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Ronilso Pacheco

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

Para Edir Macedo e casal Hernandes, vacina nos EUA; para rebanho, o caos

O bispo Edir Macedo, líder da Igreja Universal do Reino de Deus - Alan Santos-PR
O bispo Edir Macedo, líder da Igreja Universal do Reino de Deus Imagem: Alan Santos-PR
Ronilso Pacheco

Ronilso Pacheco, Teólogo pela PUC-Rio, Pastor auxiliar, ativista e escritor, é pesquisador e mestrando no Union Theological Seminary, da Columbia University em Nova Iorque, autor de "Teologia Negra, o sopro antirracista do Espírito", “Profetismo, Utopia e Insurgência” e "Ocupar, Resistir, Subverter: igreja e teologia em tempos de violência, racismo e opressão”. É Fellow da Ford Foundation Global Fellowship

02/04/2021 04h00

"Se nós tivermos autoridade, a nossa fé, nós vamos passar completamente incólumes, sem ser atacado por isso [coronavírus]." Foi assim que o bispo Estevam Hernandes e sua esposa, Sônia Hernandes, "conscientizavam" os membros da igreja Renascer em Cristo em 17 de março de 2020 sobre a pandemia.

A declaração do casal Hernandes está em linha com o que disse o bispo Edir Macedo, no mesmo mês de março, em uma live. "Meu amigo e minha amiga, não se preocupem com o coronavírus. Porque essa é a tática, ou mais uma tática, de satanás. Satanás trabalha com o medo, o pavor."

Em 18 de março deste ano, Edir Macedo, 76, e sua esposa Esther Bezerra, 72, líderes da Igreja Universal do Reino de Deus, foram vacinados. Uma semana depois, o casal Estevam Hernandes, 67, e Sônia Hernandes, 62, líderes da Renascer em Cristo, também tiveram a oportunidade de serem imunizados.

Os casais se vacinaram na Flórida, nos Estados Unidos, e não no Brasil.

Quando essas declarações foram feitas por Hernandes e Macedo, o Brasil fechava março de 2020 com 5.717 casos confirmados de infectados pelo novo coronavírus e 201 mortes. Aqui estamos nós, um ano depois, com mais de 320 mil mortos, e recordes diários que aumentam sucessivamente.

Eles são responsáveis, na medida em que poderiam ter abraçado uma conscientização contundente, ao invés de embarcar na resistência de Jair Bolsonaro quanto aos riscos reais da pandemia e o seu rápido avanço. O poder de influência deles tem um preço, e o silêncio deles agora, se beneficiando de vacinação estrangeira, não pode ser invisibilizado

Hoje sabemos que os principais erros na gestão da pandemia, que nos fizeram chegar até aqui, estão nos seus primeiros meses, onde medidas poderiam ter sido decisivas, inclusive a iniciativa para adquirir vacinas e pensar um plano de vacinação para o futuro.

Os primeiros meses também foram decisivos para a postura irresponsável de muitas lideranças evangélicas, entre elas, Macedo e Hernandes.

Sob o peso de negligenciar o peso de sua influência, Hernandes não pode ignorar quantas pessoas carregam, por conta da sua declaração, duas frustrações: a doença ou a morte em sua família, e a decepção de, sendo crente e fiel, não ter tido autoridade nem fé 'o bastante' para não ser atingido pelo vírus

"Acima de tudo, acima de vacina, eu creio no poder curador de Jesus Cristo", disse Estevam Hernandes no mesmo vídeo.

Quando as pilhas de mortos se acumularam, e seguem se acumulando, e o governo é incapaz de dar uma resposta à altura, Hernandes preferiu antecipar a vacina, caso o "poder curador de Jesus" não chegasse a tempo.

Provavelmente, este foi o mesmo raciocínio de Macedo, que percebeu que o coronavírus, matando mais de 3.000 brasileiros por dia, precisava sim de preocupação. O privilégio entrou em cena. Garantiram sua saúde e sobrevivência enquanto a maioria esmagadora de seu rebanho não tem alternativa.

É difícil imaginar que hoje, no Brasil, em alguma Universal ou em algum templo da Renascer em Cristo, não haja um membro lamentando a perda de alguém. Para muitos deles, a vacina sequer aparece no horizonte, a comida vai desaparecendo da despensa e as alternativas vão chegando ao fim. Uma realidade sem comida e sem leito.

Estes líderes foram emblemáticos de uma liderança pastoral que tem contribuído para a ruína na qual o Brasil se encontra com a pandemia. O arrependimento é um dos elementos cruciais para o cristianismo e para a aceitação da mensagem de Jesus.

É indescritível o que esses homens representam, ao não se arrependerem de terem minimizado em nome de uma suposta fé em Deus, uma tragédia anunciada que, ao que tudo indica, ainda vai custar a vida de milhares de brasileiros.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL