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Ronilso Pacheco

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

Por que igrejas devem fechar ao contrário do que pregaram Doria e Bolsonaro

23.abr.2019 - João Doria (PSDB) e Jair Bolsonaro em encontro no Palácio do Planalto - Marcos Corrêa/PR
23.abr.2019 - João Doria (PSDB) e Jair Bolsonaro em encontro no Palácio do Planalto Imagem: Marcos Corrêa/PR
Ronilso Pacheco

Ronilso Pacheco, Teólogo pela PUC-Rio, Pastor auxiliar, ativista e escritor, é pesquisador e mestrando no Union Theological Seminary, da Columbia University em Nova Iorque, autor de "Teologia Negra, o sopro antirracista do Espírito", “Profetismo, Utopia e Insurgência” e "Ocupar, Resistir, Subverter: igreja e teologia em tempos de violência, racismo e opressão”. É Fellow da Ford Foundation Global Fellowship

Colunista do UOL

05/03/2021 04h00

Uma igreja fechada não é uma igreja inacessível, mas é uma igreja que envia uma mensagem coerente e poderosa para os seus membros sociedade. Desafiar as recomendações de distanciamento, no pior momento da pandemia no Brasil não deveria ser uma disputa que interessasse a quem deseja preservar vidas e evitar mais mortes.

Optar por manter a igreja fechada é uma resposta coerente e poderosa porque a igreja está afirmando o seu compromisso com a sociedade, e isto é se colocar à disposição da população em tempos de desespero.

Igrejas fechadas não privam pessoas do socorro espiritual necessário, porque uma igreja fechada continua acessível para isso. Uma igreja fechada, neste momento, é, antes de tudo, um triste e fundamental sinal de que nossas coletividades estão comprometidas e, portanto, esta não é uma crise qualquer.

Há um ano, o presidente Jair Bolsonaro emitia decreto em que incluiu atividades de fim religioso como na lista de serviços essenciais durante a pandemia. Na ocasião, o Brasil tinha pouco mais de 200 mortos em todo país pelo novo coronavírus.

No mesmo instante, diversas lideranças religiosas do país, preocupadas com a seriedade da pandemia, rechaçaram a decisão. Da CNBB à Congregação Israelita Paulista, passando por diversos pastores evangélicos, babalorixás e a Federação Espírita —todos foram unânimes em reconhecer que a medida era desnecessária e sem razoabilidade.

Um ano depois, o debate retorna com a decisão do governador de São Paulo, João Doria (PSDB), de incluir as atividades religiosas como serviços essenciais. As atividades religiosas haviam ficado de fora na primeira versão publicada, e Doria sofreu forte pressão de lideranças evangélicas conservadoras.

Como pastores de megaigrejas e a bancada evangélica são vistos como cruciais para aspirantes a cargos do Executivo nas eleições, Doria não hesitou desta vez. Venceu a falta de bom senso, a insensibilidade e o interesse próprio disfarçados de "cuidado com a espiritualidade em tempos de pandemia".

O Brasil ultrapassou os 250 mil mortos pela pandemia. Trata-se do pior momento até agora, e a maioria dos pastores que defendem as igrejas como serviços essenciais zombaram em algum momento da pandemia, negando seus efeitos.

Os mesmos pastores, em agosto, quando o Brasil bateu 100 mil mortos, não emitiram uma única palavra, postagem de condolências ou solidariedade. Não há qualquer sensibilidade, tudo se resume ao show de dizer "quem manda" e que nenhuma autoridade pode mandar "fechar a minha igreja".

Abrir igrejas e realizar cultos com "todos os protocolos de segurança", como muitos pastores estão reivindicando, parece ter menos a ver com o compromisso de se colocar à disposição da necessidade espiritual das pessoas durante a pandemia e mais com a afirmação de "quem manda"

A exigência de se manter uma igreja fechada é vista como uma afronta à liberdade da igreja e, no limite, à autoridade do pastor. O debate sobre as igrejas serem incluídas na lista dos serviços essenciais se tornou um debate meramente político, religioso, quase teocrático.

Nós sabemos que a igreja fechada continua "aberta". Na verdade, muitas pequenas igrejas situadas em várias periferias do país sequer entraram na disputa sobre fechar ou não. Elas simplesmente fecharam, porque a doença e a morte estão por perto.

Fechadas aos domingos, essas igrejas seguiram ativas, ajudando mutuamente membros e comunidade, encontrando-se virtualmente. Pastores visitaram "ovelhas", levando conforto, oração e ânimo. Líderes religiosos visitaram as pessoas, respeitaram o luto. Pastores e pastoras deram plantão em suas igrejas, acessíveis para as pessoas que precisavam ser atendidas.

Manter as igrejas fechadas, sem dúvida, afetou profundamente o orçamento de muitas igrejas. Não foram poucas as que perderam as condições de pagar seus imóveis alugados. Mas isto é de fato uma crise, e não se negociam vidas e cuidado mediante a crise. A igreja cuida das pessoas, e as pessoas também cuidam da igreja. Esta deveria ser a mensagem.

Manter os templos fechados não pode ser visto como "cristofobia": isto em nada compromete o serviço que as igrejas prestam. É fundamental distinguir entre "fechar" e estar "acessível". É sobre fazer parte de um esforço coletivo para que o número de mortes diminua, já que o governo —e os pastores bolsonaristas— parecem fazer tão pouco.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL