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Documentário "Callado" vê o escritor nos "momentos graves da vida nacional"

O escritor brasileiro Antonio Callado Imagem: Acervo Ana Callado
Rubens Valente

Colunista do UOL

30/01/2021 04h01

Resumo da notícia

  • Filme dirigido por Emilia Silveira e lançado neste mês reconta a trajetória do jornalista Antonio Callado (1917-1997), autor de "Quarup" (1967)

"Tanto o poeta como o romancista, esse homem não pode fingir que não tem nada que ver com o que está ocorrendo em volta dele. Isso eu acho absolutamente monstruoso. Sobretudo em momentos graves da vida nacional. E você sabe que têm ocorrido momentos graves nesse país. Ele não pode alegar que, como ele é escritor, ele não está sabendo o que ocorre nas prisões. Realmente isso eu acho indesculpável. Quanto à liberdade de criação, essa deve ser total."

A reflexão do escritor e jornalista Antonio Callado (1917-1997) que aparece no documentário sobre o autor de "Quarup" (1967), concluído em 2017 e lançado neste mês de janeiro, tratava das torturas praticadas durante a ditadura militar (1964-1985). Mas tem o seu significado renovado no Brasil de Jair Bolsonaro.

No país da pandemia descontrolada que já matou mais de 220 mil pessoas, dos ataques à ciência e à cultura, do ódio ao jornalismo, da destruição da Amazônia, do desmantelamento dos direitos indígenas, qual papel caberia a um escritor e jornalista?

"A trajetória do Callado é o compromisso de um jornalista com a realidade de seu país. Não que isso seja simples. Como diz o jornalista Wilson Figueiredo no filme, o Callado sempre teve a preocupação de dar sua opinião nos seus textos jornalísticos, mas isso não era fácil na época da ditadura e continuou não sendo fácil depois que a ditadura terminou", diz a diretora de "Callado" (2021), a jornalista e documentarista Emilia Silveira, que chegou a conviver com o autor de "Reflexos do baile" (1976) na redação do "Jornal do Brasil".

A cineasta e jornalista Emilia Silveira, diretora de "Setenta", "Galeria F" e "Callado" Imagem: Camila Marchon

"O exemplo que o Callado passa é de um jornalista o tempo inteiro preocupado com os acontecimentos do Brasil, com o caminho para onde o Brasil ia, a nossa dificuldade de entender as questões agrária, social. O Callado foi a vida inteira preocupado com isso. Só para dar um exemplo, o 'Tempo de Arraes', livro sobre as Ligas Camponesas, é uma bonita reportagem que virou livro. Uma reportagem de opinião com um texto literário."

Morto em 1997, quando a internet ainda engatinhava e as redes sociais inexistiam, Callado viveu um tempo em que os intelectuais participavam da vida política por meio de livros, jornais, revistas e peças de teatro e de debates na academia, na TV e no rádio. Na sua última entrevista, concedida à "Folha de S. Paulo" no início daquele ano aos jornalistas Matinas Suzuki Jr. e Maurício Stycer, hoje colunista do UOL, ele não pareceu empolgado com a tecnologia da informação ("esse negócio de internet, não tenho o menor interesse"). Mas, provoco Emilia, em 2021 ele viveria afastado da cacofonia política das redes sociais?

"Acho que o Callado estaria no Twitter, sim, estaria nas redes sociais. Ele sempre escreveu, a vida toda. Ele morreu escrevendo um livro e tinha uma coluna na 'Folha'. Ele estaria no Twitter, ou nessas redes da imprensa independente na internet. Hoje os jornalistas que não levam em conta a mídia social - claro, a decisão é de cada um - têm um público menor, atingem menos pessoas."

Jornalista ao longo de seis décadas, com passagens pela BBC, "Correio da Manhã" e "Jornal do Brasil", entre outros veículos, Antonio Callado lamenta, em outro trecho do documentário, sobre os limites do jornalismo e da militância política: "Você não consegue ser esquerdista ou a favor de Cuba em nenhum jornal brasileiro, dos de primeira linha, não tem nenhum, são todos contra. Mas você consegue ter sua opinião lá dentro, uma vez que você force sua opinião e diga a eles: 'Ou eu trabalho assim ou eu não escrevo nada'. Eles aceitam".

Durante a ditadura, Callado foi preso "umas quatro vezes" em decorrência do seu trabalho como jornalista, segundo contou na entrevista à "Folha" em 1997. Em depoimento para o documentário, o amigo e companheiro de redação Carlos Heitor Cony (1926-2018) disse que Callado "foi o único jornalista que ficou proibido, por lei, de escrever em jornal" na ditadura. "Se algum jornal publicasse artigo do Callado, nessa época, [o responsável] seria preso", afirmou Cony no documentário.

Num dos trechos mais significativos do filme, Cony conta que, quando apresentou sua carta de demissão para diminuir as pressões dos militares sobre o "Correio da Manhã", Callado também decidiu se demitir, em solidariedade.

Emilia - ela própria presa pela ditadura no Rio de Janeiro por perseguição política, aos 20 anos de idade - conhece bem o período militar, tendo dirigido dois documentários sobre o tema: "Setenta" (2013), a respeito da troca de prisioneiros políticos pelo embaixador suíço Giovanni Enrico Bucher, sequestrado em dezembro de 1970, e "Galeria F" (2016), que conta a história de Theodomiro Romeiro dos Santos, preso, torturado e condenado à morte pela ditadura.

Segundo Emilia, Callado "tinha uma visão humanista e política de esquerda, mas não foi comunista", conforme seus parentes atestam hoje. "Era um cara que tinha um grande coração e pensava no ser humano vivendo uma vida melhor. Ele lutou muito, com as armas que tinha na época e com a cabeça que tinha na época."

No filme, o escritor defende: "Não tem incompatibilidade entre você escrever a mais hermética das poesias e participar da vida, inclusive do sofrimento, do país. Pelo amor de Deus".

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