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Reinaldo Azevedo

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

Ousado: Deltan tinha seu próprio projeto para nomear ministros para o STF

Deltan Dallagnol: ele ambicionou também definir os critérios para indicar ministros para o Supremo - Geraldo Bubniak/AGB/Agência O Globo
Deltan Dallagnol: ele ambicionou também definir os critérios para indicar ministros para o Supremo Imagem: Geraldo Bubniak/AGB/Agência O Globo
Reinaldo Azevedo

Reinaldo Azevedo, que publicou aqui o primeiro post no dia 24 de junho de 2006, é colunista da Folha e âncora do programa "O É da Coisa", na BandNews FM. No UOL, Reinaldo trata principalmente de política; envereda, quando necessário - e frequentemente é necessário -, pela economia e por temas que dizem respeito à cultura e aos costumes. É uma das páginas pessoais mais longevas do país: vai completar 13 anos no dia 24 de junho.

Colunista do UOL

22/02/2021 16h59

O procurador Deltan Dallagnol sempre foi um rapaz de grandes ambições. É, ainda, né? Vamos ver como estará o quadro eleitoral no Paraná... Tenho para mim que o convertido ao lavajatismo Álvaro Dias (Podemos) deve começar a pensar o que fazer da vida. Sua vaga no Senado corre risco. Pois é... "Cría cuervos y te sacarán los ojos". Mas voltemos ao ponto.

Reportagem publicada pelo UOL com dados da Operação Spoofing evidencia que o rapazola resolveu, como direi?, se mobilizar para influenciar nos critérios de nomeação de ministros do Supremo. E com quem o valente debate tal assunto em fevereiro de 2018? Com o advogado Caio Farah Rodriguez, que, em 2016, atuou no acordo de leniência da Odebrecht.

O acordo de leniência da Odebrecht e o de delação a Odebrecht estão no centro da arquitetura criada pela Lava Jato para levar Lula à prisão. Aliás, só conhecemos os descalabros do arquivo da Operação Spoofing porque a defesa do ex-presidente pediu acesso a ela, e o ministro Ricardo Lewandowski suspendeu o sigilo.

Afirmou o então coordenador da Força Tarefa da Lava Jato em Curitiba:
"É uma proposta que cria um colegiado (de presidentes de tribunais, PGR [Procuradoria Geral da República] e defensor público...) para formar uma lista tríplice".

Ele queria mais:
"Pensamos em iniciativa popular para substituir decisão do presidente do Senado de dar abertura ao impeachment".

Ele previa ainda que o Senado fizesse uma consulta ao CNJ para tratar de impeachment de ministro do STF. Afirmou:
"E, caso discorde do CNJ, ser obrigado a abrir votação plenária no Senado para dar ou não início ao impeachment."

Como resta evidente, o plano era desestabilizar o Supremo Tribunal Federal, tornando a Corte constitucional alvo permanente de pressão, caminho certo para a desestabilização da democracia.

Dallagnol, como sabemos, diz não reconhecer os diálogos. O advogado Rodriguez segue o mesmo caminho, mas destaca que conversas sobre o assunto são posteriores ao acordo de leniência da Odebrecht.

Diz o doutor ainda hoje:
"Recordo-me especificamente de ter lembrado, no diálogo que tive com ele, algumas propostas, às quais ainda subscrevo, no sentido de que um projeto de aprimoramento institucional na forma de nomeação de ministros do STF deveria incluir ampla participação de setores da sociedade, lista de nomes pré-selecionados para discussão pública e algum tipo de restrição, a exemplo de uma 'quarentena' estendida, para a nomeação ao STF de ex-ocupantes de altos cargos políticos".

Não reconhece, mas parece que a conversa aconteceu.

Participação de "amplos setores" para indicar ministros do STF fica com cara, assim, de fazer um BBB institucional para escolher ministros do STF, né?

Rodriguez acha uma boa ideia.

Eu acho que submeteria a institucionalidade às vagas de opinião da hora.

A depender do caminho, um Daniel Silveira poderia chegar lá, né, armado com um gato morto para dar surra nos outros ministros.

QUAL O CRIME?
Aí perguntam os tolinhos: qual é o crime? Pois é... É essa função de procurador? Especialmente quando trata do assunto com o advogado que atuou na leniência da empresa que está no centro do chamado "petrolão"? Quando se sabe que esse mesmo procurador aparece em diálogos que sugerem investigação ilegal de ministros de cortes superiores, bem..., aí tudo fica muito pior.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL