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Reinaldo Azevedo

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

Bolsonaro e empresários: pouca mudança a custo brutal. Guedes e teto ficam

Paulo Guedes e Tarcísio de Freitas conversam com a imprensa depois de jantar de Jair Bolsonaro e alguns de seus ministros com empresários - Paulo Guereta/Photo Premium/Agência O Globo
Paulo Guedes e Tarcísio de Freitas conversam com a imprensa depois de jantar de Jair Bolsonaro e alguns de seus ministros com empresários Imagem: Paulo Guereta/Photo Premium/Agência O Globo
Reinaldo Azevedo

Reinaldo Azevedo, que publicou aqui o primeiro post no dia 24 de junho de 2006, é colunista da Folha e âncora do programa "O É da Coisa", na BandNews FM. No UOL, Reinaldo trata principalmente de política; envereda, quando necessário - e frequentemente é necessário -, pela economia e por temas que dizem respeito à cultura e aos costumes. É uma das páginas pessoais mais longevas do país: vai completar 13 anos no dia 24 de junho.

Colunista do UOL

08/04/2021 08h13

O presidente Jair Bolsonaro começou o dia dizendo barbaridades e mentiras sobre a covid-19 em Chapecó, em Santa Catarina, e terminou a noite sendo aplaudido — em dois momentos — por empresários em São Paulo. Jantou na casa de Washington Cinel, dono da empresa de segurança Gocil. Chegou com sua tropa de elite. Estavam com ele os ministros Paulo Guedes (Economia), Tarcísio de Freitas (Infraestrutura), Marcelo Queiroga (Saúde), Carlos Alberto Franco França (Itamaraty), general Augusto Heleno (Gabinete da Segurança Institucional) e Fábio Faria (Comunicações) — que organizou o encontro. Também acompanhava a comitiva o presidente do Banco Central — o independente —, Roberto Campos Neto.

Na lista de convidados, entre outros, estavam Rubens Ometto (Cosan), Rubens Menin (MRV e CNN), André Esteves (BTG), Candido Pinheiro (Hapvida), Luiz Carlos Trabuco (Bradesco), Carlos Sanchez (EMS), Alberto Saraiva (Habib's), Flavio Rocha (Guararapes), João Camargo (grupo Alpha de comunicação), Alberto Leite (F5 Securities), Claudio Lottenberg (Hospital Albert Einstein), Ricardo Faria (Granja Faria), Tutinha Carvalho (Jovem Pan), José Isaac Peres (Multiplan) e José Roberto Maciel (SBT).

escrevi aqui o que penso sobre esses encontros. Não há nada de errado com eles. Deveria marcar, em seguida, um com sindicalistas, outro com representantes da sociedade civil. O país teria a ganhar se o presidente saísse da bolha. A questão é saber se o Bolsonaro de Chapecó, que disse enormidades, estava em São Paulo. Em parte, sim. Mas ele também fez um discurso adequado à plateia e se nota que tenta romper o isolamento.

A um dos presentes não escapou que todos os empresários chegaram com máscaras. Um jantar assim, nestes tempos, comporta riscos. Outro notou que Queiroga a tirou apenas para comer, voltando a colocá-la em seguida. E, claro, foi alvo da ironia do presidente. Mas e os aplausos?

Eles vieram quando Bolsonaro — apelando, como de hábito, a metáforas amorosas — assegurou que sua união com Paulo Guedes é para valer, é indissolúvel enquanto durar o governo. "União estável", ele disse. E foi saudado novamente quando afirmou que o teto de gastos será mantido. Bem, ele vai ter de acertar as questões de Orçamento com o Congresso. A coisa está enrolada.

Ah, sim: o presidente criticou a imprensa. Bem, isso é de rigor. E fez uma piada, que poucos riram — e por delicadeza. Afirmou que a imprensa fala tudo sobre ele, menos que seja boiola. É, de fato, isso ninguém disse. O que se aponta com frequência é sua obsessão com o tema. Aí já é para psicanalistas, não para jornalistas.

Pelos empresários, falaram José Isaac Peres, André Esteves, Rubens Ometo, Flávio Rocha e Luiz Carlos Trabucco. O decoro pede que não se façam críticas contundentes em grupo tão amplo. Fica difícil, por sua vez, fazer elogios. Então o que se pediu é que os erros do passado sejam abandonados e que se pense no futuro, investindo em vacinação e nas reformas.

O LOCKDOWN
No seu discurso, o presidente atacou duramente o lockdown -- ninguém me relatou que tenha falado de cloroquina e outras feitiçarias --, insistindo na tese de que isso tem potencial desestabilizador. Ocorre que inexiste lockdown no país, e aí se encontra o nó górdio da fala presidencial. Se, para plateia tão seleta, não tentou vender drogas inúteis, deixou claro que não há hipótese de condescender com as medidas de restrição.

Sim, atacou em termos não muito próprios a um ambiente elevado o governador de São Paulo, João Doria. E isso numa reunião em que o ministro da Saúde lembrou que o Brasil é dos poucos países que estão fabricando vacinas. É verdade. Nada menos de oitenta por centro das aplicadas por aqui têm a marca "CoronaVac" — e se devem, pois, à iniciativa daquele que ele elegeu, por enquanto, como o seu desafeto número um.

AVANÇOU UM TANTINHO, MAS...
Causou boa impressão nos convivas o novo ministro das Relações Exteriores, Carlos Alberto Franco França. Três dos presentes o consideraram articulado e com a agenda certa. Vamos ver.

Um encontro como esse, convenham, não seria possível com Eduardo Pazuello na Saúde e Ernesto Araújo no Itamaraty. Nesse caso em particular, os empresários correriam um sério risco de ser vítimas de assédio ideológico. Vai que ele os convidasse para se ajoelhar no altar da igreja de Donald Trump, né? Ou, então, que os visse como um perigoso agente do globalismo.

O país tem futuro se Bolsonaro não atrapalhar muito. A União arrecadou, em meio a esse caos, R$ 3,3 bilhões no leilão dos aeroportos, acima das expectativas do mercado, razão por que o ministro Tarcísio recebeu vários cumprimentos.

Sim, Bolsonaro se deslocou um tantinho do lugar insano em que estava. Mas a que custo! Os aplausos são reveladores: quando disse que Guedes fica. E nós já temos Guedes. Afinal, ele está aí. Quando afirmou que o teto de gastos será mantido. Também este existe na lei. Não se aplaudiu a notícia de um avanço, mas uma continuidade cujo rompimento todos os presentes consideravam temerária.

Vamos ver quais surpresas Bolsonaro reserva ao país nesta quinta. Especialmente se ninguém obedecer a sua convocação — não pedido, pois, vista no julgamento do Supremo. Se e quando o mérito for votado, o governo, a AGU e a PGR serão derrotados. E os governadores manterão o direito de, se necessário, impedir a abertura de templos.

O que dirá o presidente? Continuará, por palavras oblíquas, a incentivar a população a se rebelar nos Estados? Proporá uma guerra santa contra o Supremo, a exemplo do que sugeriu André Mendonça, advogado-geral da União e um de seus homens de confiança?

Bolsonaro não é o mesmo de quando estava com Pazuello e Araújo. Mas, por enquanto, é igual. E esse pequeno deslocamento só se deu depois de mais de 300 mil mortos. É pouca mudança diante de um custo tão brutal.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL