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Ronilso Pacheco

Carla Zambelli e a humilhação do povo brasileiro sem acesso à boa comida

A deputada federal Carla Zambelli (PSL-SP), na portaria do Palácio do Alvorada -  DIDA SAMPAIO/ESTADÃO CONTEÚDO
A deputada federal Carla Zambelli (PSL-SP), na portaria do Palácio do Alvorada Imagem: DIDA SAMPAIO/ESTADÃO CONTEÚDO
Ronilso Pacheco

Ronilso Pacheco, Teólogo pela PUC-Rio, Pastor auxiliar, ativista e escritor, é pesquisador e mestrando no Union Theological Seminary, da Columbia University em Nova Iorque, autor de "Teologia Negra, o sopro antirracista do Espírito", “Profetismo, Utopia e Insurgência” e "Ocupar, Resistir, Subverter: igreja e teologia em tempos de violência, racismo e opressão”. É Fellow da Ford Foundation Global Fellowship

27/01/2021 20h28

"Se acha que o Exército está comendo muito bem e você não, aliste-se. Sirva a sua pátria e coma bem no Exército".

Esta é parte da resposta da deputada Cara Zambelli (PSL-SP), em meio a toda polêmica envolvendo a reportagem que aponta gasto bilionário do governo Bolsonaro com a compra de diversos itens alimentícios, divulgada pelo Portal Metrópoles. Entre eles, estavam cerca de 15 milhões de reais para a compra de leite condensado.

Em meio ao intenso debate em torno do assunto, uma das justificativas apresentadas pelo governo é que parte da compra tinha como destinatário o Ministério da Defesa, e que os alimentos fariam parte da refeição distribuída para os milhares de soldados em quartéis pelo país.

É a partir daí que Carla Zambelli fez o seu vídeo. Sua defesa irônica do gasto aponta diversos feitos pelos militares brasileiros. Mas não cita, por exemplo, os 6 milhões, apenas em combustível, gastos em uma "simulação de guerra" na fronteira com a Venezuela em 2020.

A resposta de Zambelli seria comum, para uma "disputa de narrativa" entre blogueiros e navegantes das redes sociais. Não é nenhum pouco razoável vindo de uma parlamentar, e inadmissível para quem teve o privilégio de matricular o filho, sem concurso, em uma concorrida escola militar.

Em setembro de 2020, o IBGE divulgou dados de uma pesquisa que mostrava o aumento em cerca de 3 milhões no número de pessoas sem acesso regular à alimentação básica, chegando a, pelo menos, cerca de 10,3 milhões o contingente nesta situação.

Um censo da Prefeitura de São Paulo, também de 2020, aponta que o número de pessoas em situação de rua e em abrigos aumentou em 53% na cidade. Neste grupo, os idosos formam um dos maiores contingentes. Seria solução encontrada por Zambelli aplicável aos idosos em situação de rua e que certamente se alimentam mal?

É infelicidade ou mau-caratismo que um funcionário público, cuja vida de privilégios e regalias, incluindo a própria alimentação, escolha o deboche como resposta à sociedade. "Servir à pátria" se resumiria a alistar-se no Exército? Seria o rancho do Exército a solução para os milhões de brasileiros abaixo da linha da pobreza? Carla Zambelli deve saber a resposta, no conforto do seu privilégio.