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Luiz Maklouf, profissão: repórter

O jornalista Luiz Maklouf, que morreu neste sábado (16) em São Paulo - Reprodução
O jornalista Luiz Maklouf, que morreu neste sábado (16) em São Paulo Imagem: Reprodução
Rubens Valente

Rubens Valente é repórter desde 1989 e há 10 anos atua em Brasília. Nasceu no Paraná e trabalhou em órgãos da imprensa de São Paulo, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, onde se formou em jornalismo na UFMS (Universidade Federal do MS). É autor de "Operação banqueiro" (Geração Editorial, 2014) e "Os fuzis e as flechas - história de sangue e resistência indígena na ditadura militar" (Companhia das Letras, 2017). Recebeu 17 prêmios nacionais e internacionais, incluindo o Prêmio Esso de Reportagem, dois Prêmios de Excelência Jornalística da SIP (Sociedade Interamericana de Jornalismo) e dois Grandes Prêmios Folha.

Colunista do UOL

16/05/2020 16h55

No comecinho dos anos 2000, quando a internet era só uma promessa que poucos jornalistas entendiam direito, lá estava Luiz Maklouf colocando no ar um blog (na época chamava-se "página") intitulado "Profissão: Repórter". Ele costumava ver mais longe.

Foi pelo blog -cujo nome foi escolhido muito antes do programa da TV Globo - que nos conhecemos, um telefonema do nada para um jovem jornalista vindo do interior do Brasil e recém-chegado a São Paulo. Depois se seguiram contatos ocasionais -almoços no Sujinho, telefonemas, a cobertura do julgamento do mensalão - até dezembro passado, a última vez em que almoçamos, em um shopping de Brasília, quando ele calmamente, pausadamente, informou que o prognóstico médico é que teria poucos meses de vida porque um dos tumores havia crescido quando deveria ter regredido.

Claro, já era conhecida toda a longa batalha de dois anos contra o câncer, parte da qual ele relatara em textos notavelmente objetivos para "O Estado de S. Paulo", mas ouvir isso da sua boca, com a maior tranquilidade do mundo, como se tivesse pedido uma Coca-Cola ao garçom, foi um choque, um susto. Lembro que minhas pernas tremeram e só consegui dizer mais ou menos isso: "Maklouf, no seu lugar eu estaria em casa, trancado, me lamentando ou fazendo não sei o quê. Mas você viajou de São Paulo a Brasília para fazer uma reportagem!"

O jornalista Vasconcelos Quadros, seu amigo há mais de 30 anos, desde os tempos do "Jornal do Brasil", guarda a mesma impressão. "Ele não se assombrou com a doença, ele a encarou como encarou todas as reportagens que fez. Ele não negaceava, não tergiversava, não fazia rodeios nem atalhos. Ele tinha um papo direto. A morte olhou para ele e ele encarou de volta, foi em frente."

Outro amigo, o jornalista Lucas Ferraz, disse que Maklouf "sabia que seu tempo estava acabando, mas nunca deixou de pensar em novos projetos e reportagens. Essa é outra lição: ele foi o mesmo até o final, enfrentando a morte com leveza, coragem e bom-humor."

O primeiro câncer foi na garganta, há dez anos, e ele superou. O segundo apareceu no pulmão. Maklouf não desistiu. Havia lançado um livro de grande sucesso, em agosto, sobre o passado militar do presidente Jair Bolsonaro, dava entrevistas para TVs, rádios e jornais e costumava vir a Brasília para entrevistar quase sempre políticos da extrema-direita, aos quais ele agora direcionava seu holofote minucioso e quase sempre demolidor. Isso tudo ao mesmo tempo em que brigava com um câncer extremamente agressivo. Para mim era, e continua sendo, um espanto. Não conheci ninguém tão corajoso.

É difícil nem pretendo resumir a carreira de Maklouf, esse paraense apaixonado por Machado de Assis (1839-1908), de mãos finas e gestos comedidos, nascido em Belém em abril de 1953 e radicado em São Paulo desde 1983, porque ao longo de mais de 40 anos ele teve uma produção intensa, marcante, em tudo que resolveu fazer na profissão.

Reportagens, grandes perfis, creio que sete livros-reportagens, todos eles indispensáveis para os iniciantes no jornalismo. Do papel das mulheres na luta armada contra a ditadura à Constituinte de 1988, da imprensa sensacionalista dos anos 40/50 a um dos mais impactantes relatos que um militar concedeu sobre a repressão, Maklouf escreveu com brilho e competência. Quando abríamos seus livros, íamos até o final.

Perfeccionista, obstinado, eterno crítico dos métodos e produtos do jornalismo. Trabalhava com os prazos longos, as apurações complicadas e detalhadas. Sob qualquer ponto de vista que se olhe, Maklouf era uma ave rara na profissão. Mas era uma ave do chão, não aquelas que flutuam lá em cima e não conseguem ver as coisas da terra. Ele gastava a sola do sapato e esquentava o ouvido colado ao telefone.

Quando o jornalista Mario Sergio Conti foi convidado por João Moreira Salles para criar a equipe pioneira da revista piauí, em 2006, um dos contratados foi Maklouf. Eles haviam se conhecido quando Conti fazia entrevistas para seu best seller "Notícias do planalto" (1999). "Ele me disse que, como não aceitava receber informações em 'off' dos seus entrevistados, também não falaria em 'off' comigo. Queria que fosse tudo oficial, para publicação", disse Conti à coluna neste sábado.

Maklouf odiava o "off". Ele dizia aos entrevistados que, se não falassem em "on", era melhor não falar em "off" porque ele não queria saber de algo que não seria publicado. Certa feita listou as "pragas do jornalismo" e incluiu o abuso do "off" nas reportagens. Outras eram, segundo me recordo, o "agendismo" (organizar a cobertura só a partir dos compromissos de órgãos e autoridades) e o "fontismo" (quando o repórter acredita cegamente no que uma fonte disse).

Conti escalou Maklouf para uma ampla reportagem sobre o STF (Supremo Tribunal Federal). Sugeriu que o repórter morasse um tempo em Brasília e assim fizeram, a revista alugou um apartamento na capital federal. Foram mais de seis meses de apuração. O resultado é a mais brilhante e importante reportagem já escrita sobre o STF. Foi publicada em duas edições da revista piauí e despertou a fúria do ministro Gilmar Mendes.

"Foi a primeira matéria que expôs o Supremo. Ele mostrou como funcionava o tribunal, a feira das vaidades, a influência do empresariado, as bancas dos advogados, os interesses. A matéria tocava em tanta coisa. Era uma coisa extraordinária."

Extraordinários também foram os perfis dos então ministros Dilma Rousseff e Márcio Thomaz Bastos. "Maklouf foi um cara que definiu o que é um perfil de verdade para a revista, como deveria ser um perfil na revista piauí. Ele conhecia a Dilma de antes, ela não queria falar. Mas ele perturbou tanto, encheu tanto a paciência dela, que acabou falando. Ainda hoje é o melhor perfil da Dilma e tinha inclusive o furo de ter dito que ela não tinha feito um doutorado coisa nenhuma. Ele contava isso no texto com grande serenidade e ali se percebia todo o voluntarismo da Dilma, aquela coisa de forçar conclusões, de chutar, de não saber direito. Essa matéria é um exemplo do que o Maklouf sabia fazer e fez."

Lucas Ferraz contou que Maklouf ouviu mais de 50 pessoas para compor o perfil de Dilma, publicado em 2009. "Maklouf é um dos grandes repórteres da história do jornalismo brasileiro. Jornalista leal e de caráter (algo cada vez mais escasso na profissão), ele tinha um talento especial para tirar informações dos seus entrevistados e um apetite para trabalhar que impressionava, mesmo quando a doença começou a impor restrições."

Maklouf colocou em prática um ideal de reportagem - só ele e sua família sabiam a que preço, entre empregos e desempregos. E foram muitos empregos, tendo frequentado praticamente toda a chamada grande imprensa. Passou pela alternativa, no paraense "Resistência" e correspondente em Belém de "O Movimento", onde viveu maus bocados sob pressão da ditadura e chegou a sair no braço com um delegado. No "Jornal do Brasil", em abril de 1989, deu o furo sobre uma filha do então candidato presidencial Luiz Inácio Lula da Silva fora do casamento.

Depois que a reportagem foi explorada politicamente pelo adversário Fernando Collor, a esquerda a detestou, mas Maklouf só contou uma história amarga e difícil. Era verdadeira. Não tenho dúvida de que Maklouf era de esquerda, embora ele mesmo nunca tenha me dito isso - um dia ele contou ao amigo Vasconcelos que quase virou um militante da Guerrilha do Araguaia, pois estava na "lista de espera" do PCdoB (Partido Comunista do Brasil) quando o Exército deflagrou o extermínio da guerrilha.

Mas sua visão de mundo nunca o impediu de ter escrito alguns dos textos que mais causaram dissabores à esquerda. Além da questão da filha de Lula, teve o escândalo CPEM, iniciado com uma entrevista concedida a Maklouf por Paulo de Tarso Venceslau. Veio a questão do imóvel de um advogado utilizado por Lula; Dilma e seu não doutorado. Ele incomodava mesmo, era o seu papel.

Em 1999, Lula, num gesto que para sempre será lembrado na relação do petista com a imprensa, vetou o nome de Maklouf para uma entrevista sua no programa "Roda Viva".

Eleonora de Lucena foi editora-executiva da "Folha de S. Paulo" por dez anos e nesse período conheceu e contratou trabalhos de Maklou. "Ele foi um dos mais brilhantes repórteres investigativos de sua geração. Persistente na busca dos fatos, implacável na apuração, preciso na elaboração dos textos, ele desvendou histórias intrincadas e incômodas para poderosos de plantão. Seu último livro, 'O cadete e o capitão', sobre a trajetória de Jair Bolsonaro no quartel, é um exemplo para o jornalismo. Perdemos um repórter excepcional justamente numa hora em que o jornalismo mais precisa de coragem, crítica e profundidade."

Também foram com ele projetos e ideias de livros e reportagens. Há uns três anos, ele me contou seu projeto de um dia escrever sobre o grupo de rap Racionais MC's e um de seus fundadores, Mano Brown. Explicou ter frequentado vários shows, ao longo de anos, para observar e reunir informações sobre o grupo. Na hora me pareceu surpreendente que Maklouf se interessasse por rap mas logo entendi: ele, um repórter em estado puro permanente, ia atrás das grandes histórias aonde elas estivessem. Eu tenho certeza de que seu exemplo continuará inspirando gerações de repórteres pelo país afora.

Rubens Valente