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Reinaldo Azevedo

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Combustíveis: Não há governo; existe um bando de arruaceiros incompetentes

Junião
Imagem: Junião
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Reinaldo Azevedo

Reinaldo Azevedo, que publicou aqui o primeiro post no dia 24 de junho de 2006, é colunista da Folha e âncora do programa "O É da Coisa", na BandNews FM. No UOL, Reinaldo trata principalmente de política; envereda, quando necessário - e frequentemente é necessário -, pela economia e por temas que dizem respeito à cultura e aos costumes. É uma das páginas pessoais mais longevas do país: vai completar 13 anos no dia 24 de junho.

Colunista do UOL

17/06/2022 19h02

Estou entre vozes isoladas, eu sei — refiro-me ao universo da imprensa —, que NÃO são entusiastas da política de preços da Petrobras. Mas defendo menos ainda a bagunça. Desde o governo Temer, que foi alvejado pela greve dos caminhoneiros liderada por Jair Bolsonaro, defendo que o governo tenha uma política para minorar os efeitos das oscilações de mercado sobre diesel e gás, independentemente do regime que vigore na petroleira.

Afinal, ainda que esta mantivesse a prática atual, o que impede o Ministério da Economia de criar, por exemplo, um acolchoado para amortecer as oscilações de preço? Usem-se os dividendos espetaculares que a empresa paga a seu principal acionista. "Ah, Reinaldo, mas isso agride frontalmente o Manual do Perfeito Idiota Liberal Latino-Americano do Século Passado". É verdade. Havia me esquecido. O que honra essa ortodoxia do Fundomundistão é a zorra promovida por Paulo Guedes na Petrobras, nos Estados e nas contas públicas. É evidente que nunca se viu nada parecido. E com o apoio entusiasmado de Arthur Lira (PP-AL), presidente da Câmara, e Ciro Nogueira, chefe da Casa Civil, os dois cavaleiros do Centrão. Afinal, Bolsonaro precisaria ganhar as eleições para que continuassem a dizer: "Nada temam! O Brasil é nosso!".

Um novo reajuste da gasolina e do diesel era a mais cantada de todas as pedras do jogo. E, como se sabe, os preços seguem defasados. Aliás, só não são mais altos porque a Petrobras não é, como ameaçam Bolsonaro e Lira, inteiramente privada. Se fosse, restar-lhes-ia, talvez, expropriar as petroleiras privadas que surgissem da venda fragmentada da gigante — ou sei lá que porcaria tenham na cabeça, em havendo alguma definida que não essa massa granulosa de indecências políticas e econômicas.

Criar o tal acolchoado com os dividendos violaria fundamentos do bom liberalismo, mas não ressarcir alguns bilhões aos Estados que zerarem ICMS com quase R$ 30 bilhões fora do teto? Criar um acolchoado com os dividendos violaria fundamentos do bom liberalismo, mas não tabelar o ICMS dos Estados, numa violação clara do pacto federativo? Criar um acolchoado com os dividendos violaria fundamentos do bom liberalismo, mas não bagunçar arrecadação federal com renúncia fiscal e ferrar os cofres dos Estados, impondo-lhes um rombo no imposto estadual?

Não temos um governo, mas uma vergonha continuada. No caso de Bolsonaro, ela se expressa por afasias e anacolutos. No caso de Guedes, vem com a marca de uma arrogância verdadeiramente planetária. Em Davos, anunciou "urbe et orbe" que todo o mundo está errado, e ele, certo. No universo escatológico, dos raciocínios finalistas, o planeta caminha para o caos, e o Brasil, para o paraíso, como se vê.

RAÇÕES E AÇÕES
As ações da Petrobras afundaram. Na matemática elementar, deveriam ter subido. Se a empresa escolhesse arcar com o total da defasagem de preços é que estaria maltratando o dinheiro dos investidores. Ocorre que se pôs um preço no temor da reação destrambelhada do governo. E, como se nota, destrambelhada é.

Arthur Lira, com a linguagem elevada de que é capaz — às vezes, a gente se esquece de quem é, com aquela certa pompa que consegue fingir no comando da Câmara — diz que o presidente da Petrobras está sacaneando e que vai para o pau. Ameaça com uma sobretaxação da empresa. Se o intento for derrubar ainda mais o valor de mercado da Petrobras, está no caminho certo. Ele já disse que defende a privatização. Quem vai comprar? Para Lira, depois, ameaçar "ir "para o pau" caso não goste das escolhas feitas?

Alexandre Cordeiro, presidente do Cade e homem de Ciro Nogueira, também parte para cima. Disse que a empresa "não parece muito preocupada com a sua imagem". E se ignorava, até então, que, entre as suas (de Cordeiro) tarefas, estivesse a de cuidar da imagem da Petrobras. Argumento da hora: ela concentra mercado. Ora, quebrem o monopólio! Ops! Esqueci. Já foi quebrado. A Petrobras já vendeu refinarias. Nas privadas, o combustível é mais caro.

O governo tem braços operantes no STF. André Mendonça já determinou que Estados cobrem ICMS sobre a base reduzida de cálculo, conforme o esperado -- ainda é fruto da ação movida antes da Projeto de Lei Complementar tabelando o imposto --, e quer explicações da Petrobras, nestes termos:
"Urge a este juízo obter informações adicionais sobre a política de preços praticada nos mercados do petróleo e gás natural, em conformidade à Lei federal 9.478/1997 [Lei do Petróleo], além das medidas fiscalizatórias adotadas pelos órgãos competentes nessa seara".

Que bonito ver a extrema direita e a suposta direita liberal unidas na defesa da função social da Petrobras. Ué? Mas o objetivo não era privatizar? Entendi: é uma privatização com função social da propriedade. Pensava ser coisa de, como é mesmo?, "COMUNISTAS"!!! Gente patética.

Estão doidinhos para ganhar uma liminar de Mendonça tabelando a gasolina e o diesel. E nenhum deles dirá que o STF estaria extrapolando de suas funções. "Supremo bom é o que faz o que gente manda".

É uma gente sem eira nem beira. Acima de quaisquer outros defeitos que tenham esses valentes — e têm todos —, são INCOMPETENTES.

E, como é da natureza dos incompetentes truculentos, apostam no caos quando flagrados.