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Ronilso Pacheco

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

Pastores já convocam rebanho para ato de 7 de setembro pró-Bolsonaro

Ronilso Pacheco

Ronilso Pacheco, Teólogo pela PUC-Rio, Pastor auxiliar, ativista e escritor, é pesquisador e mestrando no Union Theological Seminary, da Columbia University em Nova Iorque, autor de "Teologia Negra, o sopro antirracista do Espírito", “Profetismo, Utopia e Insurgência” e "Ocupar, Resistir, Subverter: igreja e teologia em tempos de violência, racismo e opressão”. É Fellow da Ford Foundation Global Fellowship

Colunista do UOL

25/08/2021 04h00

Enquanto derrete em popularidade e vai sendo emparedado pelo STF (Supremo Tribunal Federal) por sua trama de mentiras sobre o voto impresso e ameaças ao processo eleitoral, o presidente Jair Bolsonaro busca construir uma demonstração de força para o 7 de Setembro. Sua meta é mostrar que é popular, forte e que concentra mais apoio do que apontam as pesquisas.

Evidentemente, Bolsonaro seria incapaz de fazer isso sem a sustentação do seu núcleo de força para a mobilização popular, que são os pastores conservadores e midiáticos que o cercam. O apoio, que muitos deles afirmavam ser no plano pessoal, tornou-se uma "missão evangelizadora" para levar evangélicos às ruas no próximo 7 de setembro.

O Brasil tem uma liderança evangélica comprometida em arrastar o país para a extrema-direita e seu radicalismo militarista, fascista e inimigo da diversidade no Brasil.

O modelo de como a extrema-direita funciona está gritante, em um sectarismo que mascara agressividade e ressentimento de amor a Deus e à pátria. Nem um nem outro. Tudo é sobre poder.

Não por acaso, o modus operandi é exatamente o mesmo usado por Donald Trump durante o terrorismo doméstico e invasão do Capitólio em 6 de janeiro. Trump sabia quem ele estava convocando, o fim que poderia ter e o que estava em jogo na instigação de um ataque ao Parlamento e a parlamentares democratas. E esperou para ver.

A insistência em uma convocação para manifestação "pacífica" é também a expressão de uma mensagem codificada de apoio total e irrestrito à continuidade das ações que têm ignorado a lei e o bom senso no país. A extrema-direita assumiu o posicionamento de radicalizar o Brasil.

As grandes lideranças evangélicas conservadoras e fundamentalistas do país, aliados tradicionais de Bolsonaro, assumiram de vez que vão conduzir as suas igrejas para abraçar e blindar a defesa de atos antidemocráticos e a trama de mentiras do presidente sobre fraude em eleições, o que ele foi incapaz de provar.

Na medida em que Bolsonaro derrete, perde força e apoio popular, esses líderes evangélicos vão ficando mais insistentes e intimidadores na pregação e convocação de suas igrejas para irem às ruas no dia 7 de setembro. Será o momento perfeito de separar o joio do trigo.

Ajudará bastante se a grande mídia brasileira não jogar o seu foco de luz sobre a insanidade política de líderes religiosos comprometidos com a extrema-direita, abraçados até o fim com um projeto de interdição da diversidade e do respeito à democracia no país.

Ajudará se a grande imprensa prestar atenção às resistências evangélicas que têm, em um grito de bom senso, despertado a sociedade brasileira para os riscos de um fascismo religioso. Seja qual for o tamanho do barulho que o "exército" convocado pelos barões da igreja evangélica brasileira, ele definitivamente se sobressai única e exclusivamente pelo barulho.

A lacuna entre o cenário que os pastores conservadores insistem em desenhar para justificar a ida de evangélicos para as ruas (o comunismo, a corrupção, o Brasil ameaçado, a liberdade religiosa ameaçada, a cristofobia, a perseguição aos cristãos, a destruição da família, etc.) é grande na realidade da maioria dos evangélicos, sobretudo dos mais pobres e o rebanho das pequenas igrejas de periferia.

Enquanto a pandemia se tornou uma ameaça real, visto que dificilmente um brasileiro não foi atingido direta ou indiretamente pela covid-19, inclusive perdendo alguém que ama ou próximo, a democracia e os valores bíblicos não parecem ser protegidos por um presidente que destila desprezo pela pandemia e comportamento agressivo.

A despeito do público filmado ou fotografado durante movimentos de apoio a Bolsonaro, a maioria evangélica mostra-se reticente com sua postura e se recusa a travar a sua luta. Daí porque a insistência da persuasão dos pastores midiáticos.

Como falsos pastores conduzindo ovelhas ao matadouro, vão arrastando o seu rebanho, quase à força, para uma aventura de demonstração de poder contra valores da democracia. Não recuaram nem com mais de meio milhão de mortos que ajudaram a ignorar enquanto convocavam jejum em vez de cobrar responsabilidade e ação rápida do governo. Não vão recuar agora.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL