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Reinaldo Azevedo

Se eleito, Lula verá novo país arcaico. Ou: O "Mito" do Planalto à Papuda!

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Reinaldo Azevedo

Reinaldo Azevedo, que publicou aqui o primeiro post no dia 24 de junho de 2006, é colunista da Folha e âncora do programa "O É da Coisa", na BandNews FM. No UOL, Reinaldo trata principalmente de política; envereda, quando necessário - e frequentemente é necessário -, pela economia e por temas que dizem respeito à cultura e aos costumes. É uma das páginas pessoais mais longevas do país: vai completar 13 anos no dia 24 de junho.

Colunista do UOL

21/12/2021 07h10

A primeira obrigação de um analista é chamar as coisas pelo nome que elas têm sem pagar o mico de fazer previsões porque, afinal, não dispõe de bola de cristal. Assim, seria uma estultice temerária afirmar: "Prevejo que Lula vai se eleger presidente no pleito de outubro de 2022". Mas é uma imposição da objetividade escrever com todas as letras: "Não havendo um evento excepcional, fora do encadeamento normal dos fatos, Lula é o franco favorito e deve se tornar presidente". Se eleito, vai governar um país que, em parte, desconhece. E isso vale para qualquer um dos pré-candidatos. Esse é o objeto deste texto. Mas faço algumas considerações antes de voltar a ele.

Alguém poderia objetar: "Ah, Reinaldo, sempre há acontecimentos extraordinários!" Não é verdade. Entre 1994 e 2014, o resultado das urnas foi uma obviedade decorrente da ordem dos fatos. A exceção ocorreu justamente na disputa de 2018. O meio ambiente institucional já havia sido crestado pela Lava Jato. E o ventre rasgado por uma faca, na terra devastada, deu à luz o ogro, que faz o que faz. Entenderam? O excepcional se manifestou num determinado contexto. E o monstro insiste em perpetrar monstruosidades.

A mais recente iniciativa consiste em avançar contra a vacinação das crianças. Na distopia em curso, não basta a montanha de quase 620 mil cadáveres. É preciso também apostar numa forma de infanticídio. Ou a extrema direita não se revela por inteiro. Ocorre que essa gente não vai desaparecer. Continuará por aí a infernizar o país e a envenenar as instituições. E isso vai requerer especial atenção do futuro presidente da República, do Parlamento e do Judiciário. Retomo, assim, o ponto.

DE VOLTA AO OBJETO
O jantar havido no domingo, na churrascaria Figueira Ruabaiyat, em São Paulo, teve no ex-presidente Lula a sua principal estrela. Parte importante do, digamos, "PIB político" estava lá. O econômico, tudo mais ou menos constante, acabará sendo atraído, como sempre acontece. Parte considerável do "empresariado bolsonarista" já foi "empresariado lulista", ainda que, vá lá, naqueles tempos, tivesse de engolir a seco seus odiosos preconceitos para conviver com um ex-operário.

Na alma profunda, muitos deles sempre apreciaram as boçalidades que hoje ouvem de Bolsonaro sobre meio ambiente, armas, benefícios sociais, mulheres, negros, índios, crianças... É uma gente que tem horror à perspectiva reformista, jamais revolucionária, de Lula. No dia em que alguma entidade internacional resolver fazer o ranking das melhores elites econômicas da Terra, é certo que a nossa estará protagonizando o seu vexame no fim da lista. Enquanto o Estado brasileiro tiver o tamanho que tem — e aqui vai a minha divergência essencial com o PT —, essas frações dos endinheirados ficarão grudadas ao poder de turno como craca. Porque dependem desse Estado agigantado para seus negócios e... para concentrar renda. Mas também isso fica para outra hora. Volto ao leito mais uma vez.

VOZ DA BESTA
Bolsonaro é a própria voz da besta que, de modo surdo, mas permanente, sussurra atraso, violência, reacionarismo, estupidez, preconceito. Evidentemente, esse coro do absurdo não constitui a maioria do país. Na verdade, é minoria. Não fosse o ódio à política que Sergio Moro manipulou com denodo, determinação e método -- tendo, infelizmente, a esmagadora maioria da imprensa como aliada --, esses delinquentes que agora vemos no poder não estariam aí, a escandalizar o bom senso com seu festival de asneiras, ignorâncias, mistificações e ideias torpes e homicidas. A voz daquele deputadozinho de propostas delinquentes deveria ter permanecido à margem do establishment político. As instituições jamais poderiam ter caído nas suas garras.

Mas caíram. Além do fenômeno nativo da Lava Jato, há o novo tempo da política, das notícias, da cultura, da moral, da ética, dos costumes. E esse novo tempo é hoje plasmado pelas redes sociais. Elas se transformaram na ágora do mal. Em vez da sonhada democratização e da pluralidade de vozes, assistimos à organização de verdadeiras milícias de opinião, que se estruturam para normalizar a mentira, o engodo, o preconceito, a discriminação. Não é só a voz do idiota que se horizontalizou com a de Schopenhauer. Algo mais aconteceu. Desfez-se a ideia de representação. A invasão do Capitólio, nos EUA, fala por si mesma. E notem que o principal responsável por um grave atentado à democracia resta impune, fazendo política. Refiro-me, claro!, a Donald Trump.

Não tenho ideia que possa ser sintetizada sobre as consequências calamitosas de uma eventual reeleição de Bolsonaro. Quando vejo empresários, alguns graúdos, a flertar com essa possibilidade, eu me dou conta do buraco em que nos metermos. Não creio que vá acontecer. A sua derrota, no entanto, em se confirmando, não enterra a distopia que ele vocaliza nem põe fim à vandalização do debate de que ele é, a um só tempo, consequência e causa. Ele nasce da desordem e a alimenta.

NOVO PAÍS ARCAICO
Se eleito, Lula encontrará um Brasil que não conheceu no tempo em que governou, entre 2003 e 2010. E o novo Brasil arcaico. As redes sociais já estavam aí. Os embates eram duros, sim -- e também o PT sabia responder. Por mais que os confrontos pudessem ser acerbos, muitas vezes pouco elegantes, inexistia uma máquina organizada para espalhar o ódio, a desinformação, a agressão a valores elementares da ciência, o estímulo à violência, o incentivo ao preconceito.

Num dado momento, eventualmente estimulado por interlocutores errados, Lula chegou a falar, depois de seu renascimento como candidato, sobre a tal regulamentação da mídia, franqueando a Bolsonaro o discurso hipócrita de "defensor da liberdade de imprensa". Uma ova! Jornalismo bom, para o atual ocupante do Planalto, é aquele que leva um mata-leão. O petista não voltou ao tema. E não serei eu aqui a dizer: "Não regulamenta nada!" Só quero saber de que regulamento se está a falar.

Seja qual for, é bom que se tenha claro que são muito raras — embora também existam — as agressões às instituições que partem da imprensa profissional. Há, eu sei, delinquentes salientes na área. E todos sabemos onde estão. Mas não há regulação que dê conta de impedir essas adesões. Isso sempre vai depender dos embates travados na política e na sociedade civil.

RUMO À PAPUDA
O país tem de enfrentar -- e isso inclui os três Poderes da República -- a máquina organizada para espalhar mentira, ódio e preconceito, estimulando a agressão a pilares da sociedade democrática, que se acoita nas redes sociais. Mais de uma vez, quando presidente, Lula criticou meios de comunicação que considerava hostis a seu governo. Não vou entrar em minudências. De toda sorte, se voltar ao Palácio do Planalto, é bom que o petista de prepare para o tal novo Brasil arcaico.

Existe hoje um país em que milhares, talvez milhões, ainda que constituam a minoria, preferem dançar com o risco de morte a tomar vacina. Pior: criminosos, sob o pretexto de exercitar a liberdade de expressão, espalham mentiras sobre imunizantes, inventando malefícios sem apontar comprovação ou evidência técnica. Lembro-me do tempo em que se dizia: "Cinco famílias mandam na imprensa brasileira". Pois é... Essas "famílias" perderam importância. Não raro — há exceções —, estão empenhadas em desfazer boatos. As milicias digitais sem rosto têm hoje o poder de desestabilizar governos, de intimidar a Justiça, de ameaçar Parlamentos, de impedir a correta aplicação de políticas públicas que salvam vidas.

É evidente que Bolsonaro é hoje, entre os políticos, o principal beneficiário dessa máquina criminosa. Ele conseguiu levar milhares às ruas para protestar contra o suposto risco das urnas eletrônicas, numa pregação escancaradamente golpista. Quem quer que venha a governar o país — hoje, tudo aponta para Lula — terá de se preparar para esse enfrentamento. E terá de manter um diálogo lúcido com o Congresso e com o Judiciário para que os delinquentes, que se escondem sob o manto da liberdade de expressão, paguem por seus crimes, inclusive o de pandemia — Artigo 267 do Código Penal. Afinal, mentir sobre imunizantes e atacar os métodos comprovadamente eficazes de reduzir o contágio é sinônimo de espalhar a doença.

O presidente que temos fez e faz isso. E essa é apenas uma das razões por que deve sair do Palácio do Planalto para residir na Papuda.