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Reinaldo Azevedo

Chilique odiento de Bolsonaro em Guaratinguetá e um trecho de "Mein Kampf"

Jair Bolsonaro manda repórter calar a boca - reprodução G1
Jair Bolsonaro manda repórter calar a boca Imagem: reprodução G1
Reinaldo Azevedo

Reinaldo Azevedo, que publicou aqui o primeiro post no dia 24 de junho de 2006, é colunista da Folha e âncora do programa "O É da Coisa", na BandNews FM. No UOL, Reinaldo trata principalmente de política; envereda, quando necessário - e frequentemente é necessário -, pela economia e por temas que dizem respeito à cultura e aos costumes. É uma das páginas pessoais mais longevas do país: vai completar 13 anos no dia 24 de junho.

Colunista do UOL

21/06/2021 17h23

Vocês já sabem que não faz sentido, por dispensável, afirmar aqui que Jair Bolsonaro não reúne condições intelectuais, morais e éticas para ser presidente da República. Essa evidência vai se espalhando. O mundo, como ficou claro neste fim de semana, já o sabe de sobejo e trata o mandatário brasileiro como uma caricatura tétrica. Sobre seus ombros, como é consenso no planeta, já pesam mais de 500 mil mortos. Sim, e fato, teríamos consequências trágicas da pandemia, como se vê em quase todo o mundo. Mas não nessa proporção.

O chilique que teve com uma repórter da TV Vanguarda, em Guaratinguetá, mandando-a calar a boca, aos berros, porque indagado sobre o não uso de máscara, prova também descontrole emocional. Quem não consegue se controlar, desse modo, em público deixa entrever como trata os subordinados e os íntimos no ambiente privado.

Assistam ao vídeo que segue abaixo. Ele manda também que gente sua se cale; o ruído das vozes o perturba. Se há alguém falando ao mesmo tempo, ele não consegue articular as duas ou três ideias esquálidas que tem. Dos 381 mil verbetes que constam do VOLP (Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa), é provável que Bolsonaro domine aí por volta de 700, 800 palavras. A julgar pelo uso que faz da "Inculta" — jamais chega a ser bela no seu caso —, boa parte deve ser constituída de palavrões e de vocábulos destinados à desqualificação do outro. De qual outro? De qualquer um que discorde de suas duas ou três ideias... esquálidas.

Essa explosão contra a repórter Laurene Santos — que se comportou exemplarmente, fazendo muito bem em lhe franquear o microfone para ser quem é; minha solidariedade a ela, claro! — é reação típica dos incompetentes flagrados fazendo porcaria. Quantas vezes já não assistimos a coisa parecida? Quer ensandecer um inábil, um inútil, um inepto? Faça uma pergunta, ainda que a título de ajuda, que evidencie sua inabilidade, sua inutilidade e sua inépcia.

A súcia que o apoia vai, claro!, saudá-lo. Eduardo Bolsonaro, seu filho, já está nas redes puxando o coro da difamação: Bolsonaro teria posto a Globo no seu devido lugar. Quem acredita nisso? Outros incompetentes e impotentes diante da vida, a exemplo de Bolsonaro. Já conversei com bolsonaristas fanáticos e já li aqui e ali suas manifestações nas redes sociais.

Com raras exceções — e as exceções costumam ser os espertalhões que obtêm vantagens nesse governo —, estamos falando de pessoas que se consideram sacaneados "pelo sistema"; que não se acham valorizadas o suficiente nesta sociedade, que só privilegiaria minorias; que se enxergam como muito mais inteligentes e capazes do que o mundo é capaz de perceber; que têm agora a chance de obter alguma visibilidade na bolha de autossatisfação proporcionada pelo "Mito"; que, finalmente, veem no poder alguém à sua altura — e, nesse particular, convenham, elas têm mesmo razão.

Leiam o livro "A Mente de Adolf Hitler", de Walter C. Langer, um perfil psicológico feito do tirano enquanto ainda estava no poder. Era uma máquina de recalques alimentada a ódio. E descobriu que isso poderia render. Leiam "M, O Filho do Século", de Antonio Scarati, que narra a ascensão de Mussolini. Pode-se inferir que era menos doente e mais malandro, mas sabia como transformar a frustração alheia em apoio político.

Por que Bolsonaro faz isso? Bem, não que ele tenha lido o livro -- nem o que vou citar nem outro qualquer --, mas ele intui o que julga ser uma sabedoria:
"A psique das massas não reage a nada que seja fraco ou seja pela metade. Tal como uma mulher, cuja sensibilidade espiritual é determinada menos pela razão abstrata do que por um desejo emocional indefinível de conquistar poder -- e que, por essa razão, prefere se submeter ao homem forte, e não ao fraco --, a massa também prefere quem dá ordens, e não quem implora".

É Hitler em "Mein Kampf". Como se pode ler, o desprezo ao povo se junta à misoginia. E o "Führer", claro!, se oferecia como o mandatário daqueles que via como minoridades mentais".

O faniquito em Guaratinguetá tem história. E é perigoso, sim.

Por isso, esse cara tem de ser contido.