PUBLICIDADE
Topo

Reinaldo Azevedo

Pesquisa Quaest 3: Nordeste, mulheres, pobres e jovens nocauteiam o "Mito"

Genial-Quaest
Imagem: Genial-Quaest
Conteúdo exclusivo para assinantes
Reinaldo Azevedo

Reinaldo Azevedo, que publicou aqui o primeiro post no dia 24 de junho de 2006, é colunista da Folha e âncora do programa "O É da Coisa", na BandNews FM. No UOL, Reinaldo trata principalmente de política; envereda, quando necessário - e frequentemente é necessário -, pela economia e por temas que dizem respeito à cultura e aos costumes. É uma das páginas pessoais mais longevas do país: vai completar 13 anos no dia 24 de junho.

Colunista do UOL

11/05/2022 15h42Atualizada em 11/05/2022 16h24

O desespero de Jair Bolsonaro — seja na conversa golpista, seja tentando catar uns caraminguás a mais para os mais pobres ou inventando um bode expiatório para a elevação dos combustíveis — tem uma tradução: a derrota, que hoje estaria assegurada, e com folga, nas urnas.

A vantagem de Lula nas camadas mais pobres da população, que formam a larga maioria do eleitorado, é gigantesca. Se vai ficar assim e se esses eleitores serão convencidos por campanhas de desinformação nas redes, bem, essa é uma dúvida para a qual não se tem resposta.

Segundo o levantamento Genial-Quaest, divulgado nesta quarta, Lula tem, no primeiro turno, 56% das intenções de voto entre os que recebem até dois salários mínimos, mesmo índice do mês passado. O atual presidente oscilou dois pontos para baixo e marca agora 22%. Os demais candidatos, somados, apenas 11%. À diferença de algumas outras pesquisas, a Quaest também aponta uma folga de Lula entre os que recebem de dois a cinco salários: o ex-presidente oscilou de 43% para 44%, e Bolsonaro, de 33% para 32%. O atual mandatário bate Lula por 43% a 36% entre os que recebem acima de cinco mínimos. Nesse grupo, cresceu sete pontos em relação ao mês passado, e o petista ganhou apenas um.

Mas aí convém saber: 70% da mão de obra brasileira recebe até dois mínimos — chegando a 90% os que recebem até R$ 3.500. Nota adicional: depois do Plano Real, Bolsonaro será o único presidente que vai entregar o mínimo valendo menos do que quando chegou ao poder.

Bolsonaro tem uma folga razoável entre os que têm renda mensal média acima de cinco mínimos — menos de 10%. A inflação, que roda, agora, em 12,13% em 12 meses, com elevação de 1,06% em abril, tem potencial para provocar estragos na reputação do presidente mesmo no grupo que lhe dá vantagem relativa. Se vai ser assim, não sei. Convenham: os preços, para a classe média, não convidam à continuidade do governo.

ESCOLARIDADE
Não é segredo que grau de escolaridade e renda são curvas que andam juntas. Assim, o ex-presidente oscilou de 56% para 58% entre os eleitores com ensino fundamental, e o atual manteve os 23%. No eleitorado com ensino médio, ambos conservaram suas posições, com vantagem de Lula: 36% a 40%. No grupo com ensino superior, Bolsonaro oscilou de 37% para 36%, e Lula, de 34% par 36%. Esses dados, reitere-se, dizem respeito ao primeiro turno.

REGIÕES
A dianteira de Lula segue arrasadora no Nordeste (26,88% do eleitorado): caiu de 64% para 61%, e Bolsonaro cresceu de 18% para 22%. A brutal distância sofreu um encurtamento, como se vê. Mas nada que ameace a liderança petista. Mas houve compensação para Lula no Sudeste, maior contingente eleitoral do país: 42,56%. O petista manteve seus 42%, e o seu antípoda caiu de 34% para 31%. No Sul (14,7% do total), um provável novo revés para o "Mito": oscilou de 41% para 39%, e Lula cresceu de 35% para 41%. Na Região Norte (7,98% do eleitorado), Lula volta à liderança: 38% a 33%. As posições eram invertidas há um mês: 39% a 33%. O atual presidente lidera com força, segundo a Quaest, só no Centro-Oeste, que conta com apenas 7,45% dos eleitores: Lula caiu de 42% para 31%, e o atual mandatário cresceu de 32% para 49%. A parceria política de Bolsonaro com lideranças médias do agronegócio se transformou também numa máquina de propaganda do governo e de depredação de seus adversários.

GÊNERO
Lula e Bolsonaro estão tecnicamente empatados no eleitorado masculino -- insista-se: fala-se aqui do primeiro turno: 42% a 39% para o petista. No mês passado, 44% a 38%. A mudança está na margem de erro. Na série histórica, Lula mantém seu patamar. Seu opositor cresceu bastante ao longo do tempo: tinha, por exemplo, 25% em novembro do ano passado.

Bolsonaro não consegue se entender mesmo é com as mulheres: na pesquisa de agora, Lula cresceu de 47% para 50%, e Bolsonaro oscilou um ponto para baixo: de 25% para 24%.

IDADE
Lula lidera ainda em todas as faixas etárias.
Entre 16 e 24 anos:
Lula: de 48% para 49%
Bolsonaro: de 30% para 28%

Entre 25 e 34
Lula: de 46% para 50%
Bolsonaro: de 30% para 27%

Entre 35 e 44
Lula: de 42% para 45%
Bolsonaro: de 35% par 34%

Entre 45 e 59
Lula: de 45% par 44%
Bolsonaro: de 29% para 34%

Mais de 60 anos
Lula: de 49% para 45%
Bolsonaro: de 30% para 31%

A liderança do petista se dá, sim, em todas as faixas, mas é esmagadora nas duas que vão de 16 a 34 anos.

CONCLUSÃO
A Quaest não apresenta esses cruzamentos no segundo turno. Outras pesquisas apontam que Lula tende a liderar em praticamente todas as categorias no enfrentamento direto com Bolsonaro.

Isso significa que Lula já está com endereço certo: o Palácio do Planalto? Não. Eleição, diria Chacrinha, só acaba quando termina. Mas o cenário é inóspito para Bolsonaro -- e, com frequência, em razão de escolhas suas:
- golpismo não é conversa sedutora; tende a afastar ainda mais o eleitorado mais jovem;
- a retórica truculenta e uma pronunciada misoginia do governo, em várias circunstâncias, mantêm afastadas as mulheres;
- o desmonte de políticas públicas, que o presidente tenta compensar com medidas de última hora, afeta em especial os mais pobres e o Nordeste;
- o desemprego e a queda real do valor do salário mínimo afetam diretamente 70% do eleitorado;
- a disparada inflacionária desagrada a quase todos, exceto os poucos que lucram com ela.

Lula ainda não venceu. "Só acaba quando termina", lembram? Mas a situação de Bolsonaro é, objetivamente, muito difícil.