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Pesquisadores universitários repudiam palestra que ataca teoria da evolução

O professor Marcos Eberlin, que difunde a teoria de fundo religioso do "design inteligente" - Página de Marcos Eberlin no Facebook
O professor Marcos Eberlin, que difunde a teoria de fundo religioso do "design inteligente" Imagem: Página de Marcos Eberlin no Facebook
Rubens Valente

Rubens Valente é repórter desde 1989 e há 10 anos atua em Brasília. Nasceu no Paraná e trabalhou em órgãos da imprensa de São Paulo, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, onde se formou em jornalismo na UFMS (Universidade Federal do MS). É autor de "Operação banqueiro" (Geração Editorial, 2014) e "Os fuzis e as flechas - história de sangue e resistência indígena na ditadura militar" (Companhia das Letras, 2017). Recebeu 17 prêmios nacionais e internacionais, incluindo o Prêmio Esso de Reportagem, dois Prêmios de Excelência Jornalística da SIP (Sociedade Interamericana de Jornalismo) e dois Grandes Prêmios Folha.

Colunista do UOL

10/10/2020 05h00

Resumo da notícia

  • Palestra virtual sobre hipótese considerada pseudocientífica abriu semana de estudos científicos na Universidade Federal de Mato Grosso do Sul
  • Mais de 200 professores e pesquisadores assinaram uma moção de repúdio contra a palestra proferida por incentivador da ideia do "design inteligente"

Uma palestra que atacou a teoria da evolução das espécies e defendeu a hipótese pseudocientífica do "design inteligente" promovida pela UFMS (Universidade Federal de Mato Grosso do Sul) na abertura de um evento científico contrariou professores e alunos. Uma moção do instituto de biociências da instituição e de integrantes do programa de pós-graduação em biologia animal já havia recolhido, até sexta-feira (9), a assinatura de 200 pesquisadores.

A moção diz que "a explicação científica para a origem e evolução da vida na Terra baseia-se em um sólido conjunto de evidências e fatos que têm, entre outros atributos, legitimidade e enorme valor prático. Não podemos permitir contrapor ciência com pseudociência".

Os pesquisadores pedem que a comissão organizadora e a reitoria expliquem a decisão sobre a palestra. "Em outras palavras, sem embasamento científico, as ideias do 'design inteligente' são apenas mais uma forma de pseudociência, uma tentativa de usar um arcabouço científico para validar uma visão religiosa fundamentalista", diz a moção.

O texto "manifesta total e profundo repúdio à palestra" proferida "na abertura de um evento científico que deveria contribuir para divulgar ciência, tecnologia e inovação e não ideias pseudocientíficas".

A UFMS afirmou ao UOL que o palestrante, Marcos Eberlin, "cujo conhecimento científico é reconhecido pela própria comunidade científica, é doutor em Química pela Unicamp, com pós-doutorado na Universidade de Purdue, Estados Unidos".

"A Universidade constitui-se em um local para imersão em temáticas diversas, para expansão do conhecimento, para debate livre de teorias e propostas, em respeito à pluralidade e diversidade de conhecimentos e de ideias, presente no mundo acadêmico, como previsto na Constituição que estipula que o ensino será ministrado observando-se o pluralismo de ideias e concepções pedagógicas (art. 206, III, da Constituição Federal), preceito presente na programação do Integra UFMS 2020 e da SBPC, realizada em 2019 na UFMS", disse a assessoria da instituição.

Na moção, os pesquisadores afirmam que "debate de ideias pressupõe que os dois lados estejam em pé de igualdade, ou seja, os dois lados concordam sobre a natureza da realidade e têm as mesmas oportunidades de exposição de ideias. Este não é o caso de uma ideologia que se utiliza de artifícios rasteiros para dar uma roupagem científica às ideias criacionistas e que defende apenas a visão de um único grupo religioso".

Palestrante diz que não "crê na evolução, não fecha com a evolução"

O "Integra UFMS", hoje em sua quarta edição, é considerado pela instituição como "o maior evento científico de Mato Grosso do Sul, que reúne todos os programas institucionais de ensino, pesquisa, extensão, empreendedorismo e inovação da universidade". Mais de mil trabalhos foram apresentados por alunos de várias áreas. Participam estudantes dos ensinos fundamental, médio e superior.

A programação foi definida por uma comissão organizadora nomeada pela reitoria. A palestra virtual que abriu o evento na segunda-feira (5) ficou a cargo do convidado Marcos Eberlin, conhecido como um dos principais disseminadores do "design inteligente" no país.

Segundo a hipótese, de cunho religioso, haveria um "designer" por trás da origem do universo e dos seres vivos. Seus apoiadores atacam a teoria da evolução das espécies apresentada pelo cientista britânico Charles Darwin (1809-1882) no século 19.

Na palestra virtual ao vivo, denominada "A viabilidade da evolução à luz da química", Eberlin não foi submetido a nenhum contraponto ou intervenção de cientistas. Na apresentação ele conversou apenas com o anfitrião, o pró-reitor de extensão, cultura e esporte da UFMS, Marcelo Fernandes Pereira, que é "bacharel em violão, mestre em musicologia e doutor em artes pela ECA-USP". O pró-reitor disse na live que "a nossa responsabilidade como instituição é promover o debate acadêmico na sua diversidade".

Eberlin usou diversas vezes o termo "magnífico" para falar sobre o universo, a água, os seres humanos. Relativizando a teoria de que há outros planetas com condições de vida semelhantes às da Terra, Eberlin disse que na verdade "habitamos a suíte presidencial do universo".

Ele disse que "a [teoria da] evolução espera que você não saiba química".

"Quando você sabe química, quando você vai avaliar as reações, [...] quando você calcula as reações, quando você calcula a probabilidade da beleza magnífica das estruturas químicas, da periodicidade da tabela periódica, de existir um átomo como o carbono, uma atmosfera como a nossa [...], a gente conclui que a viabilidade é zero É um zero vezes zero vezes zero vezes zero. É uma impossibilidade vezes uma impossibilidade. É impossível vezes impossível vezes impossível. Por isso que não creio na evolução, eu não fecho com a evolução, porque a minha química me proíbe. Entendo claramente que uma mente inteligente fez o universo."

O professor disse que as pessoas "ficam batendo cabeça numa alternativa errada", em relação à teoria da evolução. "É hora da gente mudar o paradigma, voltar ao bom e velho paradigma do início da ciência. A ciência nasceu com a percepção do 'design inteligente'. Os grandes cientistas eram defensores do 'design inteligente' e ainda são."

Durante a palestra, Eberlin convidou os espectadores a se filiarem a uma certa "Sociedade Brasileira de Design Inteligente", com um link de filiação "rápido, fácil e gratuito" e sugeriu um curso de sua autoria com "nove lições" sobre o "design inteligente".

O presidente da ADUFMS (Associação dos Docentes da UFMS), Marco Aurélio Stefanes, entidade com mais de 840 integrantes, disse que a palestra "foi uma surpresa para todos" porque a programação foi definida pela universidade com "um grupo pequeno" e sem consulta prévia ao conjunto dos professores.

"Achamos que houve uma falha no comitê científico da universidade. A palestra não se caracteriza como debate científico e não deveria ter sido feita como foi feita, muito menos na abertura do evento. [O palestrante] era um especialista em química, reconhecemos, mas na área de evolução é um leigo, como muitos cientistas são leigos em outras áreas do conhecimento", disse Stefanes, que é formado em ciência da computação, doutor pela Universidade de São Paulo, trabalha com biologia molecular e integra a pós-graduação da ciência da computação na UFMS.

Stefanes disse que a palestra "não foi debate científico e beira o charlatanismo".

"Para se contrapor a uma teoria é preciso ter uma metodologia científica. Para desfazer uma teoria pré-existente, cada passo que você dá na argumentação precisa ser um passo válido. Não se justifica a linha de raciocínio que ele [Eberlin] traçou [na palestra]. Na ciência, às vezes posso ter convicção de uma coisa, mas se os dados chegam a outra referência, tenho que recuar na convicção. Na verdade ele vai para um processo de persuasão, de tentativa de convencimento de um público leigo no assunto. Quanto mais pessoas aderirem ao movimento dele, mais ele vai justificar que tem muitas pessoas pensando como ele."

Hipótese 'tenta dar roupagem científica ao criacionismo', dizem pesquisadores

Em um artigo publicado pela "Folha de S. Paulo" em fevereiro passado, Eberlin rebateu a afirmação de que o "design científico" seja pseudociência. "A TDI defende Deus? Falso! Se Ele é Deus, não carece de defesa. Defendemos a ciência. Aponta para um criador? Fato! Mas a evolução não aponta para a inexistência dele?"

Na moção, os pesquisadores da UFMS mencionaram que "a ideologia do 'design inteligente' adquiriu várias roupagens ao longo da história" e que "um marco decisivo ocorreu em 1987", quando a Suprema Corte dos EUA "foi taxativa em afirmar que o Estado é laico, que criacionismo é uma teoria religiosa, e que escolas públicas são proibidas de ensinar criacionismo como 'alternativa' à Teoria da Evolução Biológica".

"Depois desta derrota, criacionistas desenvolveram a ideia do 'design inteligente' para tentar dar uma roupagem científica ao criacionismo e tentar passar novamente uma lei obrigando o seu ensino em escolas públicas. Novamente não foram bem-sucedidos. Hoje é consenso que 'design inteligente' é uma ideologia pseudocientífica e falaciosa que tenta explicar a origem da vida e evolução orgânica, mas que não fornece predições testáveis e que, portanto, não pode ser falseável. Logo, segundo este critério ela não pode ser considerada uma ideia válida cientificamente", afirmam os pesquisadores.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.