PUBLICIDADE
Topo

Advogado de Bolsonaro podia pedir diligências, diz delegado do caso Adélio

Adélio Bispo de Oliveira é transferido para presídio federal - Reprodução/Globonews
Adélio Bispo de Oliveira é transferido para presídio federal Imagem: Reprodução/Globonews
Rubens Valente

Rubens Valente é repórter desde 1989 e há 10 anos atua em Brasília. Nasceu no Paraná e trabalhou em órgãos da imprensa de São Paulo, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, onde se formou em jornalismo na UFMS (Universidade Federal do MS). É autor de "Operação banqueiro" (Geração Editorial, 2014) e "Os fuzis e as flechas - história de sangue e resistência indígena na ditadura militar" (Companhia das Letras, 2017). Recebeu 17 prêmios nacionais e internacionais, incluindo o Prêmio Esso de Reportagem, dois Prêmios de Excelência Jornalística da SIP (Sociedade Interamericana de Jornalismo) e dois Grandes Prêmios Folha.

Colunista do UOL

20/05/2020 18h01

O delegado da Polícia Federal em Minas Gerais Rodrigo Morais Fernandes, responsável pelos dois inquéritos que trataram do atentado feito por Adélio Bispo de Oliveira contra o então candidato à Presidência Jair Bolsonaro, disse nesta quarta-feira (20) que o político era representado na investigação por um advogado, que podia solicitar diligências à PF. Segundo o delegado, algumas foram acolhidas e cumpridas.

Na condição de vítima do atentado, Bolsonaro constituiu um advogado para acompanhar as investigações. O advogado fazia "o acompanhamento semanal das diligências concluídas", disse o delegado.

Bolsonaro, seu clã familiar e apoiadores costumam levantar dúvidas sobre a investigação do caso Adélio, sugerindo que o trabalho da polícia foi mal feito. No último dia 2 de maio, em uma rede social, Bolsonaro indagou se o ex-ministro Sérgio Moro "interferiu" na investigação.

Confirmando o que disse também nesta quarta-feira (20) o superintendente da PF em Minas Gerais, Cairo Duarte, o delegado afirmou que nas duas vezes em que esteve com Bolsonaro o presidente não manifestou, no seu entendimento, insatisfação com as conclusões da PF.

A primeira reunião ocorreu no primeiro semestre de 2019. A segunda, na última sexta-feira (15). Segundo Morais, na segunda ocasião "houve questionamento no sentido de elucidar dúvidas, sendo que, ao final, aparentemente, [Bolsonaro] reconheceu o esforço investigativo, não se mostrando insatisfeito com o trabalho realizado pela Polícia Federal".

O delegado explicou que uma das linhas da investigação ficou "prejudicada" por decisões judiciais que embargaram o exame de telefones do escritório de advocacia que defendeu Adélio nos dois inquéritos. A partir de um pedido da OAB, a Justiça entendeu que os telefones de advogados são indevassáveis porque violam a relação de sigilo entre cliente e advogado. O caso está pendente de julgamento no STF.

Morais prestou depoimento aos investigadores da PF e da PGR (Procuradoria Geral da República) que atuam no inquérito que investiga as denúncias do ex-ministro Sérgio Moro sobre suposta interferência de Bolsonaro no comando da Polícia Federal.

Morais atuou nos dois inquéritos sobre o caso Adélio, um que apurou o atentado em si e outro que investigou se havia um mandante por trás de Adélio. O segundo inquérito foi relatado parcialmente na semana passada sem qualquer evidência de que houve um mandante para o crime.

Um primeiro inquérito, fechado ainda em setembro em 2018, já havia concluído que Adélio agira sozinho, motivo por "inconformismo político". Adélio passou por três exames de sanidade mental a mando da Justiça Federal. Os laudos afirmam que Adélio sofria de um transtorno mental e, por isso, ele não chegou a ser julgado pelo crime, sendo condenado a passar por tratamento mental em regime fechado.

Mesmo com as conclusões da PF, Jair Bolsonaro e seu grupo político continuam levantando a teoria conspiratória de que houve patrocinadores do atentado. A teoria não se confirmou ao longo dos dois inquéritos tocados pela PF.

Rubens Valente