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Democracia como valor universal: lula com chuchu é iguaria na era do ódio

Lula no ato petista de oficialização de seu nome como pré-candidato à Presidência. O ex-presidente está ladeado por Rosângela, sua namorada, e Gleisi Hoffmann (de vermelho). Ao lado da presidente do PT, Carlos Siqueira, que preside o PSB, partido a que se filiou Geraldo Alckmin (no destaque), que falou à distância porque está com Covid-19. Respectivos discursos de candidatos a titular e vice estão afinadíssimos - Ricardo Stuckert; Reprodução
Lula no ato petista de oficialização de seu nome como pré-candidato à Presidência. O ex-presidente está ladeado por Rosângela, sua namorada, e Gleisi Hoffmann (de vermelho). Ao lado da presidente do PT, Carlos Siqueira, que preside o PSB, partido a que se filiou Geraldo Alckmin (no destaque), que falou à distância porque está com Covid-19. Respectivos discursos de candidatos a titular e vice estão afinadíssimos Imagem: Ricardo Stuckert; Reprodução
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Reinaldo Azevedo

Reinaldo Azevedo, que publicou aqui o primeiro post no dia 24 de junho de 2006, é colunista da Folha e âncora do programa "O É da Coisa", na BandNews FM. No UOL, Reinaldo trata principalmente de política; envereda, quando necessário - e frequentemente é necessário -, pela economia e por temas que dizem respeito à cultura e aos costumes. É uma das páginas pessoais mais longevas do país: vai completar 13 anos no dia 24 de junho.

Colunista do UOL

09/05/2022 04h30

O petista Luiz Inácio Lula da Silva, agora pré-candidato oficial do PT à Presidência da República, fez o seu melhor discurso político desde que ficou claro que seria o nome do partido a disputar as eleições e, dado o momento por que passa o país, um dos melhores de sua carreira. Antecedeu-o aquele que será vice na sua chapa: Geraldo Alckmin, agora no PSB, com uma fala igualmente vigorosa. No sábado, o prato sugerido por Alckmin — lula com chuchu — virou uma iguaria em tempos enfezados. Nota: essa palavra não deriva de "fezes", ao contrário do que se diz por aí. Mas convenham: às vezes, há sabedoria, digamos, contextual na falsa etimologia.

Tanto Lula como Alckmin evidenciaram qual é a principal tarefa desses dias de ódio e delírio reacionário, o que — e não foi por falta de advertência — os postulantes à tal "terceira via" preferiram ignorar, num erro histórico. Não me parece que haja tempo para correção de rumos. Os que andaram pelos desvios, no entanto, ainda terão a oportunidade de fazer escolhas morais pelo que pode se afigurar, segundo seu ponto de vista, o mal menor. Mas isso é lá com eles. E qual é a tarefa? Preservar a democracia. Ela é a condição primária de todas as outras postulações.

Nesse sentido, a frase do sábado que é um emblema político da natureza da aliança saiu da boca de Alckmin, com clareza solar:
"Há momentos em que, antes de uma aliança determinar a sua missão, é a própria missão que determina a sua aliança".

É a missão de preservar a democracia, e ambos se estenderam longamente a respeito, que determina a aliança entre dois políticos que fizeram carreira em campos ideológicos bastante distintos, confrontando-se diretamente na disputa presidencial de 2006. E trocaram, sim, palavras duras, como costuma acontecer em embates dessa natureza. Mas cabe a pergunta, leitores: o regime democrático, por acaso, corria riscos? Restava no ar a hipótese insana de rompimento da ordem, a depender do resultado? Ora, ninguém ousou tocar nesse assunto nem em 2002, quando a primeira vitória de Lula começou a se desenhar no horizonte. Jair Bolsonaro levou a desordem aos três Poderes da República e aos quarteis. E isso tem de parar.

Na sua vez de falar, Lula desdobrou o achado de Alckmin -- segundo o petista, um não conhecia o discurso do outro, e me contam que isso é mesmo verdade. Afirmou o pré-candidato do PT:
"Sim, queremos unir os democratas de todas as origens e matizes, das mais variadas trajetórias políticas, de todas as classes sociais e de todos os credos religiosos, para enfrentar e vencer a ameaça totalitária, o ódio, a violência, a discriminação, a exclusão, que pesam sobre o nosso país."

Não são os adversários de Bolsonaro que, na ânsia de vencê-lo, criam uma falsa polarização entre democracia ou ditadura; respeito às urnas ou golpe; estimulo à paz ou incitamento à violência; subordinação à ordem legal ou tentações disruptivas; respeito a políticas ambientais vitais para a economia ou ataque pistoleiro ao meio ambiente e às reservas indígenas... Essa polarização, a verdadeira, é anunciada pelo próprio presidente e por seus acólitos, que não se intimidam de ir às ruas pregar golpe de estado, seguindo orientações e apelos de seu líder.

"CHAMADO À RAZÃO"
Vencer o desastre bolsonarista, Alckmin deixou claro, está na raiz de sua composição com Lula, que ele nominou de "um verdadeiro chamado à razão". Afirmou, referindo-se ao atual governo e àquele que considera o remédio adequado:
"Por isso, quando a ignorância se une à mentira como estratégia política para demonizar eleições livres e aviltar a democracia, nós não devemos vacilar: o caminho é com Lula. Quando brasileiros são relegados à própria sorte em meio às mazelas de uma pandemia letal, não devemos aceitar: vamos responder com Lula. Quando as injustiças sociais grassam por omissão do governo, e a pobreza, a miséria, a fome assumem dimensões vergonhosas e intoleráveis, não podemos hesitar: a solução virá com Lula."

Lula, por sua vez, afirmou, com igual sentido:
"É para conduzir o Brasil de volta para o futuro, nos trilhos da soberania, do desenvolvimento, da justiça e da inclusão social, da democracia e do respeito ao meio ambiente, que nós todos aqui precisamos assumir o compromisso de voltarmos a governar este país. O grave momento que o país atravessa, um dos mais graves da nossa história, nos obriga a superar eventuais divergências para construirmos juntos uma via alternativa à incompetência e ao autoritarismo que nos governam. Nunca me esqueço das palavras do saudoso Paulo Freire, o maior educador brasileiro de todos os tempos, uma das principais referências da pedagogia mundial, cujo centenário de nascimento comemoramos justamente em 2022. Dizia o nosso querido Paulo Freire: "É preciso unir os divergentes para melhor enfrentar os antagônicos."

É evidente que eu concordo com a tese de que a preservação da democracia e a "retecitura" da institucionalidade, ora esgarçada, são as principais tarefas do futuro governo. E, pois, antes da disputa propriamente, devem definir as escolhas, as candidaturas, as alianças. Na própria imprensa — sempre me refiro à respeitável, não ao lixão fascistoide que tenta se fingir de jornalismo —, há quem não tenha se dado conta do risco que corremos e das ameaças em curso.

AH, ENTÃO NADA DIVIDE?
"Ah, Reinaldo, então nada divide? Se eleito, Lula inaugura, ao menos em território brasileiro, a paz universal kantiana?" Que besteira! É claro que ele tem um entendimento da economia e do papel do Estado que não coincide, por exemplo, com postulados de corte marcadamente liberal, por exemplo. A propósito: Paulo Guedes é o plantonista do liberalismo na atual gestão. O que acham?

Lula afirmou, por exemplo:
"Defender nossa soberania é defender a Petrobras, que vem sendo desmantelada e sucateada dia após dia. Colocaram à venda as reservas do pré-sal, entregaram a BR Distribuidora e os gasodutos, interromperam a construção de algumas refinarias e privatizaram outras. O resultado desse desmonte é que somos autossuficientes em petróleo, mas pagamos por uma das gasolinas mais caras do mundo, cotada em dólar, enquanto os brasileiros recebem os seus salários em real. O óleo diesel também não para de subir, sacrificando os caminhoneiros e fazendo disparar os preços dos alimentos. O botijão de gás já chegou a custar R$ 150, comprometendo o orçamento doméstico da maioria das famílias brasileiras. Nós precisamos fazer com que a Petrobras volte a ser uma grande empresa nacional, e se transformar outra vez em uma das maiores do mundo. Colocá-la de novo a serviço do povo brasileiro e não dos grandes acionistas estrangeiros. Fazer outra vez do pré-sal o nosso passaporte para o futuro, financiando a saúde, a educação e a ciência."

É difícil acreditar que uma empresa que tem lucro líquido de R$ 44,561 bilhões no primeiro trimestre — 3.718,4% maior do que apurado no mesmo período do ano passado (R$ 1,167 bilhão) — esteja precisando de ajuda. A equação encontrada por Lula para explicar a elevação do preço dos combustíveis não convence. O preço estratosférico do combustível não está relacionado com o desinvestimento feito pela empresa no passado. Com a devida vênia, a explicação está errada. Há um sinal aí, para surpresa de ninguém: Lula não será um presidente privatizador — como não foi, diga-se. Mas Bolsonaro é ou será?

Quem prometia arrecadar R$ 1 trilhão com privatizações era Guedes, lembram-se? E, no entanto, fez-se o tal marco de venda do controle da Eletrobras, e o texto final é um monumento ao capitalismo cartorial. Uma coisa é o que se diz. Outra, o que se faz. Lula fala também sobre diesel e gás — e estou entre aqueles que acham que é preciso haver uma política pública para cuidar do preço desses dois itens.

Se eleito presidente, é claro que o petista terá dificuldades — e as houve no passado — para lidar com a questão. E, em casos assim, ocorre o quê? Debates, altercações, confronto de opiniões etc. Nada que a democracia não suporte. O inaceitável é que se queira botar fogo no parquinho para que os infantes parem de brincar — ou de brigar, não é mesmo? Se eleito, é bem provável que eu cobre privatizações de Lula no futuro, mas certamente não para usar o dinheiro em despesas correntes, como Guedes disse que gostaria de fazer, alegando que, assim, estaria a distribuir o resultado entre os pobres. Não! Estaria apenas torrando patrimônio público. Sem atacar as causas da pobreza.

CAMINHANDO PARA A CONCLUSÃO
Querem saber? Não vejo a hora de voltarmos a ter embates como os propostos por Lula quando fala de questões econômicas -- ainda que, se me permitem a expressão, de amplíssima macroeconomia. Sabem por quê? Porque coisas assim se debatem em todas as democracias do mundo -- se não as estatais propriamente, o embate entre mais estado ou menos é permanente.

O que não é normal é nos digladiarmos sobre o cumprimento ou não das regras do jogo democrático; sobre acatar ou não o resultado das urnas; sobre a força armada gerenciar ou não um tribunal eleitoral...

O que não é normal é nos vermos na contingência de fazer a frente ampla em defesa da democracia. E, hoje, ela é uma imposição moral, pouco importa qual seja o seu voto.

Que outros postulantes à Presidência expressem com igual clareza seu repúdio ao golpismo, à autocracia e às tentações ditatoriais.