi abolida, senti distintamente que um dos mais absolutos desinteresses de que o coração humano se tenha mostrado capaz não encontraria mais as condições que o tornaram possível."

O abolicionista Nabuco, filho das elites, escreveu essas palavras em 1900, no último ano do século 19. Dedicou sua vida à causa da abolição e reconhecia que "o leite preto que o amamentou" era expressão da vontade e uns e da sujeição de outros.

Cento e vinte anos depois, Celso Russomanno, um candidato à Prefeitura de São Paulo, houve por bem evidenciar que não era racista. E o fez lembrando que tivera uma ama de leite negra. A violência adocicada e terna que tentaram emprestar à escravidão no Brasil ainda está nos discursos deste ou daquele, como nessa vivência supostamente pacífica entre quem manda e quem obedece um acordo de vontades.

Não é.

O racismo brasileiro pode ser cordial no ambiente doméstico, na convivência social, nas exigências da etiqueta, como se fosse uma forma de elegância. Mas ele é cruel, sangrento, bruto nas periferias das grandes cidades, nas cadeias, da repressão policial.

Sim, o Brasil pode tratar um branco pobre como preto, mas ainda não aprendeu a tratar pretos, pobres ou ricos, como brancos. E quando aparentemente o faz, há sempre uma certa esfera de condescendência exigente. Explico. Se o negro é bem-sucedido, se consegue escapar, em razão de algum talento excepcional, do que é uma sina para a vasta maioria que tem aquela cor de pele, então esse negro excepcional pode ser exibido nos salões do poder como a falsa evidência de que, afinal, não há racismo no Brasil.

O ato de selvageria em Porto Alegre acontece no momento em que, à frente da Fundação Palmares, está um negro que se orgulha de não se confundir com os grupos organizados que militam em favor da igualdade racial. Ele enxerga essa luta segundo o prisma da ideologia: estariam todos a serviço do comunismo internacional. Ele acaba de destituir da galeria de distinções da Fundação um grupo de negros que, segundo o seu ponto de vista, não honram a pele preta.

Afinal, não são pessoas que, como ele, entendem que a escravidão no Brasil, dado o que se passa hoje em alguns países da África, também teria seu lado positivo. Sérgio Camargo, esse é o nome dele, não quer que brancos se sintam desconfortáveis quando um negro é brutalmente assassinado por seguranças, mesmo depois de rendido.

Quanto ao Carrefour, dizer o quê? O assunto está agora com o Congresso. É preciso que uma lei defina que empresas que estão abertas à visitação pública respondem civil e criminalmente pelo bem-estar daqueles que as frequentam. A terceirização da segurança não pode se transformar na terceirização do homicídio.