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Reinaldo Azevedo

Veja o que a inflação, o desgoverno e o golpismo fazem com você, Jair!

Datafolha/Folha
Imagem: Datafolha/Folha
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Reinaldo Azevedo

Reinaldo Azevedo, que publicou aqui o primeiro post no dia 24 de junho de 2006, é colunista da Folha e âncora do programa "O É da Coisa", na BandNews FM. No UOL, Reinaldo trata principalmente de política; envereda, quando necessário - e frequentemente é necessário -, pela economia e por temas que dizem respeito à cultura e aos costumes. É uma das páginas pessoais mais longevas do país: vai completar 13 anos no dia 24 de junho.

Colunista do UOL

27/05/2022 09h15

Acho que não quero que o Jair mude o rumo de sua prosa. Que continue com sua ladainha golpista. Isso ajuda a consolidar a sua derrota na eleição presidencial de outubro. Afinal, ele orna com esse discurso pusilânime e violento um governo de incompetentes que, quando não são notavelmente truculentos — provocando massacres ou matando na câmara de gás —, são enfatuados, a exemplo do espetáculo de narcisismo sem lastro estrelado por Paulo Guedes em Davos. Foi para o encontro para anunciar que o mundo inteiro está errado, e ele, certo. As pessoas se afastaram da janela e lhe deram um cavalo branco de presente...

A única notícia boa que o Datafolha traz para Bolsonaro é o calendário: afinal, a eleição não é hoje. Se fosse, ele sofreria uma derrota humilhante. O petista Luiz Inácio Lula da Silva — que Sergio Moro, seu ex-ministro, mandou para a cadeia em 2018 — venceria a disputa no primeiro turno, com 54% dos votos válidos. Lula marcaria 48% contra 27% do "Mito", que se abriga agora no PL de Valdemar Costa Neto, um patriota como nunca houve neste país... Ciro Gomes (PDT) aparece com 7%. Simone Tebet (MDB), o objeto da vez de manifestos "contra os extremismos" (Santo Deus!), marca 2%.

No segundo turno, o ex-presidente venceria o atual por 58% a 33%. Ciro Gomes também bateria Bolsonaro por larga margem: 52% a 36%. O problema do pedetista, como se vê, é passar pelo crivo do primeiro turno. Até dá para compreender o seu discurso furioso contra Lula. Talvez devesse se perguntar se está no caminho certo, caso o objetivo seja ganhar a eleição. Os números indicam que não. João Santana tem sido muito competente em transformar o seu cliente numa personagem da Internet e em manter unidos os convertidos. Em certa medida, a tática espelha o grupo de aguerridos de Bolsonaro, não faltando nem laivos de fanatismo. A conversa é mais informada e tal. Acham que a Terra é redonda, acreditam em vacinas e não participam de encontros com duendes reacionários. Mas têm baixa tolerância para o contraditório. Tudo depende também do que quer Ciro: vencer a eleição ou ser ombudsman do Brasil. É uma crítica honesta, não disposição para o maldizer.

O desempenho de Bolsonaro em certas categorias do eleitorado explica o resultado: no primeiro turno, Lula bate seu principal oponente por 49% a 23%. São as mulheres que administram, na maioria dos lares, o orçamento doméstico: a conta do supermercado. E a inflação corrói o poder de compra. Também são elas, para o bem do Brasil, as mais refratárias ao discurso armamentista. A truculência reacionária do presidente é essencialmente machista.

Entre os que recebem até dois mínimos — 70% dos que têm renda —, o petista vence por 56% a 20%. Guedes diz que quer resolver a pobreza vendendo as estatais e distribuindo dinheiro. Os pobres nem entenderam direito o que ele quer dizer. Se entendessem, compreenderiam o tamanho da bobagem e repudiariam o governo ainda mais. Bolsonaro tungou do PT o Bolsa Família e tentou emplacar no lugar o "Auxílio Brasil". Entre os beneficiários do programa, que continua a ser o Bolsa Família, o petista lidera por 59% a 20%.

O governo tem feito um esforço enorme para esconder suas ruindades. Nas inserções de seu partido, na TV, Bolsonaro já escolheu o caminho: Deus, pátria, aborto, costumes... No dia a dia do governo, criou seus bodes expiatórios — a Petrobras e os governadores — e insiste em ameaçar o país com um golpe de Estado caso seja derrotado. Dizem que não votam nele de jeito nenhum 54% dos ouvidos pelo Datafolha, o exato dobro dos que o escolheriam no primeiro turno. A rejeição a Lula (33%) é muito inferior às intenções de voto: 48%.

ISSO PODE MUDAR?
Maio praticamente chegou ao fim. Há quatro meses inteiros pela frente até a eleição de 2 de outubro. É pouco provável que Ciro dispare ou que Simone vá além do reduzido grupo que acredita na falácia de que é preciso "evitar os extremos" -- até porque, senadora, há só um extremista disputando a eleição. E a senhora sabe quem é.

O número de vigaristas no mercado das pesquisas cresceu bastante. Daqui a pouco aparece um pistoleiro a oferecer seus serviços para animar os fanáticos. Mas quem paga sabe que compra um número, não os eleitores necessários para vencer. Uma coisa é certa: os levantamentos honestos dizem a Bolsonaro: a eleição de 2022 não é a de 2018. A Internet ajuda a formar os soldados aguerridos da... Internet!

É possível que o horário eleitoral influencie mais a decisão do eleitor nesta disputa do que na anterior, quando a histeria das redes deu o tom. É bem verdade — e isto jamais pode ser esquecido porque ajuda a explicar o presente — que Lula liderava as pesquisas em 2018 mesmo na cadeia. Fez um candidato a um mês da eleição e o colocou no segundo turno em três semanas. Por isso, a ideia de que se pudesse ter uma eleição sem o PT sempre me pareceu delirante.

Se querem saber, não acho que a disputa será assim confortável para Lula. Vai depender, em boa medida, das ações de Bolsonaro. Ele continuará com a sua conversa golpista, ou seus aliados conseguirão convencê-lo a tentar ganhar os eleitores, em vez de ameaçá-los com golpe de Estado? Ainda não é carta fora do baralho. Mesmo com esses números, ainda pode vencer a eleição. Daí a necessidade da vigilância democrática.

Se vencer, aí, sim, a democracia será golpeada, como escrevo em meu artigo na Folha desta sexta.