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Reinaldo Azevedo

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Coluna na Folha: Também agora, o preço da liberdade é a eterna vigilância

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Reinaldo Azevedo

Reinaldo Azevedo, que publicou aqui o primeiro post no dia 24 de junho de 2006, é colunista da Folha e âncora do programa "O É da Coisa", na BandNews FM. No UOL, Reinaldo trata principalmente de política; envereda, quando necessário - e frequentemente é necessário -, pela economia e por temas que dizem respeito à cultura e aos costumes. É uma das páginas pessoais mais longevas do país: vai completar 13 anos no dia 24 de junho.

Colunista do UOL

05/08/2022 05h50

Digamos que um manto de bom senso se desdobrasse desde o empíreo e cobrisse o Ministério da Defesa, muito especialmente o general Paulo Sérgio Nogueira, seu titular, num evento verdadeiramente maravilhoso, sobrenatural e solene. Pronto! No dia 12 próximo, tudo estaria resolvido. Restaria a Jair Bolsonaro vociferar entre lunáticos, alegando supostas fragilidades no sistema de votação em caso de derrota. Não será assim. Logo, você sabe qual é o preço da liberdade. Os nove militares escalados por Nogueira já estão examinando o código-fonte das urnas, depois de um ofício "urgentíssimo" por ele enviado ao TSE solicitando a inspeção do dito-cujo —"haja vista o exíguo tempo disponível até o dia da eleição", escreveu. Não há erro de concordância, haja vista que "haja vista" é expressão invariável. Quando os que dispõem de tanques recorrem a uma linguagem empolada, quase sempre o que se tem é truculência disfarçada de formalidade burocrática.

Os dados estavam disponíveis havia dez meses quando o documento simulou reivindicar algo que lhe estaria sendo sonegado por desídia inexistente. Os militares darão seu parecer um dia depois da leitura de duas cartas em favor da democracia. Uma delas expressa a vontade de amplos setores da sociedade civil e traduz a confiança da esmagadora maioria da população no voto eletrônico. A outra, de igual teor, traz a assinatura de entidades que representam o trabalho, o capital, a ciência —a vida, enfim, em sociedade. Nos dois casos, e cobrei isso aqui tantas vezes, toma-se o regime democrático como valor inegociável e se afirma a supremacia de regras pactuadas para administrar conflitos, na certeza de que sempre serão imperfeitas, demandando permanente aperfeiçoamento, mas preferíveis a arbítrios salvacionistas que redundam em violência, exclusão e morte — abismo político, moral e ético de todas as ditaduras.

Tenho pouca esperança de que o ministro virá a público para anunciar, no dia 12, um "nada consta contra as urnas", hipótese, então, em que seu chefe ficaria, literalmente, a falar sozinho.
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