Reinaldo Azevedo

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Opinião

Encontro de extremistas mostra que Tarcísio é um Bolsonaro, mas com método

Bem, a tal conferência conservadora (CPAC) dos Bolsonaros em Balneário Camboriú firmou seu compromisso com o impossível, que é o modo de manter unidos os sectários. Sem o paradoxo do "porvir que não virá", inexistem seitas, certo? E, por ora, a ordem é acreditar na possibilidade de Jair Bolsonaro recuperar a sua elegibilidade para 2026. Não vai.

BOLSONARO RENOVA COMPROMISSO COM CRISES INSTITUCIONAIS
A conversa da turma é, ao mesmo tempo confusa, e clara. Leio na Folha esta declaração do próprio Bolsonaro:
"A composição do TSE já mudou. Se tivermos uma grande bancada em 2026, pode ter certeza que a gente faz pelo Parlamento, não por uma canetada, uma história melhor para todos nós".

Esse "por" e esse "pelo" aí querem dizer "por meio de". Traduzindo: o ex-presidente está a dizer que é preciso aumentar a presença da turma no Senado para articular o impeachment de ministros. Ou por outra: aquele que Tarcísio de Freitas diz ser o Grande Fortão das Galáxias está anunciando o seu compromisso com futuras crises institucionais antes mesmo de colher o resultado nas urnas.

O deputado Zucco (PL-RS) vocalizou o ponto:
"Vamos preparar o terreno para 2026. Vamos ter a maioria do Senado para dar um basta no Supremo Tribunal Federal. Chega de interferência".

Ele quer um "basta" no STF. Entendido.

Bem, se é de crise que se fala, noto que inexiste ato que esteja livre da apreciação do Poder Judiciário. Ainda que se formasse no Senado a maioria necessária para o impeachment de A ou de G, o processo seria tornado sem efeito pelo próprio STF se estivesse eivado de ilegalidades. E estaria. Como se nota, eles ainda nem fizeram a maioria necessária para isso, mas já votaram a favor do impedimento. Vale dizer: têm a sentença antes da transgressão e do processo. Que gente notável!

Mas isso é conversa de fim dos tempos. Não estivesse o próprio e eventual processo de impeachment de um ministro do STF sujeito ao crivo do tribunal, maiorias de ocasião iriam substituindo os integrantes da corte a seu gosto.

Noto, ademais, que, em 2026, ano em que se elege ou se reelege o presidente, a composição do Senado será esta que aí está. A renovação de dois terços valerá a partir de 2027. Só o STF, com a atual composição, pode devolver o ex-presidente à competição nas próximas eleições. Não vai acontecer. "E a anistia, que pode ser aprovada pelo Congresso?". Será tornada sem efeito, se acontecer, pela Corte Constitucional na qual Zucco quer dar um basta.

TARCÍSIO E JOGO DO GANHA-GANHA
Tarcísio de Freitas, governador de São Paulo e sonho desfeito dos extremistas de centro do colunismo que ansiavam por um "bolsonarismo civilizado", falou de modo a sugerir que tem uma estratégia:
"A direita está aqui, está unida e tem uma liderança, que é o presidente Jair Messias Bolsonaro. A gente tem de ser paciente na atribulação. A gente vai penar, mas a gente vai vencer".

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Ok. Não existe seita sem a oferta de um horizonte finalista. E ele fala como quem tem uma carta na manga. Em favor de Bolsonaro? Acho que não...

O governador está no jogo do ganha-ganha. Sendo boas as suas chances em 2026, disputa a Presidência. Se o risco for considerável, busca a reeleição em São Paulo e posterga o projeto presidencial. Contra Bolsonaro, há também os processos criminais. Ninguém diria isto no CPAC, é claro!, mas é muito maior a chance de ele continuar inelegível muito além de 2030 do que de recuperar a elegibilidade para 2026 — até porque esta se situa abaixo do zero.

"Então a fidelidade de Tarcísio é falsa?" Não! É verdadeira. Ele é realmente um bolsonarista e abraça valores da extrema-direita, como temos visto. Só conta uma mentira da Carochinha quando diz acreditar que o chefe ainda disputará as eleições de 2026. Sabe que não acontecerá. Fala isso porque é só o que se pode falar sobre o assunto por ali e também o melhor para si mesmo.

A reunião dos extremistas mostrou que Tarcísio é um Bolsonaro com método. Não se importa que o outro se apresente como Deus. Ele busca o lugar de primeiro nas coisas terrenas. A dificuldade vindoura será escapar da artilharia dos filhos. Mas essa é outra história.

Opinião

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.

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