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Rubens Valente

Ministério da Saúde esconde a faixa etária dos mortos na pandemia

Trabalhadores funerários vestindo roupas de proteção carregam o caixão de uma mulher que morreu da doença por coronavírus (COVID-19), de sua casa, em Manaus, - BRUNO KELLY/REUTERS
Trabalhadores funerários vestindo roupas de proteção carregam o caixão de uma mulher que morreu da doença por coronavírus (COVID-19), de sua casa, em Manaus, Imagem: BRUNO KELLY/REUTERS
Rubens Valente

Rubens Valente é repórter desde 1989 e há 10 anos atua em Brasília. Nasceu no Paraná e trabalhou em órgãos da imprensa de São Paulo, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, onde se formou em jornalismo na UFMS (Universidade Federal do MS). É autor de "Operação banqueiro" (Geração Editorial, 2014) e "Os fuzis e as flechas - história de sangue e resistência indígena na ditadura militar" (Companhia das Letras, 2017). Recebeu 17 prêmios nacionais e internacionais, incluindo o Prêmio Esso de Reportagem, dois Prêmios de Excelência Jornalística da SIP (Sociedade Interamericana de Jornalismo) e dois Grandes Prêmios Folha.

Colunista do UOL

06/06/2020 04h00Atualizada em 06/06/2020 14h23

O internauta que procurasse no "Painel Coronavírus", o endereço oficial do Ministério da Saúde sobre a pandemia da Covid-19 que estava no ar até a noite desta sexta-feira (5), o número de jovens ou idosos que morreram no Brasil pelo novo coronavírus não encontraria os dados. Também nada acharia sobre pessoas que morreram mesmo sem pertencer a algum grupo de risco.

Na noite de sexta-feira, o Ministério da Saúde tirou o "Painel" do ar e colocou uma mensagem de "em manutenção", situação que permanecia até às 14h15 deste sábado (6). Em nota divulgada pelo presidente Jair Bolsonaro em sua página no Facebook, o ministério afirmou que mudou a divulgação diária dos casos da doença porque o acúmulo de dados não estava "retratando o momento do país". As divulgações passarão a conter apenas os dados das últimas 24 horas, além de serem realizadas às 22h (de Brasília), e não mais às 19h.

Quando estava no ar, havia no "Painel" um total de 20 gráficos atualizados diariamente, mas nenhum sobre a faixa etária e as eventuais comorbidades das vítimas da pandemia. Esses dados foram retirados do "Painel" entre o final da gestão do ministro Nelson Teich, que deixou a pasta no dia 15 de maio, e o começo da interinidade do general Eduardo Pazuello. Na gestão do ministro Luiz Mandetta, antecessor de Teich, esses números eram divulgados diariamente e também às vezes eram detalhados nas entrevistas coletivas concedidas à imprensa pelo então secretário de Vigilância em Saúde, Wanderson Oliveira.

A ocultação desse tipo de dado vem a calhar para a estratégia do presidente Jair Bolsonaro de incentivar a população a voltar ao trabalho durante a pandemia. Os números até agora disponíveis desmentem o senso comum difundido entre muitos brasileiros de que apenas idosos morrem de Covid-19. De acordo com os dados mais recentes, que cobrem apenas 18 mil das 35 mil vítimas fatais da pandemia, cerca de 15% dos mortos tinham menos de 49 anos de idade.

Nos últimos dias, o Ministério da Saúde tem retardado a divulgação diária dos dados "Painel". Antes às 17h00, os dados agora só entram às 22h00. O jornal "Correio Braziliense" informou na sexta-feira (5) que o adiamento foi uma medida orientada por Bolsonaro a fim de prejudicar a divulgação das mortes no noticiário noturno das emissoras de televisão. No mesmo dia à noite, indagado sobre isso, Bolsonaro disse que "acabou matéria no Jornal Nacional" da TV Globo.

A parte dos dados das vítimas da pandemia pelos critérios de faixa etária, comorbidades e cor/raça que sumiu do "Painel" hoje só pode ser encontrada em um boletim epidemiológico que costuma ser publicado em outra página no site do ministério. Depois que encontrar o boletim correto, o internauta terá que garimpar os dados em meio a dezenas de páginas que formam cada boletim - o último tinha 72 páginas.

O ministério afirma que os boletins epidemiológicos são semanais, mas o último divulgado pelo órgão sobre a pandemia é relativo à semana de 17 a 23 de maio. Ou seja, nem que o cidadão quisesse conseguiria encontrar dados, em qualquer lugar do site do ministério aberto ao público, a respeito a faixa etária e comorbidades dos brasileiros que morreram nos últimos 13 dias.

No período de 24 de maio a 6 de junho morreram no Brasil cerca de 13 mil pessoas. Sobre essa multidão, nada foi divulgado a respeito da idade ou comorbidade.

'Periodicidade estendida'

A coluna procurou o Ministério da Saúde no dia 25 de maio, que respondeu em nota: "O Ministério da Saúde informa que divulga semanalmente o Boletim Epidemiológico Especial COE-COVID 19. O material, que é público - disponibilizado na página da pasta na internet - traz, entre outros dados, o recorte por grupo de risco, faixa etária e raça/cor. Esses dados, anteriormente divulgados diariamente, tiveram sua periodicidade de divulgação estendida com o objetivo de qualificar melhor os dados a serem apresentados à população."

No "Painel Coronavírus" então no ar, o Ministério da Saúde divulgava um texto sobre as "limitações" do endereço. "O processo de atualização das informações nos municípios, estados e na esfera federal é dinâmico e complexo. Os dados informados diariamente são sujeitos a alterações. Considerando a pluralidade de cada município brasileiro no que diz respeito a porte populacional, infraestrutura e organização dos serviços de saúde, além de todos os desafios que a pandemia de Covid-19 impõe, é possível que haja mudanças no número de casos ou óbitos em decorrência de erros ou atrasos no repasse das informações."

O texto dizia ainda: "Os casos e óbitos são atualizados por data de notificação. O Ministério da Saúde vem trabalhando em conjunto com as Secretarias de Estaduais e Municipais de Saúde para divulgação desses indicadores".

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.

Rubens Valente